A Prenuvo, maior rede privada de ressonância magnética de corpo inteiro voltada ao consumidor, lançou em 29 de setembro a Prenuvo Research Network, uma rede de pesquisa que abre a pesquisadores acadêmicos o acesso controlado a um banco com mais de 200 mil exames adquiridos com protocolo padronizado. A empresa diz que a iniciativa reúne colaboradores de mais de 50 instituições, entre elas City of Hope, Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e Moffitt Cancer Center, e estreia com quatro estudos sobre achados incidentais e alterações estruturais. A notícia foi divulgada em comunicado da empresa e repercutida pelo AuntMinnie.

O que é a rede e o que ela oferece aos pesquisadores
O núcleo da rede é o chamado Prenuvo Imaging Biobank, um acervo proprietário de exames de corpo inteiro feitos em equipamentos de 1,5 T com sequências padronizadas. Segundo o comunicado, a equipe interna de Medical Affairs e pesquisa em IA da empresa cuida da curadoria, da padronização e da análise, e entrega aos colaboradores conjuntos de dados desidentificados e sumários estatísticos produzidos com ferramentas de inteligência artificial. A empresa afirma que os estudos seguem exigências éticas e regulatórias, com revisão pelo comitê de ética (IRB) da instituição parceira quando necessário.
A Prenuvo apresenta a rede como alternativa aos ciclos longos de financiamento acadêmico e cita dados da AAMC segundo os quais o número de bolsas competitivas do NIH caiu de 63% a 66% no ano fiscal de 2026. O vice-presidente de pesquisa e Medical Affairs, Alex Exuzides, disse que o objetivo é gerar evidência de mundo real sobre o papel da RM de corpo inteiro na prática clínica. Do lado acadêmico, o oncologista torácico Lary Robinson, do Moffitt, afirmou que o grupo estuda pessoas fora dos critérios atuais de rastreamento de pulmão, como não fumantes e mulheres; Jacob Young, neurocirurgião da UCSF, disse que os dados podem ajudar a definir a frequência e as características de lesões descobertas por acaso. A empresa opera hoje 26 clínicas na América do Norte, Austrália e Europa.
Os quatro estudos de estreia, em números
Os trabalhos que inauguram a rede são resumos de congresso, não artigos completos. Os números a seguir vêm dos resumos publicados no site da empresa.
Pulmão e mediastino (City of Hope). Análise retrospectiva de 118.019 exames feitos entre janeiro de 2020 e junho de 2025, em aparelhos Philips (75%) e Siemens (25%), com laudos estruturados pelo sistema ONCO-RADS. Foram descritos 3.547 nódulos em 3.388 pessoas, com mediana de 7 mm. Em 232 exames (6,8% do grupo com nódulos, segundo o resumo), a classificação foi ONCO-RADS 4 ou 5, ou seja, potencial ou altamente suspeita; só 37,3% desses pacientes tinham história de tabagismo. Das 77 massas mediastinais, 53 foram consideradas suspeitas. Os autores concluem que é preciso pesquisa prospectiva para saber se isso reduz mortalidade.
Achados cerebrais (UCSF). Entre 78.800 pessoas examinadas de janeiro de 2024 a junho de 2025 em 21 clínicas, 5.637 (7,1%) tiveram ao menos um achado de grau 3 ou mais numa escala interna de cinco pontos, em que 3 significa baixa preocupação. O mais comum foi aneurisma intracraniano (2,2%), seguido de doença de pequenos vasos (0,95%), lesão indeterminada (0,7%) e infarto (0,65%). Apenas 2,6% dos aneurismas tinham mais de 7 mm. Gliomas (0,02%) e metástases (0,01%) foram raros.
Rins (Universidade de Michigan e Universidade de Cambridge). Em 117.826 pessoas com idade média de 48 anos, 26,7% tinham cistos simples e 3,1% tinham cistos complexos ou lesões sólidas. Dessas lesões, 52% mediam menos de 1 cm e 92,8% menos de 3 cm; apenas 155 (4,2%) tinham 4 cm ou mais. Após ajuste multivariado, só idade e história familiar seguiram associadas às lesões maiores. Os próprios autores destacam a dificuldade de separar os tumores relevantes da maioria indolente.
Álcool e estrutura corporal. Estudo pareado com 1.134 exames (567 pares) comparou abstêmios com pessoas que relataram duas ou mais doses por dia, sem transtorno por uso de álcool. Com segmentação automática por nnU-Net e FastSurfer, o grupo que bebia tinha fígado 10% maior, rins 5,7% maiores, 15,6% mais gordura visceral e menor volume em 24 regiões cerebrais. É o mesmo tipo de biomarcador de composição corporal por IA que discutimos ao cobrir a RM de corpo inteiro com IA que prevê doenças anos antes.
O que os dados mostram e o que ainda não mostram
O tamanho do banco é real e, em epidemiologia de achados incidentais, ele tem valor: números de prevalência a partir de dezenas de milhares de exames com protocolo único são raros. O estudo cerebral, por exemplo, se compara ao Rotterdam Scan Study, a coorte populacional holandesa que virou referência sobre achados incidentais no crânio. O problema está no que esses dados não conseguem responder.
Primeiro, a população é autosselecionada. Quem paga do próprio bolso por uma RM de corpo inteiro tende a ter mais renda, mais preocupação com saúde e, em parte, sintomas ou história familiar que motivaram o exame. Isso difere de coortes populacionais como o UK Biobank ou a alemã NAKO, que recrutam por amostragem e cruzam imagem com registros de saúde ao longo de anos. Segundo, nenhum dos quatro resumos informa confirmação histológica nem desfecho: sabemos quantas lesões foram classificadas como suspeitas, mas não quantas eram câncer, quantas biópsias foram feitas ou quantas complicações vieram da investigação. Terceiro, há conflito de interesses estrutural: pesquisadores da própria empresa assinam os trabalhos e controlam o acesso aos dados.
Os números renais ilustram bem o dilema do incidentaloma. Mais de um quarto dos examinados tinha cisto simples e mais de nove em cada dez lesões sólidas ou complexas tinham menos de 3 cm, faixa em que a conduta costuma ser vigilância. No cérebro, a maioria dos aneurismas é pequena, e aneurismas não rotos abaixo de 7 mm em geral têm baixo risco de ruptura; descobri-los gera seguimento com angio-RM, ansiedade e, às vezes, intervenção de benefício incerto. A questão do impacto da detecção precoce de aneurismas também aparece no nosso texto sobre IA que encontra 39% mais aneurismas na angio-TC.
No pulmão, a comparação natural é com a TC de baixa dose. O NLST mostrou redução de 20% na mortalidade por câncer de pulmão com TC frente à radiografia, e esse é o padrão de evidência que a RM de corpo inteiro ainda não tem: não há ensaio clínico randomizado com desfecho de mortalidade. Além disso, a RM é menos sensível que a TC para nódulos pequenos. As estratégias para ampliar o rastreio por TC aparecem em nossa cobertura do WCLC 2026 sobre rastreio de pulmão.
A posição das sociedades médicas
O American College of Radiology afirma desde 2023 que não há evidência suficiente para recomendar rastreamento de corpo inteiro em pessoas sem sintomas ou sem história familiar sugestiva de doença, citando achados incidentais, custos e exames em cascata. Nenhuma grande sociedade médica recomenda o exame para pessoas saudáveis. Como relatamos quando radiologistas rebateram as afirmações de um podcaster sobre a RM de corpo inteiro, o debate também envolve uso de recursos: o tempo de magneto e de radiologista gasto em pessoas assintomáticas compete com a fila de pacientes com indicação.
Isso não significa que a RM de corpo inteiro não tenha lugar. Ela é ferramenta consolidada em indicações específicas, como a vigilância de portadores da síndrome de Li-Fraumeni, a avaliação do mieloma múltiplo (padronizada pelo MY-RADS) e o estadiamento de doença óssea metastática. O ONCO-RADS, usado nos laudos da Prenuvo, foi proposto em 2021 justamente para padronizar o laudo de RM de corpo inteiro em rastreamento oncológico. A divergência está no uso em pessoas sem risco aumentado.
O que isso significa para radiologistas e serviços no Brasil
No Brasil, a RM de corpo inteiro já aparece em pacotes de check-up de clínicas privadas, e os quatro estudos dão aos radiologistas uma noção prática do que esperar: perto de 7% das pessoas com algum achado cerebral que exige pelo menos acompanhamento, cerca de 3% com lesão renal complexa ou sólida e uma parcela de nódulos pulmonares classificados como suspeitos. Cada um desses achados exige um fluxo de seguimento. Sem ele, o risco é o mesmo de qualquer achado incidental, como mostrou o caso do nódulo de 8 mm esquecido que virou câncer em estágio 4.
Para quem pensa em montar bancos de imagem para pesquisa, o modelo da Prenuvo também levanta questões de governança. A reutilização de exames assistenciais em pesquisa exige base legal e transparência, e no Brasil isso passa pela LGPD e pelo sistema CEP/Conep. A desidentificação de exames de RM de corpo inteiro não é trivial: imagens de crânio permitem reconstrução facial, e o cabeçalho DICOM carrega metadados que precisam de limpeza sistemática.
A rede pode produzir a epidemiologia de achados incidentais em escala que a literatura não tem. Mas prevalência não é benefício. A pergunta que importa, se a RM de corpo inteiro em pessoas saudáveis reduz mortalidade sem causar mais dano do que evita, continua sem resposta, e só estudos prospectivos com desfechos clínicos e acompanhamento independente vão respondê-la.




