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A urologia norte-americana deu mais dois passos firmes em direção à radiologia intervencionista. Em anúncios divulgados com poucos dias de diferença, o grupo Clinical Urology Associates, do Alabama, lançou um programa de embolização da artéria prostática (PAE, na sigla em inglês) realizado no próprio consultório, enquanto a parceria entre a IR Centers e o Michigan Institute of Urology inaugurou o terceiro laboratório ambulatorial de radiologia intervencionista da dupla em Michigan. Os movimentos, noticiados pelo Radiology Business, reforçam uma tendência que vem redesenhando as fronteiras entre as duas especialidades nos Estados Unidos — e que merece a atenção de radiologistas intervencionistas de todo o mundo.

Procedimento de radiologia intervencionista guiado por imagem para tratamento da próstata
Grupos de urologia dos EUA levam a embolização da artéria prostática para o consultório

PAE em consultório: o novo programa do Alabama

O Clinical Urology Associates anunciou em 29 de junho uma parceria com o radiologista intervencionista David J. Kim para oferecer embolização da artéria prostática em regime office-based na cidade de Albertville, no nordeste do Alabama. O programa estreou oficialmente em 26 de junho, quando três pacientes foram submetidos ao procedimento no próprio consultório do grupo de urologia — todos com sucesso, segundo o comunicado da clínica, que descreve a iniciativa como uma expansão importante das opções minimamente invasivas para homens com próstata aumentada na região.

A iniciativa conta com um terceiro parceiro: a Blue Ocean Interventional Radiology, empresa sediada em Naples, na Flórida, especializada em ajudar consultórios médicos a desenvolver e operar programas próprios de radiologia intervencionista. A companhia oferece suporte de desenvolvimento, clínico, operacional e administrativo, e já lista cerca de 40 unidades em funcionamento, mantidas em parceria com grupos como Advanced Urology, Idaho Urologic Institute e Urology Associates of Connecticut.

Segundo o Clinical Urology Associates, o formato conecta o vínculo já estabelecido do paciente com a equipe de urologia ao tratamento especializado guiado por imagem, em uma experiência coordenada. O grupo também sinalizou que a estrutura do laboratório poderá absorver, no futuro, outros procedimentos de embolização clinicamente indicados.

Michigan ganha o terceiro laboratório ambulatorial de RI

No mesmo período, a IR Centers, empresa-plataforma com sede na Virgínia, anunciou ao lado do Michigan Institute of Urology a abertura do terceiro laboratório ambulatorial de radiologia intervencionista da parceria em Michigan. A colaboração começou no fim de 2023, com a inauguração de um centro em Troy, no subúrbio de Detroit, e não parou de crescer desde então.

Para sustentar a expansão, o radiologista intervencionista Jeremy Handel se junta ao programa, dimensionado para atender à demanda crescente da região. “A procura por cuidado ambulatorial minimamente invasivo continua superando a capacidade dos serviços tradicionais”, afirmou o radiologista Sandeep Bagla, CEO da IR Centers, em comunicado de 6 de julho. Para ele, o terceiro laboratório é uma resposta direta à necessidade dos pacientes e aproxima o cuidado guiado por imagem das comunidades atendidas.

A unidade oferecerá procedimentos guiados por imagem para hiperplasia prostática benigna, distúrbios venosos pélvicos e dor crônica, doença hemorroidária e condições musculoesqueléticas. A IR Centers soma hoje cerca de 40 centros nos Estados Unidos, operados em parceria com urologistas, ortopedistas e gastroenterologistas.

Por que a embolização prostática ganhou tanto espaço

O pano de fundo dessa expansão é a consolidação da PAE como alternativa minimamente invasiva para o tratamento da hiperplasia prostática benigna (HPB). Em 2023, a American Urological Association (AUA) revisou suas diretrizes e passou a endossar a embolização da artéria prostática como opção terapêutica para a condição — um marco que abriu as portas dos grupos de urologia para o procedimento.

Realizada por acesso endovascular e guiada por imagem, a PAE reduz o fluxo sanguíneo para a próstata aumentada, levando à diminuição do volume glandular e ao alívio dos sintomas urinários. Por dispensar a via transuretral, apresenta-se como alternativa à ressecção transuretral da próstata (RTU) em pacientes selecionados, com realização em regime ambulatorial e recuperação tipicamente mais rápida. Ela se soma a um movimento mais amplo de tratamentos menos agressivos em uro-oncologia e urologia, que inclui, em outro contexto clínico, as terapias focais para o câncer de próstata.

O modelo office-based lab e a verticalização do cuidado

Tanto a Blue Ocean quanto a IR Centers operam como “empresas-plataforma”: fornecem infraestrutura, suporte clínico e gestão para que grupos médicos ofereçam radiologia intervencionista em laboratórios próprios, fora do ambiente hospitalar — os chamados office-based labs (OBLs). Para os grupos de urologia, o atrativo é evidente: o paciente permanece dentro da estrutura da clínica, do diagnóstico ao tratamento, em um movimento claro de verticalização da linha de cuidado.

O modelo, porém, divide opiniões. Parte dos radiologistas intervencionistas teme que a especialidade esteja cedendo o controle de seus procedimentos a outras áreas médicas, com o radiologista reduzido a prestador de serviço dentro de estruturas comandadas por urologistas. Outros enxergam nas parcerias uma via legítima de crescimento profissional e de acesso a pacientes que dificilmente chegariam aos serviços hospitalares de radiologia intervencionista.

O que muda para o radiologista intervencionista

Para o radiologista, o avanço dos OBLs cria oportunidades e exige posicionamento estratégico. De um lado, multiplicam-se vagas e sociedades em programas ambulatoriais — as contratações de David J. Kim e Jeremy Handel ilustram esse mercado em expansão. De outro, cresce a importância de dominar não apenas a técnica, mas também gestão, negociação e construção de linhas de cuidado. Não por acaso, a especialização em radiologia intervencionista vem registrando procura crescente entre jovens médicos.

A infraestrutura também pesa nessa equação: laboratórios ambulatoriais dependem de equipamentos de imagem eficientes e adequados ao porte do serviço, e os fabricantes têm respondido a esse mercado, como mostram as recentes atualizações da GE em sistemas intervencionistas.

No Brasil, a embolização da artéria prostática segue em expansão em centros de referência, sobretudo em hospitais universitários e grandes serviços privados de radiologia intervencionista. O modelo de laboratório em consultório, contudo, ainda não encontra paralelo regulatório e de remuneração equivalente no país, o que torna o movimento americano um caso a ser observado — seja como inspiração para novos arranjos assistenciais, seja como alerta sobre disputas de território entre especialidades.

Perspectivas

A expectativa é de novas parcerias entre urologistas e radiologistas nos próximos meses — a própria IR Centers já havia divulgado outras duas colaborações em abril. Com a PAE consolidada nas diretrizes e a demanda por procedimentos minimamente invasivos em alta, a discussão sobre quem lidera esses serviços tende a se intensificar, colocando as sociedades de radiologia intervencionista diante de uma escolha estratégica: participar ativamente do modelo ambulatorial ou vê-lo avançar sem elas.

Fonte: Radiology Business