A maior rede hospitalar dos Estados Unidos decidiu investir onde a radiologia mais sente a dor: na formação de gente. A HCA Healthcare fechou acordo para adquirir a College of Health Care Professions (CHCP) e sua controladora, movimento que coloca sob seu guarda-chuva um dos principais centros de treinamento em imagem médica do país.

O que a HCA está comprando
Sediada em Nashville, no Tennessee, a HCA opera 189 hospitais e cerca de 2.600 unidades ambulatoriais. O valor da transação não foi divulgado, e o negócio ainda depende de aprovação regulatória. Fundada em 1988, a CHCP forma cerca de 8.000 alunos por ano em mais de 20 programas credenciados — incluindo tecnologia radiológica, ultrassonografia (sonografia), tecnologia cirúrgica e codificação e faturamento médico — distribuídos por dez campi. Desde sua abertura, a instituição já atendeu mais de 52.000 estudantes.
O ativo mais relevante para o setor de imagem, porém, é o Medical Technology Management Institute (MTMI). Criado em 1989 e sediado em Wauwatosa, no Wisconsin, o MTMI oferece educação continuada voltada a tecnólogos radiológicos, mamografistas, sonografistas, físicos médicos e médicos. Seus números impressionam: 180.000 alunos e 1,76 milhão de créditos concedidos desde a fundação. A CHCP assumiu o controle do MTMI em 2019, tornando-o sua divisão de educação continuada.
Por que treinar gente virou estratégia
“A College of Health Care Professions construiu um legado sólido na preparação de profissionais de saúde qualificados e compassivos”, afirmou Sam Hazen, CEO da HCA. “Juntos, estamos investindo no futuro da saúde e fortalecendo o funil de talentos que vai atender pacientes e comunidades.” A frase resume a lógica do negócio: em vez de apenas disputar profissionais prontos em um mercado escasso, a HCA passa a formá-los.
Essa é uma resposta direta a um problema que assombra a radiologia mundial — a falta crônica de mão de obra qualificada. Não é exclusividade americana. Quem acompanha o tema sabe o tamanho do rombo que a escassez provoca, como mostramos ao detalhar o gasto bilionário do NHS para cobrir o déficit de radiologistas. Formar tecnólogos e físicos médicos é tão estratégico quanto comprar o tomógrafo mais novo.
A consolidação que redesenha o setor
A compra também se encaixa em um movimento mais amplo de consolidação na saúde e na imagem. Grandes players têm absorvido empresas, clínicas e, agora, instituições de ensino para verticalizar a cadeia. É a mesma lógica que vimos em negócios bilionários recentes, como a aquisição da I-Med Radiology pela Jardine. Controlar a formação significa controlar parte da oferta futura de profissionais — uma vantagem competitiva que poucos concorrentes conseguem replicar.
Não é a primeira incursão da HCA no ensino. Em 2020, a rede adquiriu participação majoritária na Galen College of Nursing, uma das maiores formadoras de enfermagem dos EUA, e desde então abriu 20 novos campi, chegando a 25. Em 2023, HCA e CHCP já haviam criado um programa de 12 semanas para assistentes médicos no Texas, que formou mais de 100 colaboradores em dois anos. Eric Bing seguirá como chanceler e CEO da CHCP.
O gargalo invisível: o tecnólogo
Quando se fala em escassez na radiologia, a conversa costuma girar em torno do médico radiologista. Mas há um gargalo igualmente crítico e menos visível: o tecnólogo que opera o equipamento, o sonografista que conduz o exame, o físico médico que garante segurança e qualidade. Sem essa base, nenhum tomógrafo de ponta entrega resultado. O volume de exames de imagem cresce ano após ano, impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela ampliação de indicações, enquanto a oferta de profissionais técnicos não acompanha o ritmo.
É exatamente esse elo que instituições como o MTMI fortalecem. Educação continuada para mamografistas e sonografistas não é luxo: é o que mantém a acreditação dos serviços, reduz repetição de exames por erro de técnica e sustenta a segurança radiológica. Ao comprar essa capacidade, a HCA garante um fluxo constante de profissionais já alinhados aos seus protocolos.
O que muda para a prática e para o Brasil
Para o profissional de imagem, o recado é que a carreira técnica está sendo levada a sério por quem dita o ritmo do mercado. Quando um gigante hospitalar compra uma escola, ele sinaliza que o gargalo não é tecnologia, e sim pessoas capacitadas para operá-la. Isso tende a elevar o padrão de certificação e a valorizar a educação continuada — algo que ganha ainda mais peso num cenário em que a inteligência artificial redefine funções, como discutimos ao analisar se a IA ainda assusta quem quer ser radiologista.
No Brasil, onde a formação de tecnólogos em radiologia e a educação continuada de físicos médicos enfrentam desafios de oferta e padronização, o movimento americano serve de espelho. Investir em escolas técnicas, parcerias entre hospitais e instituições de ensino e trilhas de requalificação pode ser tão decisivo para a sustentabilidade dos serviços quanto a aquisição de novos equipamentos.
Próximos passos
A transação ainda precisa passar pela aprovação dos reguladores e cumprir condições de fechamento. Se confirmada, consolida uma tese cada vez mais aceita: em um setor pressionado por demanda crescente e oferta limitada de especialistas, quem controla o funil de formação ganha vantagem estrutural. O mercado de imagem deve observar de perto se outros grandes grupos seguirão o mesmo caminho de verticalizar a educação.
Fonte: Radiology Business




