A FDA aprovou o Tauklarify (florquinitau F 18), traçador de PET desenvolvido para identificar patologia de emaranhados neurofibrilares de tau no cérebro de adultos com comprometimento cognitivo em investigação para doença de Alzheimer. O anúncio, feito pela Lantheus em 14 de agosto, entrega ao mercado americano o segundo traçador de tau com registro — o primeiro foi o flortaucipir, aprovado em 2020 — e chega poucos dias depois de a própria Lantheus fechar acordo definitivo de venda para a Curium.
O que a aprovação autoriza — e o que não autoriza
A indicação é estreita de propósito: PET de cérebro em adultos com comprometimento cognitivo sendo avaliados para Alzheimer, com a finalidade de identificar pacientes com patologia de emaranhados neurofibrilares (NFT) de tau. Segurança e eficácia não foram estabelecidas para avaliação de outras doenças cerebrais — o que exclui, na prática, as demais tauopatias, como paralisia supranuclear progressiva e degeneração corticobasal.

Também conhecido pelo código de desenvolvimento MK-6240, o composto chegou à Lantheus por meio de direitos adquiridos da Enigma Biomedical USA em 2023, com colaboração mantida no desenvolvimento clínico. A empresa, sediada em Bedford, Massachusetts, informou que a segurança foi avaliada em dois ensaios clínicos, com mais de 1.700 participantes e menos de 1% relatando reações adversas.
Como o dossiê de eficácia foi montado
Este é o trecho que interessa a quem vai interpretar os exames. A aprovação se apoiou em dois estudos de leitura cega que analisaram imagens de PET de mais de 500 indivíduos participantes de três ensaios clínicos. A composição da amostra foi deliberadamente ampla: pacientes com comprometimento cognitivo leve, pacientes com demência leve por Alzheimer e controles cognitivamente preservados. A ideia era cobrir todo o espectro funcional, inclusive doença em estágio inicial.
Todos receberam dose intravenosa de aproximadamente 185 MBq (5 mCi) antes da aquisição. Os exames foram interpretados por leitores independentes, treinados especificamente em interpretação dessas imagens e cegos tanto para os dados clínicos quanto para o resultado do PET de amiloide. Cada estudo foi classificado como positivo ou negativo para patologia de tau e comparado a um padrão de referência preestabelecido, construído a partir do status cognitivo e dos achados de PET de amiloide.
“A aprovação do Tauklarify reflete tanto a importância crescente da imagem de tau na avaliação da doença de Alzheimer quanto o programa de desenvolvimento inovador que sustentou este marco”, declarou Mary Anne Heino, CEO e presidente executiva da Lantheus. “Seguimos comprometidos em avançar a pesquisa que vai definir melhor o papel da imagem de tau na compreensão do Alzheimer.”
Por que tau importa mais que amiloide para o prognóstico
Vale destrinchar a biologia, porque ela explica o valor clínico do exame. A patologia de Alzheimer tem dois marcadores proteicos centrais: placas de beta-amiloide e emaranhados neurofibrilares de tau hiperfosforilada. Amiloide aparece cedo e é relativamente indiferente à gravidade dos sintomas — muita gente cognitivamente normal tem PET de amiloide positivo. Tau é outra história: sua distribuição segue um padrão anatômico estereotipado, descrito pelo estadiamento de Braak, avançando da região transentorrinal e entorrinal para o sistema límbico e depois para o neocórtex.
Esse padrão progressivo é justamente o que torna a imagem de tau útil. A carga e a distribuição de tau correlacionam-se muito melhor com a gravidade clínica e com a velocidade de declínio cognitivo do que a carga de amiloide. Nos critérios biológicos revisados para diagnóstico de Alzheimer, amiloide entra como marcador de definição da doença e tau PET assume papel de estadiamento e prognóstico — responde “quão avançado” e não apenas “sim ou não”.
Há um detalhe técnico que favorece o MK-6240 em relação ao traçador de primeira geração: menor ligação fora do alvo. O flortaucipir tem captação inespecífica conhecida em plexo coroide, núcleos da base e estruturas com monoamina oxidase, o que complica a leitura de regiões mediotemporais — precisamente onde o tau inicial se instala. Um traçador mais limpo nessa faixa anatômica facilita a detecção de doença precoce.
Implicações práticas e o contexto de mercado
O uso mais imediato não é diagnóstico, é seleção de tratamento. Os anticorpos anti-amiloide que entraram em uso clínico nos últimos anos mostram benefício heterogêneo conforme a carga de tau, e ensaios de fase 3 já estratificaram pacientes por tau PET em grupos de baixa/média versus alta carga. Se a decisão de infundir um anticorpo caro e com risco de edema e micro-hemorragia depende do estágio de tau, a imagem molecular deixa de ser exame confirmatório e passa a ser critério de elegibilidade.
Do ponto de vista de negócio, a expectativa é contida. O mercado de imagem de tau é hoje dominado pelo produto aprovado em 2020, que fatura menos de US$ 100 milhões por ano; projeções para o Tauklarify apontam menos de US$ 50 milhões anuais até 2030. É um nicho — mas um nicho estratégico dentro de um portfólio radiofarmacêutico, o que se conecta diretamente à negociação de compra da Lantheus pela Curium, formalizada em acordo definitivo no início de agosto e avaliada em até US$ 8 bilhões.
Para serviços de medicina nuclear, o desafio operacional é o de sempre com flúor-18: meia-vida de cerca de 110 minutos exige logística de entrega justa e agendamento em bloco. Nada de novo para quem já opera PET de amiloide ou de FDG, mas o protocolo de aquisição e as regiões de interesse são distintos, e a curva de aprendizado do leitor é real — a própria FDA exigiu treinamento específico dos leitores nos estudos pivotais. Quem acompanha a agenda de teranóstica e imagem molecular viu esse movimento se desenhar no congresso da SNMMI deste ano.
Limitações e o que vem a seguir
Três ressalvas honestas. A primeira já está na bula: a validação vale para Alzheimer, não para o diagnóstico diferencial das tauopatias não-Alzheimer, e usar o exame fora dessa indicação é extrapolação. A segunda é metodológica: o padrão de referência dos estudos pivotais combinou status cognitivo e PET de amiloide, e não neuropatologia — a comparação com autópsia continua sendo o teste mais duro. A terceira é de acesso: exames de PET de tau ainda não fazem parte da rotina clínica na maior parte do mundo fora dos Estados Unidos, incluindo o Brasil, onde amiloide já circula em poucos centros e tau permanece essencialmente restrito à pesquisa.
Ainda assim, a direção é consistente com o que a imagem molecular vem fazendo em oncologia: sair do papel de confirmar uma suspeita e assumir o de estratificar risco e orientar terapia. A imagem de tau já provou, em outros contextos, que consegue enxergar proteinopatia em vida — cobrimos, por exemplo, o uso de PET de tau para detectar sinais de encefalopatia traumática crônica em pacientes vivos. Ter um segundo traçador aprovado amplia capacidade de produção, cria concorrência de preço e, principalmente, reduz o risco de depender de fornecedor único num exame que começa a virar pré-requisito de tratamento.
Fonte: Radiology Business — FDA approves new Alzheimer’s PET imaging agent from Lantheus




