Skip to main content


O planejamento no câncer de mama inicial parte de um núcleo bem definido: a radioterapia adjuvante da mama inteira continua baseada em 3D CRT com compensação adequada, sobretudo field-in-field e, quando necessário, feixes de energia mista para manter a dose homogênea no tecido mamário. O próprio capítulo coloca a irradiação hipofracionada da mama toda como a estratégia com maior nível de evidência.

Acelerador linear usado no planejamento e tratamento radioterápico do câncer de mama inicial
Foto: Jo McNamara/Pexels

Esse ponto de partida organiza todas as decisões seguintes. O boost no leito tumoral reduz o risco de recorrência local, mas pode ser omitido em pacientes de baixo risco; a APBI ainda não é o padrão de cuidado, embora seja aceita em casos selecionados com doença unifocal e baixo risco. Para uma visão completa do tema, confira nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo e planejamento de campos. Se você quiser conectar o planejamento local ao peso global da doença, veja também nossa análise sobre a projeção mundial do câncer de mama até 2050.

Princípios gerais do planejamento no câncer de mama inicial

No câncer de mama inicial, o capítulo responde sem rodeios: a técnica padrão para a radioterapia adjuvante é a 3D CRT com compensação apropriada para homogeneidade da dose. Quando essa compensação é bem executada, com field-in-field e, se a anatomia exigir, combinação de energias, a cobertura do parênquima mamário fica mais uniforme e o plano se mantém fiel ao que o texto considera referência atual.

O boost aparece logo depois na sequência clínica. Uma dose adicional no leito tumoral, isto é, na cavidade da lumpectomia, reduz ainda mais o risco de recorrência local. Ao mesmo tempo, o capítulo não converte essa etapa em automatismo: pacientes de baixo risco podem dispensar esse reforço. A decisão, portanto, depende da leitura do risco e da anatomia da cavidade, não apenas de hábito institucional.

Quando o boost é indicado, o planejamento mais frequente usa um feixe de elétrons en face. A escolha da energia não sai por rotina fixa. Ela deve acompanhar a profundidade do leito tumoral acrescida de margem, mas sem ultrapassar a superfície anterior dos músculos peitorais. Se o leito estiver profundo, mini-tangentes podem ser consideradas. Na prática, o capítulo separa dois cenários com clareza: elétrons funcionam bem quando a profundidade e a geometria favorecem essa entrega; quando o leito se aprofunda, vale migrar para uma solução que respeite melhor a anatomia.

A APBI entra como alternativa possível, não como substituta universal da mama toda. O texto é explícito ao dizer que a irradiação parcial acelerada da mama ainda não é padrão de cuidado, mas já pode ser aceita em pacientes selecionadas, de baixo risco e com doença unifocal. Nesse grupo, diferentes técnicas podem ser usadas, incluindo 3D CRT e IMRT. O filtro decisivo continua sendo seleção criteriosa e delineamento preciso.

Imagem, cirurgia e revisão patológica antes da radioterapia

Antes de qualquer contorno, o capítulo exige base diagnóstica consistente. Exame físico minucioso, imagem pré-operatória adequada e revisão anatomopatológica são apresentados como componentes diretos do diagnóstico, do estadiamento e do planejamento radioterápico.

Toda paciente deve realizar mamografia ao diagnóstico. A ultrassonografia aparece como exame adicional frequente. A ressonância magnética tem indicação mais limitada na doença inicial, mas, quando estiver disponível, precisa entrar na revisão pré-planejamento. O motivo é bem objetivo: esses estudos ajudam a garantir margens adequadas para a irradiação da mama toda e melhoram a definição do alvo quando o plano inclui boost ou APBI.

O percurso diagnóstico-terapêutico também fica bem delimitado. A biópsia guiada por imagem em geral confirma o câncer. Para carcinoma ductal in situ, a cirurgia descrita é lumpectomia, ou excisão segmentar, isoladamente. Na doença invasiva inicial, o capítulo recomenda lumpectomia associada à biópsia do linfonodo sentinela. Esse encadeamento importa porque o alvo da radioterapia nasce da cirurgia, do leito resultante e da forma como a cavidade pode ser reconhecida na CT.

A revisão patológica fecha essa etapa com um critério concreto de margem. O texto pede ausência de tumor na tinta para doença invasiva e 2 mm para DCIS puro, de acordo com o consenso SSO-ASTRO de 2016. Esse detalhe não é marginal. Ele define se o leito cirúrgico pode ser tratado como adequadamente ressecado e orienta a confiança com que o boost ou a APBI serão desenhados.

O cirurgião idealmente deve colocar clips no ato operatório, embora o capítulo deixe claro que isso é desejável, não obrigatório. Quando estão presentes, os clips ajudam no delineamento do leito tumoral e na localização radiográfica antes da entrega da radiação. O texto destaca que esse ganho é especialmente útil na APBI, situação em que a precisão geométrica deixa de ser conveniência e vira requisito central.

Simulação por CT e posicionamento: supino, prona e DIBH

O capítulo deixa a aquisição tomográfica bastante objetiva. Para irradiação da mama toda, a CT deve ser feita com espessura de corte ≤ 3 mm, em posição supina ou prona. Para APBI, a recomendação é ainda mais fina: cortes de 1,5 a 2 mm através da cavidade de lumpectomia, porque isso pode melhorar o delineamento da cavidade.

No posicionamento supino, a paciente deve ficar em breast board com os braços acima da cabeça. Em tumores à esquerda, o DIBH deve ser considerado para reduzir a dose no coração. O texto associa diretamente essa escolha ao objetivo de proteção cardíaca, sem tratá-la como detalhe acessório.

A posição prona aparece com indicação mais seletiva e bastante prática. Pacientes com mamas pendulares podem se beneficiar da redução da separação e da melhora da homogeneidade do tecido no planejamento, o que pode diminuir toxicidade aguda. A prona também reduz a radiação pulmonar e pode ser usada como estratégia de evasão cardíaca.

O capítulo, porém, faz um alerta que muda a decisão diária: se o leito tumoral encostar na parede torácica, o coração pode paradoxalmente se aproximar do campo. Na prona, a paciente deve usar uma mesa dedicada para mama, com atenção real ao conforto para garantir reprodutibilidade, e pacientes com lesões ortopédicas em dorso ou pescoço podem não ser candidatas ideais.

Comparação prática entre supino e prona

O trecho do capítulo contrapõe as duas posições de maneira útil quando a decisão envolve homogeneidade, órgãos de risco e reprodutibilidade.

Posição Setup descrito no capítulo Vantagens citadas Cuidados citados
Supino Breast board com braços acima da cabeça DIBH pode ser considerado em tumores à esquerda para reduzir dose cardíaca O capítulo não lista ressalvas específicas além da necessidade de planejamento adequado
Prona Mesa prona dedicada para mama, com atenção ao conforto para garantir reprodutibilidade Reduz separação, melhora homogeneidade, pode reduzir toxicidade aguda, reduz dose pulmonar e pode ajudar a poupar coração O coração pode se aproximar do campo se o leito tumoral tocar a parede torácica; pacientes com lesões ortopédicas em dorso ou pescoço podem não ser ideais

Órgãos de risco e delineamento do coração

No planejamento do câncer de mama inicial, coração e pulmões devem ser contornados em todos os casos. O capítulo não abre exceção porque a estimativa de dose nessas estruturas entra como parte central da avaliação do plano.

O coração deve ser contornado superiormente até a bifurcação da artéria pulmonar. Esse contorno precisa incluir o pericárdio e a gordura epicárdica situada entre o músculo cardíaco e o pericárdio, mas não precisa se estender para a gordura pericárdica que fica fora do pericárdio. A Figura 11.8 é direta ao ilustrar exatamente essa fronteira anatômica.

Quando o texto discute proteção cardíaca, ele mantém o foco principal na redução da dose média no coração, que é onde está a melhor evidência. Ao mesmo tempo, o capítulo reconhece um refinamento importante: há dados emergentes sugerindo relevância da dose na artéria descendente anterior esquerda e no ventrículo esquerdo. Por isso, essas estruturas também podem ser delineadas com base nos atlas publicados por Feng et al. e Duane et al.

Em termos práticos, esse trecho ajuda a evitar dois erros opostos. O primeiro é usar um contorno cardíaco simplificado demais, que dilui informação anatômica útil. O segundo é ampliar o volume sem critério, incluindo gordura que o próprio capítulo diz que não precisa entrar. O equilíbrio proposto é preciso e operacional.

Delineamento no câncer de mama inicial: volumes-alvo

O delineamento no câncer de mama inicial começa em dois alvos básicos quando a estratégia é mama toda: o tecido mamário e a cavidade de lumpectomia. Se o tratamento for APBI, o capítulo acrescenta dois volumes derivados, o lumpectomy CTV e o lumpectomy PTV.

A Tabela 11.1 concentra as definições geométricas mais importantes dessa parte do capítulo. Ela funciona como mapa anatômico do tratamento, porque especifica fronteiras, margens e exceções que realmente mudam o plano.

Tabela 11.1. Volumes-alvo sugeridos para planejamento 3D no câncer de mama inicial

A tabela abaixo resume como o capítulo define cada volume e onde ele deve parar. Esses limites são decisivos para não invadir estruturas que não pertencem ao alvo e, ao mesmo tempo, não perder margem em casos mais mediais ou laterais.

Volume-alvo Definição e descrição
Mama É necessária referência clínica para o delineamento do tecido mamário. A mama pode ser demarcada com fios ou com bordas clínicas no momento da CT. O contorno deve incluir todo o tecido glandular mamário. A borda cranial deve ficar abaixo da cabeça da clavícula e na inserção da segunda costela. A borda caudal é definida pela perda do tecido mamário. A borda medial fica na margem do esterno e não deve cruzar a linha média. A borda lateral é definida pela linha axilar média, mas depende da ptose mamária. A borda anterior é a pele ou alguns milímetros abaixo da superfície cutânea, para fins de relato de dose, e a borda posterior corresponde aos músculos peitorais e aos músculos da parede torácica. O volume não deve incluir esses músculos nem as costelas. Os limites podem se estender discretamente além dessas definições para garantir margem adequada sobre a cavidade de lumpectomia, sobretudo em casos extremamente mediais ou laterais.
Cavidade de lumpectomia Devem ser incluídos seroma, clips cirúrgicos e diferenças evidentes no tecido glandular mamário. A comparação com a mama contralateral pode ser útil, especialmente quando não há líquido e ou clips. Todos os exames de imagem devem ser revistos antes do planejamento para ajudar no delineamento desse volume. Esse volume não deve se estender para fora do tecido mamário.
Lumpectomy CTVa Cavidade de lumpectomia com expansão de 1,0 a 1,5 cm. Esse volume não deve se estender para fora do corpo nem para os músculos peitorais e ou músculos da parede torácica.
Lumpectomy PTVa Lumpectomy CTV com margem baseada na incerteza de setup e no movimento previsto da paciente, em geral 0,5 a 1,0 cm. Esse volume pode se estender para fora da superfície da paciente e para os músculos peitorais e ou músculos da parede torácica. Ajustes podem ser necessários para fins de relato de dose.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 11.1)

a Apenas para APBI; para irradiação da mama toda, somente a cavidade de lumpectomia é o alvo do boost.

A lógica da tabela é simples: contornar toda a mama exige referência clínica, reconhecimento do tecido glandular e respeito aos limites anatômicos, com pequenas extensões apenas quando forem necessárias para manter margem adequada sobre a cavidade.

Na cavidade de lumpectomia, o texto combina sinais diretos e indiretos. Seroma e clips são o ponto de partida, mas diferenças no parênquima glandular e comparação com a mama contralateral também ajudam quando a cavidade não está óbvia.

Na APBI, a progressão geométrica fica muito clara. Primeiro vem a cavidade. Depois, um CTV com expansão de 1,0 a 1,5 cm que não deve sair do corpo nem invadir músculos peitorais ou parede torácica. Por fim, um PTV com 0,5 a 1,0 cm conforme incerteza de setup e movimento esperado. O capítulo ainda ressalta que ajustes podem ser necessários para fins de relato de dose, lembrando que o volume usado para cobertura nem sempre coincide exatamente com o volume usado para reporte.

As figuras refinam essa lógica. Na Figura 11.3, a cavidade de lumpectomia da APBI se apoia em seroma, clips colocados pelo cirurgião e revisão de mamografia, ultrassom e ressonância quando disponíveis. O CTV costuma ser uma expansão de 1,5 cm ao redor da cavidade, excluindo peitoral, costela e parede torácica, sem ultrapassar o tecido mamário contornado. Em geral, ele não alcança a pele, ficando restrito a 5 mm da superfície da paciente. O PTV, naquele exemplo, é formado por expansão aproximada de 5 mm ao redor do CTV, dependendo da incerteza institucional de setup.

O que as figuras do capítulo mostram sobre técnica, campos e dose

As figuras do capítulo transformam princípios em escolhas concretas de campo, energia e dose. Elas mostram como a mesma lógica clínica assume geometrias diferentes quando o caso é supino, prono, APBI ou boost focal.

Resumo técnico das Figuras 11.1 a 11.8

As legendas do capítulo permitem condensar os exemplos práticos abaixo, todos úteis para ligar delineamento à execução.

Figura Situação clínica Mensagem técnica principal
11.1 Imagens axiais em supino para mulher com câncer de mama estágio I à esquerda Exemplo anatômico da posição supina usada no planejamento da mama esquerda
11.2 Imagens axiais em prona para mulher com DCIS à esquerda Exemplo anatômico da posição prona em doença inicial da mama esquerda
11.3 Plano de APBI A cavidade é baseada em seroma, clips e revisão de mamografia, US e MRI; o CTV costuma ser expansão de 1,5 cm, não vai para peitoral, costela ou parede torácica, não sai do tecido mamário e em geral para 5 mm antes da pele; o PTV recebe expansão aproximada de 5 mm
11.4 Plano supino da mama com campos tangenciais Uso de field-in-field para homogeneidade e pequeno bloco de MLC para blindagem cardíaca; dose prescrita de 42,4 Gy em frações de 2,65 Gy, seguida de boost eletrônico até 10 Gy em frações de 2,5 Gy
11.5 Plano prono da mama com campos tangenciais Field-in-field novamente usado para homogeneidade; dose prescrita de 42,4 Gy em frações de 2,65 Gy, seguida de boost fotônico com mini-tangentes até 10 Gy em frações de 2,5 Gy; a borda posterior do campo deve incluir parte do músculo peitoral
11.6 Plano de APBI Combinação de campos fotônicos em mini-tangentes com campo de elétrons en face
11.7 Boost do leito tumoral em supino Energia eletrônica de 12 MeV selecionada para cobrir a linha de isodose de 90% até a superfície anterior do músculo peitoral
11.8 Contorno cardíaco O coração inclui o pericárdio, mas não a gordura pericárdica que se estende para fora dele

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Figs. 11.1-11.8)

As figuras deixam duas mensagens centrais. Field-in-field sustenta a homogeneidade tanto em supino quanto em prona, e a técnica de boost segue a geometria do leito. Os exemplos de mama toda usam 42,4 Gy em frações de 2,65 Gy seguidos de boost de 10 Gy em frações de 2,5 Gy, enquanto o boost eletrônico usa 12 MeV para levar a isodose de 90% até a superfície anterior do peitoral.

Referências citadas no capítulo

Para o delineamento detalhado da artéria descendente anterior esquerda e do ventrículo esquerdo, o capítulo remete a dois atlas publicados: Feng et al. e Duane et al..

Essas referências apoiam um refinamento específico do contorno cardíaco. O foco principal continua sendo a dose média no coração, mas LAD e ventrículo esquerdo podem entrar na análise quando o serviço quer uma avaliação mais anatômica da exposição. Para revisar esse raciocínio dentro do panorama maior do tema, volte ao artigo principal sobre delineamento de volume alvo e planejamento de campos.

Leave a Reply