O CMS (Centers for Medicare & Medicaid Services) publicou em 14 de julho a proposta de tabela de pagamento médico do Medicare para 2027, reduzindo o fator de conversão para cerca de US$ 32,84 — queda de 1,68% em relação a 2026 — e provocou reação imediata das sociedades de radiologia dos Estados Unidos. A Society of Interventional Radiology (SIR) classificou a proposta como “devastadora” e cobrou intervenção urgente do Congresso. O detalhe que complica a narrativa: segundo as estimativas do próprio CMS, se a regra for finalizada como está, o impacto agregado sobre radiologia diagnóstica, medicina nuclear, radiologia intervencionista e radio-oncologia seria positivo.

O que muda no fator de conversão
O fator de conversão é o multiplicador que transforma as unidades de valor relativo (RVUs) de cada procedimento em dólares. Na proposta para 2027, ele cai US$ 0,56, de aproximadamente US$ 33,40 para US$ 32,84 — retração de 1,68%. Para os médicos vinculados a modelos alternativos de pagamento (APMs, na sigla em inglês), que assumem risco sobre custo e qualidade, o valor proposto é de US$ 33,17, uma redução menor, de 1,19% (US$ 0,40).
A origem do corte não é uma decisão nova de contenção, mas o fim de um reforço temporário: o bônus único de 2,5% concedido pelo Working Families Tax Cut Act expira ao final de 2026 e não foi renovado na proposta. Sem ele, a base de cálculo simplesmente volta a encolher — um roteiro que os médicos americanos conhecem bem, após anos seguidos de cortes nominais enquanto a inflação de custos das clínicas seguia em alta.
SIR fala em proposta “devastadora” e cobra o Congresso
A SIR, que representa mais de 8.000 radiologistas intervencionistas, pediu que o Congresso “aja imediatamente para barrar esta proposta devastadora”, argumentando que os cortes ignoram o aumento contínuo dos custos de operação das práticas médicas — pessoal, equipamentos, insumos e conformidade regulatória.
A entidade voltou a defender a House Resolution 6160, o Strengthening Medicare for Patients and Providers Act, apresentado em novembro. O projeto vincularia o reajuste anual dos médicos ao Medicare Economic Index (MEI), índice que mede a inflação dos custos da prática médica. Hoje, os médicos são a única categoria de prestadores do Medicare sem reajuste anual automático — hospitais, home care e outros segmentos têm atualização periódica garantida. A mobilização legislativa em torno do tema já vinha ganhando tração, como mostramos na análise sobre o avanço da reforma do pagamento médico no Congresso americano.
A nuance: para a radiologia, a conta pode fechar no azul
Apesar do fator de conversão menor, a história não é puramente negativa — e esse é o ponto que mais surpreendeu analistas. O CMS estima que, se a regra for finalizada, o impacto agregado de pagamento seria de +2% para a radiologia diagnóstica, +2% para a medicina nuclear, +3% para a radiologia intervencionista e +3% para a radio-oncologia.
O motor desses ganhos é uma mudança metodológica no cálculo das despesas de prática (practice expense, PE), baseada em relatório da RAND Corporation encomendado pelo próprio CMS. A nova fórmula passa a alocar a despesa indireta usando a soma do RVU de trabalho com o RVU de trabalho clínico para todos os serviços — redistribuindo recursos de forma favorável às especialidades de imagem, intensivas em equipamento e equipe técnica.
Kit Crancer, do Radiology Patient Action Network, classificou as mudanças de PE como “positivas” para a radiologia diagnóstica e destacou que o reembolso da radiologia intervencionista “subiu de forma significativa” — um alívio para uma subespecialidade que já enfrenta a concorrência crescente da urologia em procedimentos guiados por imagem. Crancer também celebrou o fato de o ajuste de eficiência do trabalho médico — mecanismo que desconta ganhos de produtividade atribuídos à IA e à tecnologia — não ser aplicado ao componente técnico dos exames. Para a radio-oncologia, o sinal de +3% chega em um momento delicado, marcado pelo alerta da ASTRO sobre o fechamento de centros de radioterapia nos EUA e pela necessidade de financiar técnicas complexas, como a reirradiação no câncer retal recidivado.
MIPS aposentado em 2029 e guerra aos exames duplicados
A proposta de 1.592 páginas traz ainda duas mudanças estruturais. A primeira é a aposentadoria do MIPS tradicional, o programa de relatoria de qualidade, prevista para 2029, com transição para os MIPS Value Pathways — trilhas de métricas mais enxutas e específicas por especialidade.
A segunda é um pedido formal de informações (RFI) sobre exames de imagem duplicados e interoperabilidade. O CMS reconhece que resultados de imagem presos em silos institucionais geram repetição de exames, atrasos diagnósticos e exposição desnecessária à radiação — um problema com custo clínico e financeiro que o órgão quer começar a medir e corrigir.
O que isso sinaliza para o Brasil
A dinâmica americana ecoa dilemas conhecidos do mercado brasileiro. Assim como o fator de conversão do Medicare fica para trás da inflação de custos, a tabela SUS acumula defasagem histórica e a CBHPM trava negociações constantes entre entidades médicas e operadoras. A lição da proposta de 2027 é que o valor nominal do multiplicador não conta a história toda: mudanças metodológicas na composição das despesas de prática podem redistribuir receita entre especialidades de forma silenciosa — e a radiologia, intensiva em capital, tem muito a ganhar ou perder nesses ajustes técnicos. Para gestores de clínicas de imagem e radioterapia no Brasil, acompanhar esses movimentos ajuda a antecipar tendências de remuneração que costumam chegar ao mercado privado local com alguns anos de atraso.
Próximos passos
A regra proposta está aberta a comentários públicos. A versão final deve ser publicada entre o fim de outubro e o início de novembro, com vigência a partir de 1º de janeiro de 2027. Até lá, sociedades como SIR e ACR — que já publicou um resumo preliminar do texto — devem intensificar a pressão pelo HR 6160 e pela correção estrutural do fator de conversão.
Fonte: Radiology Business




