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A Vemerix, marca internacional da fabricante chinesa Weihai Medison Medical Equipment, iniciou a venda fora da China de um kit de punção guiada por ultrassom estéril e descartável, que fixa o transdutor e a agulha no mesmo conjunto e mantém o trajeto da agulha dentro do plano de imagem. A proposta, anunciada em 30 de setembro e repercutida pelo AuntMinnie, é substituir o avanço “às cegas” ou à mão livre por uma punção sempre visível na tela, sobretudo em acessos vasculares. O produto tem registro como dispositivo de classe II apenas na China, e a empresa não declara liberação em nenhuma outra jurisdição.

Transdutor de ultrassom envolto em capa estéril posicionado sobre a pele enquanto o operador introduz uma agulha durante punção guiada
Punção guiada por ultrassom com transdutor em capa estéril. Imagem ilustrativa, não representa o produto da Vemerix. Foto: Pexels.

O que a Vemerix está lançando

Segundo o comunicado da empresa, o kit prende o transdutor e a agulha de punção e conduz a agulha até o alvo sob imagem em tempo real. O guia de agulha segura o trajeto dentro do plano do feixe, de modo que o operador avança a agulha observando a ponta no monitor. A fabricante afirma que o desenho busca reduzir a excursão da ponta da agulha e ajudar a evitar a perfuração da parede posterior do vaso, uma complicação conhecida da canulação venosa.

São quatro configurações, que vão do suporte-guia de agulha isolado (modelo MDS-A) até o kit completo de procedimento (MDS-D), que reúne membrana acústica, gel de acoplamento, campo, luvas estéreis e material de antissepsia da pele. Ao todo, a linha cobre 45 códigos de tamanho. O ponto comercial mais relevante é a customização: a Vemerix diz adaptar o guia aos transdutores que o cliente já usa, sem exigir o equipamento de ultrassom da própria marca. O kit é oferecido a distribuidores, a parceiros de marca própria e a fabricantes de ultrassom que queiram incorporá-lo ao seu portfólio.

Na parte regulatória, o comunicado informa registro como dispositivo médico de classe II na China, aprovado em 2 de junho de 2026, e uma patente de invenção chinesa concedida em novembro de 2025 para um guia ultrassonográfico de punção vascular. O número de registro tem o prefixo da província de Shandong, o que é coerente com o sistema chinês, em que os dispositivos de classe II são aprovados pelas autoridades provinciais da NMPA. A disponibilidade em outros mercados, ressalta a empresa, depende das exigências locais.

Os números divulgados e o que eles valem

A Weihai Medison relata que o projeto vem sendo iterado com usuários clínicos desde um piloto em 2022, passando por três gerações de ultrassom e por cinco revisões maiores e 22 menores do suporte-guia. Nos últimos seis meses, segundo retorno coletado pela própria empresa com usuários, em mais de mil punções, a taxa relatada de sucesso de punção e posicionamento de cateter foi de 96%. O próprio comunicado tem o cuidado de dizer que esses são relatos de campo, e não resultado de uma investigação clínica controlada. Não há grupo comparador, definição padronizada de sucesso, número de tentativas por paciente nem registro de complicações. Para um leitor técnico, o dado serve como indicativo de usabilidade, não como evidência de desempenho.

A fundadora da empresa, Lily (Lianhua) Nan, que consta como inventora na patente, resumiu o argumento central: o console de ultrassom, por melhor que seja, não resolve sozinho o problema de manter a agulha no plano que o operador está olhando.

Por que manter a agulha no plano faz diferença

A punção guiada por ultrassom pode ser feita de duas formas. Na abordagem fora do plano (eixo curto), a agulha cruza o feixe transversalmente e aparece apenas como um ponto hiperecoico; é rápida e muito usada em acesso venoso, mas o ponto visível pode ser o corpo da agulha, e não a ponta, o que favorece a transfixação do vaso. Na abordagem no plano (eixo longo), toda a haste e a ponta aparecem na imagem, mas o feixe tem espessura de elevação de apenas alguns milímetros, e qualquer pequena rotação da mão tira a agulha do campo de visão. É exatamente essa dificuldade que os guias mecânicos tentam eliminar.

Suportes acoplados ao transdutor existem há décadas, principalmente em biópsias de próstata, fígado e mama, e muitos fabricantes de ultrassom oferecem guias com ângulos fixos e linhas de trajeto sobrepostas na tela. O que muda de produto para produto é o encaixe em cada modelo de transdutor, a escolha de ângulos e calibres e o pacote estéril. A visibilidade da agulha também depende de física: em ângulos de inserção muito íngremes a reflexão especular volta menos ao transdutor, o que motivou agulhas ecogênicas e recursos de realce por direcionamento do feixe nos equipamentos mais recentes. Iniciativas como o ultrassom com realidade aumentada do MIT e os sistemas de IA que orientam o exame, caso da IA da ThinkSono para ultrassom de TVP, atacam o mesmo problema de reprodutibilidade por outros caminhos.

Aplicações e controle de infecção

As diretrizes de sociedades de anestesiologia, terapia intensiva e radiologia recomendam há anos a ultrassonografia em tempo real para cateterização venosa central, sobretudo na veia jugular interna, pela redução de tentativas e de punções arteriais acidentais. O mesmo raciocínio se aplica a PICC, linhas arteriais, acesso periférico difícil, paracentese, toracocentese, bloqueios regionais e procedimentos musculoesqueléticos, como a liberação do túnel do carpo guiada por ultrassom. Em radiologia intervencionista, biópsias percutâneas de tireoide, mama, linfonodos e fígado são rotina, e a precisão do trajeto é parte do controle de qualidade do serviço.

O formato de kit estéril tem um papel adicional: o transdutor que entra no campo de um procedimento percutâneo precisa de capa estéril e gel estéril, e a padronização desses itens em um único pacote reduz variações entre operadores. É o modelo de negócio que a Vemerix descreve em relatório próprio publicado em julho: o console de imagem como plataforma durável e o consumível registrado de uso único como interface clínica e base do dossiê regulatório.

Implicações para o Brasil e limitações

Para chegar ao mercado brasileiro, o kit precisaria de regularização na ANVISA conforme a RDC 751/2022, que classifica dispositivos médicos por risco; não há informação pública de pedido nesse sentido. Para serviços de imagem e hospitais, o interesse está na possibilidade de guias compatíveis com transdutores já instalados, o que pode baratear a padronização de acessos vasculares em UTIs e centros de radiologia intervencionista. Ao avaliar qualquer produto desse tipo, vale exigir dados de compatibilidade com cada transdutor, faixa de calibres e ângulos, validação de esterilidade e evidência clínica independente. Por enquanto, a novidade da Vemerix é uma oferta de fornecimento com números ainda não auditados, e não uma mudança de técnica.

Fonte: AuntMinnie e comunicado da Vemerix (PR Newswire)