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A Affiliated Radiology é uma nova rede nacional criada por dois grupos independentes de radiologia dos Estados Unidos — a Colorado Imaging Associates (CIA), de Denver, e a TRA Medical Imaging, de Tacoma — para compartilhar PACS, infraestrutura de inteligência artificial e capacidade de laudo sem que nenhuma das clínicas venda participação a investidores. O anúncio, feito em 9 de setembro, reúne quase 200 radiologistas e nasce com um convite explícito: outros grupos independentes podem entrar.

Aperto de mãos com sobreposição de rede digital, símbolo da aliança entre grupos independentes de radiologia na Affiliated Radiology
Colorado Imaging Associates e TRA Medical Imaging somam quase 200 radiologistas na Affiliated Radiology. Imagem: iStock via Radiology Business.

O que é a Affiliated Radiology

A entidade se apresenta como uma organização de serviços de radiologia liderada por médicos. Na prática, funciona como uma camada compartilhada de tecnologia e operação: uma plataforma escalável de PACS, fluxos de trabalho apoiados por IA e ferramentas de IA diagnóstica rodando sobre infraestrutura comum. A promessa é agregar investimento em tecnologia, poder de compra e escala clínica de vários grupos para baixar o custo de ferramentas caras — o comunicado cita nominalmente o pré-rascunho de laudo assistido por IA — e repassar a economia aos parceiros.

O segundo pilar é clínico. Os grupos afiliados passam a dividir capacidade de leitura, subespecialistas e cobertura, com padrões coordenados, mantendo propriedade local e liderança médica. No site, a rede lista as subespecialidades em que pretende harmonizar a cobertura: neurorradiologia, emergência, musculoesquelético, corpo, mama, pediatria e cardiotorácico. Essa cobertura pode ser local, regional ou via teleradiologia segura, conforme a necessidade do hospital ou do centro de imagem.

“Esta parceria nos permite combinar as forças de várias práticas de radiologia com a tecnologia e a escala clínica de uma organização muito maior”, disse Josh Bryant, M.D., presidente da Colorado Imaging Associates. “Podemos compartilhar infraestrutura, ampliar o acesso à IA e nos apoiar clinicamente sem sacrificar a propriedade local ou a liderança médica.”

Quem são os dois grupos fundadores

A Colorado Imaging Associates existe há mais de 50 anos, emprega cerca de 50 radiologistas e sete physician assistants e interpreta aproximadamente 600 mil exames por ano. Cobre todas as unidades da CommonSpirit Health em Denver e no oeste do Kansas, além de outros hospitais e centros de imagem no Front Range e nas Montanhas Rochosas.

A TRA Medical Imaging é ainda mais antiga: mais de um século de atividade em Tacoma, no estado de Washington. São cerca de 135 radiologistas, presença geográfica que vai de Seattle a Olympia e algo em torno de 1,7 milhão de exames por ano, segundo a Radiology Business. O grupo pertence aos próprios médicos, opera quatro centros ambulatoriais e atende hospitais da MultiCare e da Virginia Mason Franciscan Health — que, desde a fusão de 2021 entre CHI Franciscan e Virginia Mason, integra a CommonSpirit.

Aí está o elo prático da aliança. Os dois grupos já atendem o mesmo sistema de saúde em regiões diferentes do país. Para a CommonSpirit, a rede aprofunda o banco de radiologistas disponível; para os grupos, cria escala para negociar e investir em conjunto.

“A tecnologia é fundamental para a forma como a radiologia é praticada hoje”, afirmou Douglas Seiler, M.D., presidente médico da TRA Medical Imaging. “A Affiliated Radiology dá aos grupos a escala para acessar infraestrutura sofisticada de PACS, laudo e IA, ao mesmo tempo em que os conecta a uma rede mais ampla de expertise radiológica e capacidade clínica.”

Alternativa à consolidação por private equity

O modelo importa porque a radiologia americana vive uma década de consolidação. A Radiology Partners, fundada em 2012 e com mais de 4 mil radiologistas, acabou de fechar a compra da Everlight Radiology por cerca de US$ 715 milhões, levando a lógica de plataforma para a teleradiologia global. A RadNet, listada em bolsa, segue comprando centros de imagem. Nos dois casos o capital vem de fora da clínica, e com ele vêm metas de retorno.

A Affiliated Radiology tenta capturar os ganhos de escala sem a troca de controle. Não é a primeira a tentar. A Strategic Radiology, coalizão criada em 2009 que hoje reúne 50 clínicas independentes e mais de 2.500 radiologistas, opera com compras conjuntas e benchmarking — e em agosto abriu a plataforma de orquestração da NewVue a seus membros. A diferença de desenho é que a Affiliated nasce com infraestrutura operacional compartilhada — um PACS e uma camada de IA comuns, leitura cruzada entre grupos — e não apenas com poder de negociação. É um passo a mais em integração, com a propriedade ainda dispersa.

Há um custo nisso. Compartilhar PACS entre grupos de estados diferentes implica padronizar protocolos, nomenclatura de exames, listas de trabalho e regras de distribuição de casos — exatamente o tipo de problema que a teleradiologia em nuvem tenta resolver quando a leitura é distribuída. Também exige governança clara sobre quem lauda o quê, como se mede qualidade e como se dividem as receitas de laudos cruzados. O comunicado não detalha nenhum desses pontos.

O que muda para grupos brasileiros

No Brasil, a consolidação seguiu outro caminho: grandes redes de medicina diagnóstica compraram clínicas e centralizaram a leitura, enquanto centenas de serviços de imagem de médio porte continuam independentes e negociam sozinhos com fornecedores de PACS, RIS e IA. O que a Affiliated Radiology sugere é uma terceira via, o consórcio operacional: grupos que mantêm CNPJ, marca e contratos locais, mas compartilham PACS, licenças de IA e escala de leitura por subespecialidade.

Há exemplos parciais no país. Operações de teleradiologia que crescem apoiadas em um único PACS em nuvem já resolvem a parte tecnológica; o que falta é o arranjo entre clínicas iguais, sem que uma delas seja a compradora. O arcabouço regulatório existe. A Resolução CFM nº 2.107/2014 normatiza a telerradiologia e exige que a pessoa jurídica prestadora tenha sede no Brasil e registro no CRM, e a LGPD define as bases para compartilhar dados de pacientes entre controladores distintos. Um PACS comum entre clínicas precisa de contratos de compartilhamento e controle de acesso por unidade — trabalho jurídico e de TI que a maioria ainda não fez.

O incentivo econômico é o mesmo dos americanos. IA de rascunho de laudo, ferramentas de detecção e PACS modernos são cobrados por volume, e o preço unitário cai com a escala. Um grupo com 600 mil exames por ano paga menos por exame do que um com 60 mil. Dez clínicas de 60 mil, juntas, negociam como uma de 600 mil.

Perspectivas e o que ainda falta responder

A Affiliated Radiology diz que buscará outras oportunidades de escala em serviços compartilhados, infraestrutura e funções administrativas, para reduzir custo e complexidade e deixar os parceiros concentrados no atendimento às suas comunidades. O teste real virá com o terceiro e o quarto grupo: quantos independentes aceitarão migrar o PACS para uma infraestrutura comum controlada por pares, e como a rede tratará conflitos quando dois membros disputarem o mesmo contrato hospitalar.

Sobre isso, e sobre a divisão de receitas, o comunicado silencia. Mas o movimento se soma a outro sinal recente: a saída de radiologistas do sistema de saúde dos veteranos mostra que o gargalo americano hoje é gente, não software. Redes que compartilham radiologistas — e não apenas licenças — respondem a isso de forma direta.

Fonte: PR Newswire · Radiology Business (via Google News)