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A Harrison.ai, desenvolvedora australiana de algoritmos de IA para radiologia e patologia, passou a apoiar a Frontier Radiology, um grupo de teleradiologia nos Estados Unidos que se apresenta como “nativo em IA” e está contratando radiologistas. A movimentação, relatada pelo The Imaging Wire, amplia o modelo de negócio da empresa: ela deixa de apenas vender software e passa a sustentar a operação de um serviço clínico. E rendeu uma reportagem crítica da ABC News australiana, que questionou demissões no país, o destino de dinheiro público e um possível conflito de interesse.

Radiologista analisa tomografia de tórax em estação de laudo com múltiplos monitores
A Frontier Radiology se define como grupo de teleradiologia construído em torno de modelos de fundação; a Harrison.ai fornece os algoritmos e o suporte não clínico. Foto: Pexels

O que é a Frontier Radiology e o que a Harrison fornece

Segundo o The Imaging Wire, a Frontier pertence ao radiologista Joshua Ewell, DO, que também a opera. O arranjo atende às regras americanas que exigem propriedade médica para entidades prestadoras de serviços clínicos. No perfil de Ewell no LinkedIn, a Frontier é descrita como um “AI-native radiology group”, construído inteiramente em torno de modelos de fundação.

A Harrison entra com serviços não clínicos, sobretudo sua suíte de algoritmos, que segundo a empresa já ajuda os teleradiologistas da Frontier a alcançar tempos de laudo entre os mais rápidos do setor. Os radiologistas do grupo, porém, seriam livres para usar qualquer solução de IA, inclusive de concorrentes. Anúncios de vagas citados pela ABC descreviam a Frontier como um “serviço de teleradiologia habilitado por IA” da Harrison; o site do grupo, ainda segundo a emissora, o apresenta como prática médica independente, “afiliada” e “parceira” da Harrison, que fornece suporte administrativo, operacional e tecnológico.

A reportagem da ABC: demissões, dinheiro público e conflito de interesse

A reportagem da ABC News, publicada em 8 de setembro, partiu de um contraste. Em 2025, o National Reconstruction Fund, fundo do governo australiano, investiu A$ 32 milhões (cerca de US$ 23 milhões) na Harrison, em rodada que avaliou a empresa em torno de A$ 400 milhões. Na época, o presidente do fundo, Martijn Wilder, afirmou que o aporte garantiria que a companhia continuasse a basear suas operações na Austrália. Em abril de 2026, funcionários australianos foram notificados de cortes; a ABC não obteve o número de desligados, mas localizou pelo menos dois ex-empregados que anunciaram a demissão no LinkedIn em maio.

A emissora também relatou uma reestruturação interna que pretende transformar cada funcionário em “player-coach” de agentes de IA. O ponto mais sensível, porém, foi o conflito de interesse. Michelle Lazarus, da Monash University, alertou para o viés de automação: “se você apenas segue a recomendação da IA e não a questiona, pode colocar a saúde em risco”. Wendy Rogers, professora de ética clínica da Macquarie University, observou que médicos empregados pelo fornecedor da ferramenta podem ter dificuldade em contestar seus resultados. A ABC destacou ainda que a Frontier é registrada em Delaware, com propriedade não divulgada, e que uma calculadora de remuneração no site do grupo prevê bônus individual de 25% por ganhos de produtividade assistidos por IA, assumindo aumento de 30% na produtividade. Segundo a reportagem, a Harrison não respondeu às tentativas de contato.

A resposta de Dimitry Tran

Em entrevista ao The Imaging Wire, o cofundador e CEO Dimitry Tran, que se mudou para a Califórnia para liderar a expansão americana, rebateu a narrativa. Para ele, a ABC misturou fatos independentes. As demissões do início do ano teriam relação com a transição de uma fase agressiva de P&D para um esforço de comercialização, e não com a entrada nos EUA. O investimento do governo australiano, por sua vez, deu ao fundo uma participação acionária de um dígito percentual, que ele mantém até hoje e que, na visão de Tran, se valorizará com o crescimento da empresa.

Tran também lembrou que a cooperação estreita entre desenvolvedores de IA e prestadores de serviços de imagem deixou de ser exceção. Ele citou dois dos maiores grupos de radiologia dos EUA, Radiology Partners e RadNet, que criaram divisões próprias de IA para atender tanto seus radiologistas quanto clientes externos. É o caminho inverso ao da Harrison, que sai do software para a proximidade com a operação clínica. A empresa, garantiu, seguirá focada no desenvolvimento e na comercialização de algoritmos, especialmente do modelo Harrison.Rad, mantendo a “grande maioria” dos empregados na Austrália.

Harrison.Rad 1.5 e a integração entre IA e serviços de imagem

O centro tecnológico dessa estratégia é o Harrison.Rad 1.5, modelo de fundação lançado em junho que rascunha laudos a partir de imagens, exames prévios e contexto clínico, para revisão do radiologista. Segundo o relatório técnico da empresa, o modelo cobre radiografias de tórax, musculoesqueléticas, abdominais, de coluna e pelve, além de mamografia, e seu codificador de visão foi treinado com cerca de 6 milhões de pares imagem-laudo. A Harrison afirma que ele foi o único modelo a passar no exame FRCR 2B Short Case, usado na certificação de radiologistas britânicos. É uma alegação da própria empresa, ainda sem validação independente publicada.

Um grupo de teleradiologia construído ao redor desse tipo de modelo funciona, na prática, como um laboratório de escala: cada laudo revisado gera dados de uso e feedback sobre o rascunho. É o que torna a relação valiosa para a Harrison e o que preocupa os críticos: o incentivo comercial do fornecedor passa a coexistir com a decisão clínica do médico. A governança da IA em imagem já mobiliza os grandes grupos americanos, como mostrou o pedido da Radiology Partners por regras mais claras da FDA, e a compra da Everlight pela Rad Partners indica que a teleradiologia virou ativo estratégico.

O que muda para a radiologia brasileira

No Brasil, a telerradiologia é regulada pela Resolução CFM nº 2.107/2014, que exige um radiologista como responsável técnico, registro da empresa no CRM e consentimento do paciente para a transmissão de imagens. Um arranjo como o da Frontier, com um fornecedor de IA sustentando a operação de um serviço de laudos, teria de passar por esse filtro, e o software de rascunho precisaria de registro na Anvisa como software como dispositivo médico. A escassez de radiologistas, que nos EUA fez o VA perder metade da capacidade de teleradiologia, como mostramos recentemente, também pressiona o interior brasileiro, onde a leitura remota já é regra em muitos serviços. A infraestrutura existe: a teleradiologia em nuvem unifica listas de trabalho distribuídas, e integrar IA a esse fluxo é o próximo passo natural.

Há ainda uma ligação histórica com o mercado de imagem. A Harrison cresceu ao lado da I-Med, maior rede de radiologia da Austrália e investidora da empresa, vendida à Jardine neste ano, e treinou modelos com milhões de exames desidentificados da rede, sem aviso aos pacientes. Segundo a ABC, o regulador de privacidade australiano encerrou o caso sem sanção.

Perspectivas e limitações

A leitura do The Imaging Wire é que, descontado o tom negativo da ABC, a aposta da Harrison oferece uma variação interessante da integração entre IA e prestadores de imagem, talvez a forma mais direta de aliviar radiologistas sobrecarregados diante de volumes crescentes. Mas o caso deixa perguntas em aberto. A independência do radiologista frente à ferramenta do parceiro comercial precisará de salvaguardas verificáveis, não apenas da liberdade formal de usar concorrentes. E a performance dos algoritmos de raio-X de tórax, como estudos independentes mostram, varia bastante entre produtos e populações. Quem opera o serviço clínico e também vende a IA terá de provar, com dados públicos, que o rascunho acelera o laudo sem empurrar o médico a assiná-lo sem ler.

Fonte: The Imaging Wire · ABC News