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O Escritório do Inspetor-Geral (OIG) do Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos confirmou por escrito o que radiologistas americanos vinham dizendo desde julho: houve um êxodo em massa de radiologistas no VA Medical Center de Washington, DC, e o gatilho foi a exigência de retorno ao trabalho presencial imposta em janeiro de 2025. Quatro dos cinco radiologistas diagnósticos em tempo integral da unidade — incluindo o chefe do serviço — pediram demissão nos seis meses seguintes. O resultado prático: ressonância de corpo suspensa, fila de tomografias e exames terceirizados para clínicas da comunidade.

O que o relatório do OIG realmente diz

O documento, divulgado em 5 de agosto de 2026 sob o título Review of Radiology Staffing and Services at the VA Washington DC Healthcare System, não é uma reportagem: é uma auditoria oficial com sete recomendações formais à rede. E ela cita a expressão “êxodo em massa” ao descrever a saída dos médicos.

Gráfico do OIG do VA comparando contratações e perdas mensais de radiologistas diagnósticos na VHA de outubro de 2024 a setembro de 2025, com seta marcando a exigência de retorno presencial em 20 de janeiro de 2025
Contratações x perdas de radiologistas na VHA entre outubro/2024 e setembro/2025. A seta marca o memorando de retorno presencial de 20/01/2025. Fonte: VA Office of Inspector General.

O ponto de virada tem data exata. Em 20 de janeiro de 2025, um memorando presidencial ordenou que todos os órgãos federais “tomassem todas as medidas necessárias para encerrar acordos de trabalho remoto” e trouxessem os servidores de volta ao presencial em tempo integral. Para a maior parte da máquina pública, isso foi logística. Para a radiologia, foi demolição de um modelo operacional consolidado desde a pandemia — política que, nas palavras do próprio OIG, havia deixado de ser temporária e “se tornou prática padrão” dentro do VA.

O relatório é explícito ao dizer que o memorando funcionou como um tipping point que “assustou” os radiologistas. O VA depois concedeu uma exceção que liberava novamente a leitura remota para a especialidade, mas ninguém sabia se a exceção seria renovada depois de um ano. Essa incerteza de doze meses foi suficiente para empurrar profissionais para o mercado privado — e para travar qualquer tentativa de recrutar substitutos.

Os números que ninguém tinha visto

A parte mais reveladora da auditoria é uma série mensal de contratações e perdas de radiologistas diagnósticos em toda a Veterans Health Administration (VHA) entre outubro de 2024 e setembro de 2025 — o gráfico reproduzido acima, extraído dos dados de RH da própria rede.

Nos quatro meses anteriores ao memorando (outubro a janeiro), a rede contratou 36 radiologistas e perdeu 30: saldo positivo de seis. Nos oito meses seguintes (fevereiro a setembro), contratou 29 e perdeu 116: saldo negativo de 87. No ano fiscal completo foram 65 entradas contra 146 saídas — 81 radiologistas líquidos a menos. Maio de 2025 marcou o pior mês isolado, com 20 desligamentos contra 3 contratações.

Vale ler as duas curvas com cuidado, porque elas contam histórias diferentes. A linha de perdas dispara. Mas a linha de contratações também desaba — de 15 em janeiro para 1 em março. Ou seja: o problema não foi apenas gente saindo pela porta, foi a porta de entrada fechando ao mesmo tempo. É o retrato de um empregador que perdeu competitividade da noite para o dia num mercado em que a estação de laudo já não está presa a um endereço.

O que aconteceu com os exames

A consequência assistencial aparece em sequência cronológica no relatório. As ressonâncias de corpo do hospital de Washington foram suspensas em julho de 2025. Em setembro de 2025 formou-se uma fila de tomografias. Exames passaram a ser encaminhados a centros de imagem da comunidade. Segundo o ex-chefe de radiologia da unidade, sua própria carga de trabalho subiu a um nível de produtividade “mais que o dobro do esperado” enquanto a equipe encolhia.

O OIG identificou seis casos de pacientes que considerou de preocupação particular pelos atrasos — mas é importante ser preciso: a auditoria conclui que não houve dano documentado a paciente. O que ela documenta é risco, e falhas de governança que impediram a instituição de enxergar esse risco. Os gestores da unidade não seguiram os protocolos de notificação da área de gestão da qualidade quando os problemas já eram conhecidos, e a unidade não mantinha rastreamento adequado dos exames radiológicos incompletos. Um serviço que não sabe quantos exames estão pendentes não tem como estimar o próprio risco.

Havia ainda um problema anterior à crise de pessoal: no momento da revisão, a unidade não tinha um programa funcional de mamografia, também por perda de equipe, e nunca havia implementado integralmente as recomendações que o National Radiology Program Office fizera em setembro de 2019 — incluindo supervisão de treinamento, controle de qualidade sobre o envio das cartas de resultado às pacientes e um programa formal de capacitação para a equipe de mamografia.

Por que isso importa fora dos Estados Unidos

O caso do VA de Washington é um estudo de caso sobre o que acontece quando uma política de presença física é aplicada a uma especialidade que se desacoplou fisicamente do hospital. Nós já tratamos aqui do impacto inicial da revogação do teletrabalho na rede do VA, quando a discussão ainda se baseava em relatos de imprensa. A auditoria fecha o argumento com dados de RH da própria instituição.

A leitura útil para gestores brasileiros é sobre desenho de contrato e retenção, não sobre política americana. Serviços que dependem de teleradiologia para cobrir plantões, subespecialidades ou unidades remotas precisam tratar a modalidade de trabalho como cláusula estrutural, não como benefício revogável. Uma incerteza de doze meses sobre o local de trabalho — como a exceção temporária do VA — é economicamente equivalente a um corte salarial: o profissional precifica o risco e busca previsibilidade em outro lugar. Vale lembrar que o tempo de laudo já vinha subindo de forma consistente nos EUA antes desta crise, o que reduz qualquer folga do sistema para absorver perdas de equipe.

O que observar daqui para frente

Três indicadores merecem acompanhamento. Primeiro, se a exceção de trabalho remoto para radiologistas do VA será tornada permanente — sem isso, o recrutamento continua travado. Segundo, se as sete recomendações do OIG sobre rastreamento de exames incompletos e notificação de qualidade serão implementadas com prazo verificável. Terceiro, e mais importante, se o padrão de Washington se repete em outras unidades: a curva nacional de perdas sugere que a unidade auditada não é um caso isolado, mas a ponta visível de um movimento que atingiu a rede inteira.

Do lado da capacidade instalada, existe um contraponto: parte da pressão pode ser absorvida por ganho de eficiência operacional, e não só por contratação. É o argumento que discutimos ao analisar como a otimização de agenda e protocolo pode elevar a produção por scanner. Só que eficiência não substitui laudo: sem radiologista, o exame adquirido apenas troca de lugar na fila.

Fonte: The Imaging Wire — VA Probes Radiologist ‘Mass Exodus’