A radiologia foi uma das grandes vencedoras da pesquisa de remuneração médica de 2026 da Doximity: salário médio anual de US$ 610 mil, alta de 6,6% sobre os US$ 572 mil do levantamento anterior, contra crescimento médio de apenas 2% no conjunto das especialidades. Com isso, a especialidade subiu três posições no ranking dos médicos melhor pagos dos Estados Unidos, saindo do 11º para o 8º lugar. O dado interessa menos como fofoca de mercado e mais como termômetro: preço de trabalho sobe quando a oferta não acompanha a demanda, e é exatamente isso que a radiologia americana vive.
Os números da pesquisa Doximity 2026
A Doximity opera uma plataforma digital que reúne cerca de 85% dos médicos em atividade nos Estados Unidos, e sua pesquisa anual virou referência para compensação por especialidade e por região metropolitana. Na edição 2026, o topo da tabela segue cirúrgico — neurocirurgia com US$ 829.161, cirurgia torácica com US$ 749.707 e ortopedia com US$ 696.852 — mas a imagem aparece duas vezes na primeira dezena.

Radiologia intervencionista ocupa a 4ª posição, com US$ 634.658, e radiologia diagnóstica a 8ª, com US$ 609.684. Radio-oncologia fica logo acima, em 7º, com US$ 613.837. No extremo oposto da tabela, as subespecialidades pediátricas dominam a lista das dez menores remunerações, começando em US$ 217.819 para infectologia pediátrica — uma diferença de quase quatro vezes entre o topo e a base que diz muito sobre como o sistema americano precifica procedimento versus tempo de consulta.
Vale notar que o crescimento de 6,6% em 2026, embora bem acima da média, é menor que o do ano anterior. Na pesquisa de 2025, o salário da radiologia havia subido 7,5%, colocando a especialidade entre as quatro de crescimento mais rápido. A desaceleração é modesta, mas sugere que o pico de aquecimento pode ter passado.
Radiologia intervencionista lidera o crescimento de todas as especialidades
O destaque isolado da pesquisa não é a radiologia diagnóstica: é a intervencionista. Com aumento de 10,8%, foi a especialidade com maior crescimento de remuneração anual entre todas as pesquisadas, chegando aos US$ 635 mil. O movimento faz sentido estrutural. Procedimentos guiados por imagem migraram para dentro do escopo da radiologia intervencionista em oncologia, vascular periférico e embolização, e são procedimentos bem remunerados que competem diretamente com cirurgia aberta. Onde o radiologista intervencionista opera como proceduralista, e não como serviço de apoio, a remuneração acompanha.
O que está por trás do aumento: escassez
A pesquisa também mediu percepção sobre condições de trabalho, e os números explicam a alta salarial melhor do que qualquer análise de mercado. Entre os respondentes, 85% relataram que a escassez de médicos afetou sua prática clínica e 76% disseram que a escassez e outras pressões comprometeram a qualidade do cuidado que entregam. Salário subindo 6,6% enquanto três de cada quatro médicos dizem que a qualidade caiu não é sinal de bonança — é sinal de sobrecarga sendo compensada com dinheiro.
Na radiologia, esse quadro já apareceu em várias frentes que acompanhamos. O tempo de laudo cresceu 177% em uma década nos Estados Unidos, um indicador direto de volume por radiologista acima da capacidade. E o êxodo de radiologistas confirmado pelo OIG no sistema VA, agravado depois do veto ao teletrabalho, mostra o que acontece quando o empregador tenta segurar profissional sem oferecer flexibilidade em um mercado que paga mais e cobra menos presença.
A IA deixou de ser ameaça na percepção médica
A virada de humor sobre inteligência artificial é, talvez, o achado mais surpreendente. Entre os médicos pesquisados, 66% relataram usar IA diária ou semanalmente; 23% esperam que a IA aumente sua remuneração no próximo ano; e 67% acreditam que médicos que se mantiverem atualizados em ferramentas de IA terão vantagem de rendimento sobre os que não se atualizarem.
Para a radiologia, que passou uma década sendo apontada como a primeira especialidade a ser automatizada, esses números marcam uma inversão narrativa. A leitura mais provável não é que a IA vá elevar salários diretamente, mas que ela deixou de ser vista como substituto e passou a ser vista como multiplicador de produtividade — e, em um regime de remuneração por volume, produtividade e remuneração se confundem. O risco embutido também é claro: se a IA aumenta o número de exames que um radiologista consegue laudar, o mercado pode capturar esse ganho reduzindo o número de radiologistas necessários, e não elevando o pagamento de cada um.
Gap de gênero: radiologia entre os menores, mas ainda existe
A diferença salarial entre homens e mulheres médicas permaneceu em 26% pelo segundo ano consecutivo, com homens ganhando em média US$ 122 mil mais. A estabilidade é o dado ruim: dois anos sem redução sugere que o problema não está se resolvendo por inércia de mercado. A radiologia teve um dos menores gaps entre as especialidades, com 10% — melhor que a média, mas longe de zero, e ainda assim equivalente a dezenas de milhares de dólares por ano sobre um salário de seis dígitos.
Leitura para o mercado brasileiro
A transposição direta desses números para o Brasil não funciona, mas as forças em jogo são as mesmas. A remuneração do radiologista brasileiro é dominada por produção — valor por laudo, por plantão ou por escala — e sofre pressão de preço vinda da telerradiologia, que globalizou a oferta de leitura e permite que um serviço em qualquer estado contrate laudo a distância pelo menor preço disponível. Isso comprime margem justamente na parte da atividade mais fácil de terceirizar.
A leitura estratégica que os dados americanos sugerem é interessante: o crescimento mais forte está no que não se terceiriza. Radiologia intervencionista exige presença física, sala, equipe e habilidade procedural, e por isso lidera o aumento. No Brasil, o mesmo raciocínio vale para intervenção, para exames que dependem de protocolo customizado junto ao clínico e para atividades de governança de imagem — auditoria de protocolo, qualidade, validação de IA — que não se compram por laudo.
Limitações da pesquisa
Alguns cuidados metodológicos são obrigatórios antes de usar esses números em negociação. A pesquisa da Doximity é baseada em autodeclaração voluntária, o que abre espaço para viés de seleção: quem responde tende a ser quem tem interesse em comparar remuneração. Não há amostragem probabilística, e a base de membros da plataforma, embora enorme, não é aleatória.
Além disso, os valores não são ajustados por carga horária, produtividade ou modelo de vínculo. Um aumento de 6,6% no salário médio pode refletir preço por hora maior, mais horas trabalhadas ou mudança de composição da amostra — e as três explicações têm implicações opostas para qualidade de vida. Médias nacionais também escondem variação geográfica gigantesca dentro dos Estados Unidos, e crescimento nominal precisa ser lido contra inflação para virar ganho real. O crescimento médio de 2% de todas as especialidades, por exemplo, pode ser perda real dependendo do ano.
O quadro geral, porém, é consistente com tudo o mais que os indicadores mostram: a radiologia segue entre as especialidades melhor remuneradas dos Estados Unidos, e está sendo paga acima da média justamente porque há menos radiologistas do que exames para laudar.
Fonte: The Imaging Wire — Radiology Salary Growth Beats Other Specialties




