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Resposta inicial ao acidente com césio-137: como Goiânia descobriu a contaminação

A resposta inicial ao acidente radiológico de Goiânia com césio-137 começou em 28 de setembro de 1987, quando M.F.1 levou os restos da fonte radioativa à Vigilância Sanitária, convencida de que o pó brilhante estava matando sua família. Até aquele momento, médicos haviam diagnosticado os sintomas de vômito, diarreia e lesões cutâneas como reação alérgica alimentar ou doença tropical. O que se seguiu nas 24 horas seguintes mudou completamente a escala da emergência.

Para entender o contexto completo de como a fonte foi removida e dispersada, confira nosso guia completo sobre o acidente radiológico de Goiânia.

Equipe de resposta a emergência radiológica com equipamentos de proteção individual durante operação de descontaminação
Foto ilustrativa: equipe em traje de proteção durante resposta a emergência. Crédito: CDC / Pexels

A fonte de césio-137: dados técnicos essenciais

A fonte envolvida no acidente de Goiânia era composta por cloreto de césio-137, um sal altamente solúvel e com propriedades que amplificaram drasticamente a dispersão do material. Produzida por volta de 1970 no Oak Ridge National Laboratory (EUA), a fonte estava selada em dupla cápsula de aço inoxidável dentro de uma cápsula internacional padronizada, com diâmetro externo de 50,6 mm e janela de 1 mm de espessura.

Em setembro de 1987, a atividade da fonte era de 50,9 TBq (1375 Ci), gerando uma taxa de dose de 4,56 Gy/h a 1 metro de distância. O césio-137 emite radiação gama de 0,66 MeV (84% das desintegrações) e partículas beta com energia máxima de 0,51 MeV (95%) e 1,17 MeV (5%), com meia-vida de 30 anos.

Dados radiológicos e limites de proteção

A tabela a seguir resume os principais parâmetros da fonte e os dados de proteção radiológica relevantes para a gestão do acidente.

Parâmetro Valor
Emissão gama 0,66 MeV (84%)
Emissão beta máxima 0,51 MeV (95%); 1,17 MeV (5%)
Energia beta média 0,187 MeV
Meia-vida 30 anos
Constante gama específica 8,9 × 10⁻² mGy·h⁻¹ a 1 m por GBq
Atividade (set/1987) 50,9 TBq (1375 Ci)
Taxa de dose a 1 m 4,56 Gy/h
Volume do material 3,1 × 10⁻⁵ m³
Massa 0,093 kg
Atividade específica 0,55 TBq/g (15,1 Ci/g)
Dose por ingestão 1,2 × 10⁻⁸ Sv/Bq
Dose por inalação 8,7 × 10⁻⁹ Sv/Bq
Limite anual de incorporação (oral) 4,0 × 10⁶ Bq
Limite anual de incorporação (inalação) 6,0 × 10⁶ Bq
Concentração derivada no ar 2,0 × 10³ Bq/m³

Fonte: The Radiological Accident in Goiânia (IAEA, 1988) — Tabela I

De sintomas ignorados ao alerta: a cadeia de diagnósticos errados

O caminho até a identificação da contaminação radiológica foi lento e marcado por diagnósticos equivocados. W.P., o primeiro a manusear diretamente o conjunto rotativo da fonte, procurou atendimento médico já em 15 de setembro — apenas dois dias após a remoção da peça. Seus sintomas de vômito e edema na mão foram atribuídos a reação alérgica alimentar.

M.F.1, esposa do dono do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, também passou pelo mesmo ciclo. Internada entre 21 e 23 de setembro no Hospital São Lucas com vômito e diarreia, recebeu o mesmo diagnóstico: reação a alimento contaminado. Foi mandada para casa.

W.P. voltou ao hospital em 23 de setembro e ficou internado até 27 de setembro no Hospital Santa Maria. As lesões cutâneas causadas pela radiação foram interpretadas como sintoma de doença infecciosa, e ele foi transferido para o Hospital de Doenças Tropicais. Naquele ponto, vários pacientes com sintomas semelhantes já haviam passado pelo mesmo hospital — e nenhum foi diagnosticado corretamente.

O ponto de virada veio do Dr. R.P., médico do Hospital de Doenças Tropicais, que começou a suspeitar que as lesões cutâneas dos pacientes eram consistentes com dano por radiação. Ele contatou o Dr. A.M., que trabalhava tanto no hospital quanto no Centro de Informação Toxicológica. Na prática, foram necessários 15 dias e múltiplos diagnósticos incorretos antes que alguém associasse os sintomas à exposição radiológica.

28 de setembro: a fonte chega à Vigilância Sanitária

No dia 28 de setembro, M.F.1 tomou a iniciativa que deflagrou toda a cadeia de resposta. Convencida de que o pó luminoso do ferro-velho estava causando a doença em sua família, ela foi com G.S. (funcionário de D.F.) ao Ferro-Velho III, onde os restos do conjunto rotativo haviam sido vendidos. G.S. colocou os fragmentos em um saco e os dois seguiram de ônibus até a Vigilância Sanitária.

G.S. carregou o saco no ombro durante o trajeto — o que lhe causou uma queimadura significativa por radiação e uma dose corporal estimada em 3,0 Gy, além de uma incorporação de 100 MBq (2,7 mCi).

Ambulância de emergência com portas abertas pronta para transporte de vítimas de acidente radiológico
Foto ilustrativa: mobilização de emergência para atendimento a vítimas. Crédito: RDNE Stock Project / Pexels

Na Vigilância, M.F.1 colocou o saco sobre a mesa do Dr. P.M. e disse que aquilo estava “matando sua família”. O Dr. P.M. deixou o material sobre sua mesa por algum tempo, mas preocupado, acabou removendo-o para um pátio externo, onde ficou sobre uma cadeira encostada na parede por um dia. Sua dose estimada foi de 1,3 Gy, com incorporação desprezível já que a fonte permaneceu dentro do saco.

M.F.1 e G.S. foram encaminhados a um centro de saúde, onde o diagnóstico inicial foi — mais uma vez — doença tropical. Foram então transferidos para o Hospital de Doenças Tropicais, juntando-se a outros pacientes contaminados que já estavam lá.

29 de setembro: o físico médico confirma a radiação

A manhã de 29 de setembro foi decisiva. O Dr. J.P., do Departamento de Meio Ambiente do Estado de Goiás, foi contatado pelos médicos e propôs que um físico médico examinasse o pacote suspeito. Por coincidência, W.F., um físico licenciado, estava visitando Goiânia naquele momento.

W.F. conseguiu emprestar um cintilômetro (detector de cintilação altamente sensível) dos escritórios da NUCLEBRÁS em Goiânia — um instrumento normalmente usado para prospecção de urânio, com faixa dinâmica de 0,02 a 30 µGy/h. Ao se aproximar da Vigilância Sanitária, ainda a certa distância, ligou o monitor. A agulha deflectiu ao máximo, independentemente da direção para a qual apontava o detector. Achando que o aparelho estava com defeito, voltou à NUCLEBRÁS para pegar outro.

Com o segundo instrumento, chegou à Vigilância Sanitária às 10h20 já convicto de que havia uma fonte significativa de radiação na região. Chegou a tempo de dissuadir o corpo de bombeiros, que pretendia pegar a fonte e jogá-la em um rio.

Às 11h, W.F. convenceu os ocupantes da Vigilância Sanitária a evacuar o prédio. Polícia e bombeiros ficaram de guarda para impedir a reentrada. Ao meio-dia, W.F. e o Dr. P.M. foram juntos ao Ferro-Velho I, onde encontraram contaminação disseminada — o monitor deflectia ao máximo em uma área extensa. Com alguma dificuldade, persuadiram D.F., sua família e numerosos vizinhos a evacuar a região.

Mobilização das autoridades e escala da emergência

Às 13h de 29 de setembro, W.F. e outros foram à Secretaria de Saúde do Estado de Goiás informar as autoridades sobre o incidente. Como o relatório da IAEA descreve, as autoridades reagiram com incredulidade diante da escala da contaminação e da evacuação necessária. Foi preciso insistência considerável para que W.F. conseguisse ser recebido pelo Secretário de Saúde.

Às 15h, o Diretor de Instalações Nucleares da CNEN foi contatado por telefone como coordenador designado para emergências nucleares (NEC). Ele sugeriu contatar o físico do hospital do IGR para apoio, dado que este dispunha de instrumentação mais abrangente para determinar a natureza e extensão da contaminação. A fonte foi provisoriamente identificada como possivelmente originária do IGR.

Entre 16h e 20h, múltiplas ações ocorreram simultaneamente:

  • O Hospital de Doenças Tropicais foi informado de que os pacientes estavam contaminados e deveriam ser mantidos isolados.
  • Elementos da defesa civil — polícia, bombeiros, ambulâncias e hospitais — foram colocados em alerta.
  • Os locais de contaminação conhecidos (Vigilância Sanitária e Ferro-Velho I) foram reavaliados com equipamentos do IGR.
  • O Secretário de Saúde do Estado realizou uma reunião e organizou planos para receber pessoas contaminadas no Estádio Olímpico de Goiânia.

A essa altura, a imprensa já acompanhava os eventos, o que amplificou tanto a resposta institucional quanto o pânico público.

A triagem noturna no Estádio Olímpico

Às 22h de 29 de setembro, Z.S. — que semanas antes havia se oferecido para cortar as peças do conjunto rotativo com maçarico, mas esqueceu de fazê-lo — encontrou W.F. e explicou como a fonte havia sido desmontada e para onde os fragmentos haviam sido levados. Essa informação permitiu que a equipe de monitoramento identificasse mais locais de contaminação significativa e evacuasse mais pessoas.

Na noite de 29 para 30 de setembro, 22 pessoas foram identificadas no estádio como potencialmente expostas a altas doses. Elas foram separadas em tendas, isoladas dos demais, com base em medições de contaminação, sintomas clínicos e na proximidade com os locais de maior contaminação. O Dr. A.M. e um colega realizaram triagem inicial — aqueles com lesões foram enviados ao Hospital de Doenças Tropicais.

Como relatado no documento da IAEA, o interesse despertado pelo brilho azul do cloreto de césio influenciou significativamente o curso do acidente. A alta solubilidade do composto amplificou a contaminação de pessoas, propriedades e do meio ambiente. Sem esses fatores, o incidente poderia ter se desenvolvido de forma semelhante ao acidente com cobalto-60 em Ciudad Juárez (México, 1983), que resultou em pouca contaminação e nenhuma morte.

O fenômeno do brilho azul

O brilho azulado que emanava do cloreto de césio-137 foi o que atraiu curiosos, espalhou a contaminação e, paradoxalmente, foi também o que levou M.F.1 a associar o pó à doença de sua família. D.F., o dono do ferro-velho, notou o brilho na noite em que os restos foram trazidos e convidou vizinhos, parentes e conhecidos para ver a “curiosidade” por três dias. Pessoas chegaram a espalhar o pó radioativo na pele, como se fosse o glitter usado no carnaval.

Posteriormente, pesquisadores do ORNL e do REAC/TS (Radiation Emergency Assistance Center/Training Site) observaram o mesmo fenômeno durante a desencapsulação de uma fonte de cloreto de césio-137 no início de 1988. A hipótese é que o brilho esteja associado à fluorescência ou à radiação Cherenkov causada pela absorção de umidade pela fonte. Pesquisas adicionais estavam em andamento em Oak Ridge para determinar a natureza exata do fenômeno.

Para a cronologia completa do acidente, desde a remoção da fonte até a dispersão do material, leia nosso artigo detalhado sobre como aconteceu o acidente radiológico de Goiânia.

Lições da fase de descoberta

A resposta inicial ao acidente de Goiânia revela padrões que se repetem em emergências radiológicas ao redor do mundo. A falha sistemática no diagnóstico — com pelo menos quatro pacientes recebendo diagnósticos de doença tropical ou alérgica — demonstra a importância de incluir exposição à radiação no diagnóstico diferencial quando lesões cutâneas atípicas se apresentam sem etiologia clara.

A velocidade com que a contaminação se espalhou entre 13 e 28 de setembro — quinze dias sem qualquer detecção — também destaca o risco de fontes órfãs em instalações desativadas. Uma fonte de 50,9 TBq ficou acessível em uma clínica abandonada por tempo suficiente para ser removida com ferramentas simples.

A ação decisiva de M.F.1, levando os fragmentos à Vigilância Sanitária, e a coincidência de W.F. estar em Goiânia com acesso a instrumentação foram os dois fatores que aceleraram a detecção. Sem eles, o intervalo entre a dispersão e a descoberta poderia ter sido ainda maior, com consequências potencialmente mais graves.

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