Skip to main content

Uma nova análise retrospectiva do ensaio fase 3 ZIRCON sugere que o radiofármaco PET/TC (⁸⁹Zr)girentuximab pode ir além da indicação inicial — detectar carcinoma renal de células claras (ccRCC) — e ter utilidade clínica relevante também em malignidades renais não-CCR. Os números, divulgados em 5 de maio de 2026, mostram sensibilidade de 82%, especificidade de 87% e valor preditivo positivo de 98% para qualquer câncer renal em uma coorte de 300 pacientes — patamar que coloca o agente entre as ferramentas mais discriminativas já testadas para massas renais.

O que é o girentuximab

Girentuximab é um anticorpo monoclonal radiomarcado com zircônio-89 (⁸⁹Zr), com meia-vida de 78,4 horas. Ele se liga à anidrase carbônica IX (CAIX), uma enzima de membrana fortemente expressa em condições de hipóxia tumoral — e particularmente abundante no carcinoma renal de células claras, onde a perda do gene VHL ativa de forma constitutiva o eixo HIF/CAIX. O conjugado foi originalmente desenvolvido para distinguir, em PET/TC, massas renais com captação tipicamente “clara” do tecido normal renal. A meia-vida longa do zircônio permite imagem em 3 a 7 dias após injeção, tempo suficiente para a perfusão tissular se estabilizar.

Massa renal posterior em TC contrastada com captação correspondente de [89Zr]girentuximab em PET fundido
Massa renal posterior em TC contrastada (A) e PET/TC fundido (B) mostrando captação de ⁸⁹Zr-girentuximab; H&E e marcação para CAIX após ressecção em homem de 78 anos.

Detalhes do estudo

O grupo, liderado por Aboubacar Kaba (UCLA Institute of Urologic Oncology / David Geffen School of Medicine), analisou retrospectivamente 300 pacientes que realizaram o PET/TC dentro do ZIRCON e cujos tumores não eram histologicamente CCR (nccRCC, do inglês non-clear cell renal cell carcinoma). A leitura foi cega ao patologista e os resultados foram cruzados com a histologia da peça cirúrgica. As métricas reportadas — sensibilidade de 82%, especificidade de 87% e VPP de 98% — são particularmente impressionantes em um contexto em que radiologistas convencionais batem com TC contrastada acurácia em torno de 65-75% para diferenciar lesões benignas de malignas em massas renais pequenas.

Os autores também avaliaram subgrupos. No carcinoma de células papilares (pRCC), a comparação entre casos PET-ávidos e PET-negativos mostrou SUVmax médio de 16 contra 11 e escore CAIX médio de 28 contra 22, sugerindo correlação entre captação do tracer e expressão imuno-histoquímica de CAIX no tecido. O dado tem peso porque pRCC é considerado uma doença mais agressiva e tem prognóstico pior que o ccRCC clássico; um marcador imagenológico que diferencie pRCC “frio” de “quente” pode mudar conduta cirúrgica.

Por que isso importa na prática

A grande dor clínica em uroncologia é o manejo de pequenas massas renais com TC inconclusiva. Hoje a sequência inclui RM com gadolínio, biópsia percutânea (com taxa de não-diagnóstico de 10-15% em lesões pequenas) e, frequentemente, nefrectomia parcial diagnóstica. Um radiotracer com VPP de 98% reduz o falso-positivo cirúrgico e abre espaço para vigilância ativa em massas que o PET classifique como provavelmente benignas. Para tumores com alta captação, a informação molecular pode redirecionar para terapias dirigidas — semelhante à estratificação de risco oncológica feita por plataformas de IA em outras patologias.

Outra vantagem técnica destacada pelos autores é a baixa excreção renal do tracer. Como o ⁸⁹Zr-girentuximab é eliminado predominantemente pela via hepatobiliar, o ruído de fundo na pelve renal é mínimo — o que melhora a leitura justamente onde está a lesão de interesse. Em comparação, agentes como o ¹⁸F-FDG e PSMA têm excreção renal substancial e exigem manobras de hidratação ou imagem tardia para mitigar artefatos.

O cenário regulatório e clínico

O ZIRCON foi o ensaio fase 3 que sustentou o pedido de aprovação do produto no FDA. A análise retrospectiva agora ampliada para nccRCC reforça o argumento de uso ampliado e provavelmente subsidia novas indicações em label. Empresas como Telix Pharmaceuticals — patrocinadora do estudo — vêm se consolidando como peças centrais da chamada “radioligand therapy”, em que diagnóstico e tratamento compartilham o alvo molecular. Em paralelo, plataformas de planejamento como a MIM ComboTherapy GYN da GE mostram como o ecossistema de radioteranóstica está se estruturando para integrar PET, dosimetria e tratamento em fluxo único.

No Brasil, a Anvisa ainda não tem registro do girentuximab para uso clínico, e o PET de zircônio-89 depende de cíclotrons capazes de produzir ou importar o isótopo em condições logísticas viáveis — algo restrito a poucos centros de São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e Recife. O cenário pode mudar à medida que centros nacionais se conectem a redes acadêmicas internacionais e a SBMN (Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear) inclua a discussão em diretrizes.

Implicações na rotina do radiologista

Para o radiologista, o resultado significa que vale revisar protocolos atuais de “caracterização de massa renal” e considerar quando encaminhar para PET molecular — sobretudo em pacientes com lesão indeterminada à TC e RM, contraindicação à biópsia ou tumores bilaterais. Estratégias similares com RM fingerprinting de próstata mostram a tendência geral: reduzir biópsias diagnósticas com biomarcadores imagenológicos quantitativos.

Há limitações importantes a sinalizar. Trata-se de análise retrospectiva, com 300 pacientes selecionados por critério de elegibilidade do ZIRCON, e a validação prospectiva em coortes não-CCR ainda é necessária. Os autores também ressaltam que a expressão de CAIX varia entre subtipos histológicos e pode ser baixa em tumores cromófobos ou oncocíticos, o que poderia limitar o uso nesses casos. Mas o pacote de evidências, somado ao histórico do ensaio fase 3, deve consolidar o ⁸⁹Zr-girentuximab como ferramenta padrão de imagem em uroncologia nos próximos dois anos.

Fonte: Diagnostic Imaging — Study Shows Impact of CAIX-Targeted PET Radiotracer for Renal Malignancies (05/05/2026)