O que o WCLC 2026 mostrou sobre o rastreio por TC de baixa dose
A tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD) deixou de ser promessa de ensaio clínico e virou política pública em um número crescente de países — o gargalo agora é logístico, não de evidência. Foi essa a mensagem das sessões dedicadas a rastreamento no Congresso Mundial de Câncer de Pulmão da IASLC, o WCLC 2026, realizado entre 12 e 15 de setembro em Seul, na Coreia do Sul. Austrália, Taiwan, China e França levaram ao palco dados de programas já em operação, e o fio condutor foi o mesmo: como alcançar mais gente elegível sem estourar a capacidade instalada de TC e sem afogar o serviço de radiologia em nódulos indeterminados.

Dois eixos organizaram o debate. O primeiro é quem deve ser convidado: os critérios clássicos, herdados do NLST, olham apenas para idade e carga tabágica, e vários programas já mostram que isso deixa de fora populações com risco relevante. O segundo é o que fazer com o exame depois de realizado — da padronização do laudo ao uso de algoritmos que estimam risco futuro, e não apenas descrevem o nódulo de hoje.
Os números que os programas nacionais levaram a Seul
A Austrália foi o caso mais observado, por ter o programa nacional mais recente: começou em 2025 e já projeta um deslocamento de estágio em escala populacional. Com adesão de 50% entre os elegíveis, os pesquisadores estimam que a fatia de diagnósticos em estágio I suba dos atuais 32% para 42% entre mulheres e 43% entre homens. O ensaio Ready to Screen (R2S), que ouviu 1,7 mil candidatos elegíveis, ajuda a explicar o otimismo: 85% declararam intenção “definitiva” de fazer o exame e 26% relataram já ter feito uma TCBD.
Taiwan trouxe o dado que mais desafia os critérios em vigor. Entre os 2,8 mil cânceres detectados pelo programa nacional, a taxa de detecção foi 74% maior em quem entrou por histórico familiar de câncer de pulmão do que em quem entrou pelo critério de tabagismo — 18 contra 10 cânceres por mil pessoas rastreadas. E não foi só volume: 92% dos casos do grupo com histórico familiar apareceram em estágio precoce, contra 83% no grupo definido por tabagismo. Pelo menos no Leste Asiático, onde o câncer de pulmão em não fumantes tem peso epidemiológico muito maior, o histórico familiar se mostra um critério de convocação legítimo.
A China apresentou um programa que rastreou 6,7 mil pessoas incluindo fatores de risco além do cigarro, com redução de 56% na mortalidade por câncer de pulmão. Já a França atacou o outro lado da equação: acoplou terapia de cessação do tabagismo ao programa de rastreio e registrou 88% de comparecimento aos exames, com participantes 44% menos propensos a seguir fumando. É talvez o argumento mais econômico do congresso — o mesmo convite que detecta o tumor também ataca a causa dele.
Do nódulo descrito ao risco estimado
A TCBD é uma aquisição torácica sem contraste feita com uma fração da dose de uma TC diagnóstica, desenhada para encontrar nódulos pulmonares em pessoas assintomáticas. O laudo costuma seguir o Lung-RADS, que classifica o achado por tamanho e densidade e define o intervalo de retorno. É um sistema descritivo: responde “quão suspeito é este nódulo agora”, não “qual a chance de esta pessoa ter câncer daqui a um ano”.
Essa distinção explica o interesse pelo Sybil, algoritmo do MIT apresentado em Seul. Aplicado a dois grandes conjuntos de rastreio, o NLST e o P-IELCAP, o modelo superou o Lung-RADS em AUC na previsão de risco de câncer em um ano a partir de nódulos suspeitos. Mais curioso ainda: rodado sobre exames de escore de cálcio coronariano, o Sybil também estimou risco de câncer de pulmão em fumantes e não fumantes ao longo de 15 anos de seguimento — informação oncológica latente em um exame pedido por outro motivo. Outro grupo usou o software Illuminate AI, da Softek, para varrer exames de rotina em busca de nódulos pulmonares incidentais e encontrou mais casos de câncer do que o rastreio convencional isolado. Já discutimos por aqui como achados incidentais na TC de pulmão sinalizam risco de câncer e como IA e navegação de pacientes elevam as taxas de rastreamento.
O que muda na prática — e onde o Brasil entra
Para o serviço de radiologia, escalar rastreio significa três coisas concretas: protocolo de aquisição padronizado e auditado, laudo estruturado e um circuito de seguimento que realmente feche. A padronização não é detalhe: um estudo que comentamos recentemente mostrou quanta variabilidade existe entre radiologistas na leitura da TC de pulmão, e um programa populacional amplifica qualquer dispersão de critério. A experiência asiática também reforça o que o estudo de Singapura sobre TC de baixa dose já apontava sobre rastrear populações que não se encaixam no perfil do fumante pesado ocidental.
No Brasil, a TCBD ainda não integra as diretrizes nacionais de rastreamento — diferentemente da mamografia e do exame citopatológico do colo do útero, que já têm recomendação e fluxo definidos no SUS. O passo mais concreto até agora foi dado em abril de 2026, quando o INCA, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e a AstraZeneca lançaram um estudo de viabilidade no Hospital Municipal Souza Aguiar, coordenado pelo epidemiologista Arn Migowski. O desenho prevê no mínimo 397 participantes de 50 a 80 anos, fumantes ou ex-fumantes que pararam nos últimos 15 anos, recrutados pelo programa municipal de cessação do tabagismo, com dois anos de acompanhamento. O objetivo declarado é gerar evidência local para uma futura diretriz nacional.
O tamanho do problema justifica a pressa. O Atlas de Mortalidade do INCA registrou 32.465 mortes por câncer de brônquios e pulmão em 2024, mais do que próstata (17.826) e mama (20.849) somadas. Cerca de 84% dos casos chegam em estágio avançado e a sobrevida em cinco anos fica perto de 5,2%. É exatamente essa proporção que os programas apresentados em Seul conseguem inverter.
O que vem a seguir
Os dados de Seul têm limites que convém dizer em voz alta. A projeção australiana é modelagem, não desfecho observado: depende de uma adesão de 50% que nenhum programa nacional de rastreio pulmonar alcançou até agora. A coorte chinesa de 6,7 mil pessoas é pequena para sustentar sozinha uma estimativa de mortalidade. E o achado taiwanês sobre histórico familiar reflete uma epidemiologia do Leste Asiático que não se transporta automaticamente para cá. O Sybil, por sua vez, foi validado em bases de rastreio já bem caracterizadas; rodá-lo sobre exames de rotina de um hospital brasileiro é outro problema, com outra distribuição de equipamentos e protocolos.
Ainda assim, a direção é clara. O rastreio de pulmão está trilhando o mesmo caminho da mamografia: sai do ensaio clínico, entra na política pública e passa a ser julgado por adesão, capacidade instalada e qualidade de laudo. Para o Brasil, a decisão relevante nos próximos anos não será se a TCBD funciona — isso já está respondido — mas quem convidar, com qual parque de tomógrafos e com que circuito de seguimento.
Fonte: The Imaging Wire




