Como aconteceu o acidente radiológico de Goiânia
Em 13 de setembro de 1987, duas pessoas entraram nas ruínas de uma clínica de radioterapia abandonada em Goiânia e retiraram o conjunto da fonte radioativa de um equipamento de teleterapia. Não sabiam o que era aquilo — imaginaram que pudesse ter algum valor como sucata. Esse gesto desinformado desencadeou um dos acidentes radiológicos mais graves já registrados no mundo, com 4 mortes, 28 queimaduras por radiação e a contaminação de uma área urbana inteira.

A fonte continha cloreto de césio-137 com atividade de 50,9 TBq (1375 Ci). Esse sal é altamente solúvel e facilmente dispersável — características que transformaram a ruptura da cápsula em um desastre ambiental e sanitário de proporções inesperadas. Para entender a dimensão completa do evento e suas consequências, confira nosso guia completo sobre o acidente radiológico de Goiânia.
O cenário em Goiânia nos anos 1980
Goiânia é a capital do estado de Goiás, no planalto central brasileiro, uma região conhecida por fazendas de cereais e pecuária. Na época do acidente, a cidade tinha cerca de um milhão de habitantes. O clima é úmido, com temperatura média anual de 21,9°C (frequentemente atingindo 40°C) e pluviosidade de 1700 mm por ano.
A parte da cidade onde o acidente ocorreu era uma das áreas mais pobres, com nível de escolaridade limitado entre a população. Esse detalhe não é acessório: explica por que os moradores não reconheceram o símbolo de radiação nem associaram os sintomas gastrointestinais à exposição. O brilho azul do césio-137 no escuro fascinou as pessoas ao invés de alarmá-las.
Em termos de infraestrutura de radioproteção, os grandes centros de competência ficavam longe. O Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) e o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) situavam-se no Rio de Janeiro, a 1.348 km de distância. O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) ficava em São Paulo, a 919 km. Essa distância geográfica teve impacto direto no tempo de resposta ao acidente.
A estrutura regulatória e as falhas de controle
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) era — e continua sendo — a autoridade reguladora para licenciamento de fontes radioativas no Brasil. A CNEN reportava diretamente ao Presidente da República e operava três institutos de pesquisa: IPEN, IRD e IEN.
O sistema de licenciamento da CNEN exigia que tanto instalações quanto indivíduos fossem habilitados. Físicos em saúde e supervisores de radioproteção precisavam passar por treinamento prescrito e exames de competência. Para obter licença de operação, uma organização precisava ter pessoal com certificados adequados, submeter plantas da instalação antes da construção e apresentar toda documentação de segurança radiológica — procedimentos, regras locais, instrumentação, monitoramento pessoal e planos de contingência.
Um ponto crítico aparece aqui. Depois que a licença era concedida, a inspeção periódica das instalações médicas ficava sob responsabilidade do Ministério Federal da Saúde, que por sua vez delegava essa função às Secretarias Estaduais de Saúde. O relatório da IAEA nota que “o grau em que essa responsabilidade era cumprida variava entre os Estados”. Na prática, a fiscalização falhou.
As condições da licença eram claras: qualquer mudança significativa no status do equipamento ou das instalações deveria ser reportada à CNEN. Mover ou descartar fontes exigia notificação formal. Essas exigências existiam no papel. Mas quando o Instituto Goiano de Radioterapia abandonou suas instalações levando apenas o equipamento de cobalto-60 e deixando o de césio-137 para trás, a CNEN não foi notificada.
O Instituto Goiano de Radioterapia e o abandono da fonte

O Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) era uma clínica privada de radioterapia, propriedade de uma sociedade médica. Suas instalações incluíam salas de teleterapia com equipamentos de césio-137 e cobalto-60. O IGR seguiu o procedimento normal de licenciamento: em 17 de junho de 1971, a CNEN aprovou a importação da fonte de césio-137. Logo depois, o equipamento foi instalado, inspecionado e tornou-se operacional.
Sob os termos da licença de operação, um físico e um médico (um dos sócios) eram conjuntamente responsáveis por garantir o cumprimento das condições. Mas por volta do final de 1985, o IGR deixou de operar naquelas instalações. Uma nova sociedade assumiu outras instalações. O equipamento de cobalto-60 foi levado para o novo endereço. A propriedade dos bens da antiga clínica ficou em disputa — e o equipamento de césio-137 ficou onde estava, sem que ninguém assumisse responsabilidade por ele.
O que se seguiu foi um abandono progressivo. A maior parte da clínica e propriedades vizinhas foram demolidas. Mas as salas de tratamento — onde o equipamento de teleterapia permanecia — não foram demolidas. Ficaram em estado de ruína e aparentemente passaram a ser frequentadas por moradores de rua. Três fotografias do relatório da IAEA documentam esse cenário de abandono.
O relatório da IAEA é categórico: “nada pode desviar a responsabilidade profissional e moral pela segurança de uma fonte radioativa da pessoa ou pessoas licenciadas como responsáveis por ela.” As circunstâncias exatas que levaram ao abandono da máquina não foram completamente esclarecidas e, na época da publicação do relatório, eram objeto de processos judiciais.
O equipamento Cesapan F-3000 e a cápsula de césio-137

O equipamento em questão era um modelo Cesapan F-3000, projetado pela Barazetti and Company de Milão nos anos 1950 e comercializado pela Generay SpA, também da Itália. Para entender o que aconteceu depois, é preciso conhecer os componentes principais do equipamento de teleterapia.
A cápsula selada da fonte radioativa ficava encaixada em uma roda da fonte (source wheel), feita de chumbo e aço inoxidável, que formava o mecanismo do obturador rotativo (rotating shutter). Para produzir um feixe de radiação, o obturador era girado eletricamente para alinhar a cápsula com a abertura de radiação. Após uma exposição ou em caso de falha elétrica, um dispositivo de mola retornava o obturador — e com ele a fonte — para a posição desligada ou segura.
Entre o obturador rotativo e seu mecanismo de acionamento elétrico havia um plugue cilíndrico de blindagem. Esses elementos — cápsula, roda da fonte, obturador e plugue — formavam o chamado “conjunto rotativo” (rotating assembly). O equipamento foi projetado para que esse conjunto pudesse ser removido da blindagem do cabeçote de radiação com ferramentas especiais.
A palavra-chave aqui é “ferramentas especiais”. A remoção do conjunto rotativo não deveria ser possível sem instrumentação apropriada. Na prática, porém, duas pessoas sem qualquer formação técnica conseguiram retirar o conjunto usando ferramentas improvisadas. O design dos anos 1950 não previa esse cenário.
A sequência dos eventos: da remoção à contaminação
As duas pessoas que entraram na clínica abandonada levaram o conjunto da fonte para casa e tentaram desmontá-lo. Nessa tentativa, a cápsula selada foi rompida. O material radioativo — cloreto de césio — é um sal que parece pó comum, mas com uma propriedade extraordinária: brilha em azul no escuro. Esse fenômeno é chamado de luminescência por radiação.
Os restos do conjunto foram vendidos como sucata para um ferro-velho. O dono do ferro-velho percebeu que o material brilhava no escuro. Várias pessoas ficaram fascinadas pelo brilho azul. Ao longo de vários dias, amigos e parentes vieram ver o fenômeno. Fragmentos do tamanho de grãos de arroz foram distribuídos a diversas famílias.
Esse processo continuou por cinco dias. As pessoas manusearam o pó de cloreto de césio diretamente: passaram na pele, comeram com as mãos contaminadas, levaram para casa. A contaminação se espalhou para residências, móveis, utensílios e prédios públicos. Nesse período, muitas delas começaram a apresentar sintomas gastrointestinais decorrentes da exposição à radiação — mas ninguém fez a conexão.
Os sintomas não foram inicialmente reconhecidos como causados por irradiação. Porém, uma das pessoas expostas fez a associação entre as doenças e a cápsula, e levou os restos do material ao departamento de saúde pública da cidade. Essa ação iniciou uma cadeia de eventos que levou à descoberta do acidente.
Um físico local foi o primeiro a avaliar, por monitoramento, a escala do acidente. Agindo por conta própria, ele providenciou a evacuação de duas áreas. Ao mesmo tempo, as autoridades foram informadas, e a velocidade e escala da resposta subsequente foram impressionantes — como detalha nosso guia completo sobre o acidente de Goiânia.
A escala das consequências imediatas
Os números finais são estarrecedores. No total, 112.000 pessoas foram monitoradas. Dessas, 249 estavam contaminadas — interna ou externamente. Vinte pessoas foram identificadas como necessitando tratamento hospitalar. Quatorze delas foram admitidas no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. As demais seis foram tratadas no Hospital Geral de Goiânia.
Quatro vítimas morreram em quatro semanas. Os exames post-mortem revelaram complicações hemorrágicas e sépticas associadas à síndrome aguda da radiação. As melhores estimativas de dose corporal total para essas quatro pessoas, obtidas por análise citogenética, variaram de 4,5 Gy a mais de 6 Gy. Dois pacientes com doses estimadas similares sobreviveram.
A contaminação ambiental foi severa. Sete focos principais de contaminação foram identificados, incluindo os ferros-velhos envolvidos, alguns com taxas de dose de até 2 Sv/h a um metro. Um levantamento aéreo por helicóptero confirmou que nenhuma área maior de contaminação havia sido ignorada. Ao todo, 85 casas apresentaram contaminação significativa e 200 pessoas foram evacuadas de 41 residências.
A descontaminação gerou um volume total de 3.500 m³ de rejeitos radioativos — mais de 275 cargas de caminhão. Esse volume exigiu 3.800 tambores metálicos de 200 litros, 1.400 caixas metálicas de 5 toneladas, 10 containers de 32 m³ e 6 conjuntos de embalagens de concreto. A melhor estimativa da radioatividade contida na contaminação foi de cerca de 44 TBq (1200 Ci), comparada com os 50,9 TBq (1375 Ci) originais da fonte antes do acidente.
As lições que emergiram da tragédia
O relatório da IAEA enfatiza que “nada pode diminuir a responsabilidade da pessoa designada como responsável pela segurança de uma fonte radioativa.” Fontes que saem da localização definida no processo de notificação, registro e licenciamento podem representar um perigo grave. A pessoa responsável deve garantir procedimentos de verificação e medidas de segurança apropriadas.
Outro ponto crucial: o público em geral precisa reconhecer o perigo potencial de fontes de radiação. O acidente de Goiânia evidenciou a necessidade de sistemas de marcação de perigo radiológico que sejam reconhecíveis pelo público leigo — não apenas por profissionais da área.
As propriedades físicas e químicas das fontes radioativas também precisam ser consideradas no licenciamento de fabricação. O cloreto de césio, por ser altamente solúvel e dispersável, agravou enormemente as consequências do acidente. Fontes com propriedades menos perigosas poderiam ter limitado a dispersão mesmo após a ruptura.
O acidente de Goiânia não se encaixa nos cenários previstos pelos planos de emergência da época — que cobriam acidentes em usinas nucleares ou eventos menores com fontes industriais. A lição é clara: planos de emergência radiológica devem cobrir toda a gama de acidentes possíveis, não apenas os mais prováveis ou os mais facilmente modelados.




