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O Acidente Radiológico de Goiânia com Césio-137
Em setembro de 1987, dois catadores de sucata desmontaram um equipamento de teleterapia abandonado numa clínica desativada no centro de Goiânia, Goiás, e romperam a cápsula que continha 50,9 TBq (1.375 Ci) de cloreto de césio-137. O pó luminescente azul fascinou familiares e vizinhos — e espalhou contaminação radioativa por múltiplos bairros da capital goiana ao longo de duas semanas. Quatro pessoas morreram. Dezenas foram irradiadas. Partes inteiras da cidade precisaram ser evacuadas e demolidas. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) classificou o evento como um dos acidentes radiológicos mais graves já registrados no mundo.

O relatório “The Radiological Accident in Goiânia”, publicado pela AIEA em setembro de 1988 (STI/PUB/815), foi produzido em parceria com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) do Brasil após uma reunião internacional de revisão. Especialistas designados pelo governo brasileiro e por outros países-membros examinaram as causas, as consequências e a gestão do acidente. O documento resultante cobre desde a descrição técnica do equipamento e da fonte até as autópsias dos falecidos, passando pela dosimetria, pela descontaminação ambiental e pelas recomendações para prevenir eventos semelhantes.
Goiânia não foi apenas uma tragédia. Foi o primeiro teste real da Convenção sobre Assistência em Caso de Acidente Nuclear ou Emergência Radiológica da AIEA, que havia entrado em vigor pouco antes. A experiência redefiniu protocolos de segurança para fontes radioativas em todo o planeta e forçou uma reavaliação global do problema das chamadas “fontes órfãs” — equipamentos com material radioativo que saem do controle regulatório sem descomissionamento adequado.
Para quem trabalha com equipamentos de teleterapia e radioterapia sob regulamentação da CNEN, o acidente de Goiânia permanece como o exemplo mais contundente de por que o controle regulatório não pode falhar. Nenhuma medida de resposta, por mais competente que seja, substitui a prevenção.
Este guia sintetiza as principais seções do relatório da AIEA. Cada tópico conta com um artigo dedicado para quem deseja mergulhar nos detalhes — os links estão distribuídos ao longo do texto.
Como Aconteceu o Acidente Radiológico de Goiânia
O acidente radiológico de Goiânia nasceu da convergência entre abandono institucional e curiosidade humana. O Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) havia encerrado suas atividades em 1985 e se transferido para outro endereço, mas um equipamento de teleterapia — uma unidade Cesapan F-3000 fabricada pela Zentralinstitut für Kernforschung, na Alemanha — ficou para trás no prédio parcialmente demolido da antiga clínica. A fonte radioativa selada não estava sob qualquer vigilância de radioprotecão.
O cabeçote do equipamento continha o conjunto giratório com a fonte selada: uma cápsula de aço inoxidável preenchida com cloreto de césio prensado (CsCl) na forma de sal compactado. A atividade na data de calibração original era de 50,9 TBq (1.375 Ci) — uma fonte extremamente intensa, projetada para tratamento de câncer por irradiação externa. Quando dois catadores removeram o conjunto giratório e levaram para casa, tentaram desmontar a cápsula em busca do metal para venda. Ao romper o invólucro, expuseram o sal de CsCl ao ambiente aberto.
O material tinha uma propriedade que mudaria o rumo dos eventos: brilhava numa cor azul intensa no escuro, um fenômeno de luminescência que encantou todos que o viram. Fragmentos do pó foram distribuídos entre familiares e conhecidos como curiosidade. Pedaços chegaram a ser vendidos a ferros-velhos no bairro. Crianças brincaram com a substância. A contaminação cresceu de forma exponencial ao longo de duas semanas inteiras antes que alguém conectasse os sintomas clínicos — náusea, vômito, queimaduras de pele — à substância luminescente.
O relatório da AIEA detalha o contexto institucional, as falhas regulatórias que permitiram o abandono da fonte, a estrutura física do equipamento de teleterapia e a cronologia dia a dia desde a remoção até o alerta às autoridades. Confira nosso artigo com a sequência completa dos eventos e as falhas que tornaram o acidente possível.
Descoberta do Acidente e Mobilização da Resposta
A conexão entre os sintomas e a contaminação radioativa só foi estabelecida em 29 de setembro de 1987, quase três semanas após a abertura da cápsula. A esposa de Devair Ferreira, proprietário do ferro-velho que comprou parte do material, levou um fragmento da substância à Vigilância Sanitária de Goiânia. Um físico da Fundação Nacional de Saúde realizou uma medição e detectou níveis de radiação alarmantes. A CNEN foi acionada imediatamente.
A mobilização que se seguiu demonstrou eficiência notável diante da gravidade da situação. A CNEN despachou uma equipe de campo em questão de horas. O primeiro grupo incluía especialistas em radioproteção e dosimetria, além de um médico que havia sido treinado especificamente para lidar com acidentes radiológicos — uma capacitação que resultava de um programa de cooperação técnica entre AIEA e Brasil, iniciado com missões de especialistas antes mesmo do acidente.
A equipe avançada realizou as primeiras triagens radiológicas, identificou os focos principais de contaminação e iniciou a segregação das pessoas mais expostas. A missão era gigantesca: múltiplas residências, ferros-velhos e locais públicos estavam contaminados, e o número de pessoas potencialmente afetadas crescia a cada hora conforme novos locais eram identificados nos levantamentos radiológicos.
Instrumentos de medição foram reunidos de todas as fontes disponíveis: institutos da CNEN como IRD, IEN e IPEN, além de FURNAS, NUCLEBRAS, universidades e doações internacionais. No total, a operação contou com 55 medidores de taxa de dose, 23 monitores de contaminação e 450 dosímetros tipo QFE (canetas dosimétricas de fibra de quartzo). A diversidade dos instrumentos trouxe desafios: alguns chegaram sem certificados de calibração ou manuais de instrução, o que obrigou a montagem de um laboratório de eletrônica e calibração improvisado em Goiânia para manter o parque instrumental funcionando durante toda a operação.
A organização da resposta seguiu uma estrutura com a CNEN no papel central, coordenando ações em nível municipal, estadual, federal e internacional. A transição da fase aguda para um controle de longo prazo exigiu planejamento logístico complexo, com equipes especializadas assumindo diferentes frentes simultaneamente. Nosso artigo sobre a descoberta e a resposta inicial detalha cada etapa dessas primeiras horas e a montagem do aparato de resposta.
Resposta Médica às Vítimas do Acidente
O componente médico da resposta enfrentou desafios sem precedentes no país. Os pacientes apresentavam um espectro que ia desde contaminação cutânea leve até síndromes agudas da radiação potencialmente letais. A equipe médica precisou lidar simultaneamente com lesões de pele causadas pela radiação, imunossupressão grave, infecções oportunistas decorrentes da aplasia medular e contaminação interna por césio-137 — um cenário para o qual nenhum hospital brasileiro tinha experiência prévia.
A triagem inicial classificou os pacientes por nível de exposição e urgência. Os casos mais graves foram transferidos para hospitais especializados. O tratamento dos pacientes com incorporação significativa de césio incluiu a administração de Azul da Prússia (ferrocianeto férrico), um quelante que se liga ao césio no trato gastrointestinal e acelera sua eliminação pelas fezes, reduzindo significativamente a meia-vida biológica do radionuclídeo no organismo. Cuidados intensivos para infecções — agravadas pela destruição da medula óssea nos casos mais severos — e manejo cirúrgico de lesões cutâneas por radiação completaram o arsenal terapêutico.
Quatro pessoas não sobreviveram. Duas eram crianças: uma menina de seis anos que havia passado o pó luminescente pelo corpo, e outro jovem com exposição prolongada. Dois adultos que tiveram contato direto e intenso com a fonte aberta também faleceram. Os exames post-mortem revelaram a distribuição do césio-137 nos diferentes tecidos e órgãos, gerando dados patológicos que contribuíram para a literatura médica internacional sobre a cinética de incorporação desse radionuclídeo em humanos.
A experiência de Goiânia demonstrou que, mesmo com infraestrutura limitada para emergências radiológicas, profissionais bem preparados e com treinamento prévio podem tomar decisões que salvam vidas. Confira o artigo dedicado à resposta médica, incluindo os protocolos utilizados, a evolução clínica e os desfechos de cada paciente mais gravemente afetado.
Dosimetria e Avaliação da Exposição ao Césio-137
Quantificar a dose de radiação recebida por cada pessoa exposta representou um dos maiores desafios técnicos do acidente. Os padrões de exposição variavam enormemente: desde contato dérmico direto com a fonte aberta, passando por inalação e ingestão de poeira contaminada, até exposição externa ambiental prolongada em residências onde fragmentos foram depositados. Nenhum método isolado conseguiria capturar essa complexidade.
A equipe de dosimetria empregou três abordagens complementares. A dosimetria interna utilizou contadores de corpo inteiro para medir a atividade retida de césio-137 em cada paciente, combinados com bioensaios de excreção urinária e fecal para estimar a incorporação total ao longo do tempo. Modelos compartimentais da cinética do césio no organismo permitiram projetar a dose comprometida — ou seja, a dose que o indivíduo continuaria recebendo durante anos conforme o material era lentamente eliminado.
A dosimetria externa reconstruiu as doses a partir de medições ambientais nos locais de residência e trabalho das pessoas afetadas, cruzadas com informações detalhadas sobre tempo de permanência e proximidade dos focos de contaminação. Essa reconstrução exigiu entrevistas individuais para determinar os padrões de ocupação de cada pessoa durante as semanas de exposição.
A análise citogenética, realizada em laboratórios brasileiros e internacionais, contou aberrações cromossômicas (dicêntricos e anéis) em linfócitos do sangue periférico. Essa técnica fornece uma estimativa biológica de dose que é independente dos métodos físicos e serve como validação cruzada. A convergência entre os três métodos deu credibilidade às estimativas finais e orientou decisões terapêuticas críticas, como o escalonamento do tratamento com Azul da Prússia e a priorização de cuidados intensivos. O artigo dedicado à dosimetria apresenta cada método em profundidade, com os resultados obtidos por paciente.
Contaminação Ambiental e Descontaminação de Goiânia
A descontaminação de Goiânia foi, sem dúvida, a operação mais consumidora de recursos entre todas as fases da resposta. Cerca de 550 trabalhadores participaram das operações de campo, enfrentando condições que exigiam planejamento rigoroso para manter as doses ocupacionais dentro do limite diário estabelecido de 1,5 mSv por trabalhador.
A escala do problema
Contaminação significativa foi detectada em 85 residências. Dessas, 41 precisaram ser evacuadas por apresentar níveis acima dos critérios de ação adotados pela CNEN. Sete casas estavam tão contaminadas que a descontaminação foi considerada inviável — essas residências foram demolidas inteiramente, incluindo a casa onde a cápsula foi rompida. Além das residências, 45 locais públicos — calçadas, praças, lojas e bares — e aproximadamente 50 veículos apresentaram contaminação detectável.
| Categoria | Quantidade | Observação |
|---|---|---|
| Residências contaminadas | 85 | Contaminação significativa detectada |
| Residências evacuadas | 41 | Acima dos critérios de ação |
| Casas demolidas | 7 | Descontaminação inviável |
| Locais públicos descontaminados | 45 | Calçadas, praças, comércios |
| Veículos contaminados | ~50 | Diversos tipos |
| Trabalhadores na operação | 550 | Descontaminação ambiental |
Fonte: The Radiological Accident in Goiânia (IAEA, 1988)
Técnicas de descontaminação
O protocolo começava pela identificação de um ponto limpo fora da residência, que era coberto com plástico. Todos os itens móveis eram removidos e monitorados individualmente com detectores de contaminação de superfície. A decisão entre descontaminar ou descartar dependia da facilidade de limpeza — exceto para joias e objetos de valor sentimental, que recebiam tratamento preferencial. O relatório destaca o impacto psicológico de ver brinquedos, fotografias e pertences pessoais empilhados em quintais para triagem. Ver itens de óbvio valor sentimental tratados como potencial lixo radioativo afetou profundamente moradores e técnicos.
Internamente, aspiradores com filtros de alta eficiência (HEPA) limpavam todas as superfícies. Pisos cerâmicos vermelhos — típicos de Goiânia — eram tratados com ácido misturado a Azul da Prússia. Telhados contaminados por deposição atmosférica recebiam lavagem com jatos de água pressurizada, mas esse método reduzia as taxas de dose em apenas 20%. Em dois casos, os telhados inteiros tiveram que ser removidos.

O foco de maior contaminação era a residência onde a cápsula havia sido rompida. As taxas de dose chegavam a 1,5 Sv/h na superfície do solo — uma exposição letal em pouco mais de duas horas. Trabalhar nesse local exigia turnos extremamente curtos, planejamento milimétrico e coragem considerável. Mais de 90% do solo mais contaminado estava na camada superficial. Parte da operação mais pesada coincidiu com tempestades intensas, dificultando a remoção de lama contaminada para contêineres dentro do limite de dose diário.
Para jardins, a estratégia consistiu em podar árvores e descartar frutos. Solo contaminado era perfilado em profundidade, removido por camadas conforme os critérios estabelecidos, e depois coberto com concreto ou 30 mm de solo limpo. Após o Natal, quando os focos principais já haviam sido tratados, todas as residências e terrenos baldios num raio de 100 metros foram levantados sistematicamente.
Monitoramento ambiental
| Meio | Amostragem | Resultado |
|---|---|---|
| Água subterrânea | 30 poços inspecionados | Máximo 30 Bq/L em poço desativado; demais abaixo de 1,5 Bq/L |
| Água de chuva | 11 estações (bairro Aeroporto) | Nenhuma detecção acima de 150 Bq/L |
| Ar | 5 amostradores de alto volume (58 m³/h) | Picos em novembro; demais períodos uma ordem de grandeza abaixo |
| Água tratada (ETA) | Reservatórios a montante | Abaixo do mínimo detectável (1 Bq/L) |
Fonte: The Radiological Accident in Goiânia (IAEA, 1988)
O fato de que a água tratada e os reservatórios permaneceram consistentemente abaixo dos limites de detecção foi crucial para manter a confiança pública durante a crise. O abastecimento de Goiânia provinha de reservatórios a montante da área contaminada, o que explicava o resultado, mas a confirmação por medições regulares teve papel decisivo em tranquilizar a população num momento de grande medo e desinformação.
Os equipamentos de monitoramento somaram 55 medidores de taxa de dose, 23 monitores de contaminação e 450 dosímetros QFE, reunidos de institutos da CNEN, FURNAS, NUCLEBRAS, universidades e cooperação internacional. Alguns chegaram sem manuais ou certificados de calibração, obrigando a montagem de um laboratório improvisado de eletrônica e calibração em Goiânia.
Gestão dos Rejeitos Radioativos
A resposta ao acidente gerou rejeitos radioativos desde o primeiro dia de operação. Uma equipe de física sanitária foi designada em 1º de outubro de 1987 para gerenciar esse material de forma sistemática. O primeiro passo foi implementar formulários padronizados de controle que registravam a origem, a forma física, a combustibilidade, a compactabilidade e as taxas de dose de cada embalagem. Esse sistema se tornaria, mais tarde, a base para estimar a fração da fonte original que havia sido recuperada.
Classificação
Os resíduos sólidos foram classificados em três níveis, conforme a legislação brasileira vigente (Resolução CNEN-19/85). Líquidos foram solidificados em cimento antes da classificação.
| Classificação | Critério de dose/atividade | Referência |
|---|---|---|
| Não radioativo | Atividade < 74 kBq/kg (2 nCi/g) | Resolução CNEN-19/85 |
| Baixo nível | Taxa de dose < 2 mSv/h na superfície da embalagem | Resolução CNEN-19/85 |
| Nível intermediário | Taxa 2–20 mSv/h na superfície da embalagem | Resolução CNEN-19/85 |
Fonte: The Radiological Accident in Goiânia (IAEA, 1988), baseado na Resolução CNEN-19/85
Embalagem

Rejeitos de baixo nível foram acondicionados em tambores industriais de aço carbono calibre 18, nos volumes de 40 L, 100 L e 200 L, e em caixas metálicas com nervuras de 1,2 m³ (capacidade máxima de 5 toneladas, superfícies tratadas com cromato de zinco e tinta acrílica, tampas vedadas com borracha e parafusos). Cimento seco era colocado no fundo das embalagens para absorver umidade. Tambores menores eram inseridos dentro de tambores de 200 L ou de caixas metálicas para dupla encapsulação.
Rejeitos de nível intermediário receberam tambores de 200 L, que eram depois inseridos em VBAs — embalagens cilíndricas concêntricas com paredes de concreto armado de 200 mm de espessura. Os VBAs haviam sido originalmente produzidos para uso na usina nuclear de Angra.
Um grande volume de rejeitos de baixo nível consistia em fardos de papel contaminado provenientes de um dos ferros-velhos. Esses fardos foram embrulhados em plástico e colocados em contêineres roll-on-roll-off de 32 m³, aguardando eventual reciclagem futura.
| Tipo de embalagem | Quantidade | Uso |
|---|---|---|
| Tambores (200 L) | 3.800 | Rejeitos de baixo e intermediário nível |
| Caixas metálicas (1,2 m³) | 1.400 | Rejeitos de baixo nível |
| Contêineres roll-on-roll-off (32 m³) | 10 | Papel contaminado em grandes volumes |
| VBAs (concreto 200 mm) | 6 | Rejeitos de nível intermediário |
Fonte: The Radiological Accident in Goiânia (IAEA, 1988)
Armazenamento temporário
O local de armazenamento ficava em área pouco povoada, a 20 km de Goiânia e 2,5 km da cidade de Abadia de Goiás. A escolha do local foi atrasada por considerações políticas — houve oposição pública significativa a deixar os rejeitos em Goiânia ou mesmo no estado de Goiás. A decisão final foi que o site seria temporário, por até dois anos, com a seleção de um repositório permanente adiada.
Seis plataformas abertas de concreto receberam os 3.500 m³ de rejeitos gerados. Cada placa de concreto media 0,15 m de espessura por 2,75 m × 2,75 m, acomodando 8 caixas ou 32 tambores em empilhamento duplo. As embalagens mais radioativas foram posicionadas nos centros das plataformas, minimizando taxas de dose nos corredores de acesso e na cerca de segurança. Um sistema de amostragem monitorava continuamente a água (principalmente de chuva) que escorria das plataformas.
Transporte e inventário
Entre 25 de outubro e 19 de dezembro de 1987, 275 cargas de caminhão foram transportadas ao depósito temporário em comboio com escolta policial, a velocidades máximas de 20 km/h na zona urbana e 45 km/h fora dela. Físicos sanitários acompanhavam cada comboio equipados para emergências. Um caminhão chegou a sair da estrada e capotar, mas sem causar liberação radioativa — demonstrando que as embalagens resistiram ao impacto.
A melhor estimativa da radioatividade total recuperada nos rejeitos, somada ao material contabilizado no Hospital Naval Marcílio Dias, atingiu aproximadamente 44 TBq (1.200 Ci). As margens de erro englobavam a atividade original de 50,9 TBq (1.375 Ci), e o extenso monitoramento ambiental confirmou que não havia risco residual significativo no ambiente urbano.
Cooperação Internacional e o Papel da AIEA
O acidente de Goiânia foi o primeiro teste operacional da Convenção sobre Assistência em Caso de Acidente Nuclear ou Emergência Radiológica da AIEA. O Brasil informou a Agência logo após a descoberta e solicitou assistência formal nos termos do novo instrumento internacional. Especialistas e equipamentos de diversos países foram mobilizados e enviados a Goiânia.
Um fator que fez diferença substancial na qualidade da resposta foi o programa de cooperação técnica AIEA-Brasil que já existia antes do acidente. Esse programa havia financiado missões de especialistas ao Brasil, a construção de laboratórios e o treinamento de pessoal por meio de bolsas e intercâmbios — incluindo a capacitação de um médico brasileiro em resposta a acidentes radiológicos, uma habilidade que se provou extremamente valiosa quando a crise começou. Sem essa preparação prévia, a curva de aprendizado durante as primeiras horas do acidente teria sido muito mais íngreme.
A assistência internacional proveu especialistas em diversas áreas — medicina, radioproteção, gestão de rejeitos — e equipamentos complementares aos recursos nacionais. A experiência serviu como caso de estudo para aprimorar futuras operações de assistência coordenadas pela AIEA e ajudou a testar os mecanismos previstos na Convenção.
Após a contenção do acidente, diversas atividades colaborativas entre especialistas brasileiros e de outros países foram conduzidas para avaliar sistematicamente a experiência. O banco de dados científico gerado — abrangendo dosimetria humana, migração ambiental de césio em ambiente urbano, cinética de incorporação e eliminação do radionuclídeo, resposta médica a síndromes agudas e logística de descontaminação em larga escala — alimentou projetos de pesquisa em parceria com universidades e organizações científicas internacionais. A AIEA recomendou que organizações internacionais fomentassem ativamente a troca de informações sobre as lições do acidente. Nosso artigo sobre lições e preparação para emergências detalha as recomendações do relatório e seu impacto regulatório.
Lições de Radioprotecão e Preparação para Emergências
O relatório da AIEA encerra com observações e recomendações que continuam relevantes quase quatro décadas depois. O acidente de Goiânia expôs vulnerabilidades sistêmicas que transcendem um caso isolado de negligência e tocam em questões estruturais do controle de fontes radioativas em todo o mundo.
A falha mais fundamental estava no controle regulatório de fontes seladas que saíram de uso. A fonte de teleterapia não estava sob vigilância da CNEN quando a clínica fechou. Não existia, àquela altura, um mecanismo eficaz para rastrear fontes órfãs — equipamentos médicos ou industriais contendo material radioativo que deixam de ser usados sem passar por descomissionamento adequado. Esse problema não era exclusivo do Brasil. Fontes órfãs representavam — e até hoje representam — um risco global significativo, com centenas de incidentes menores registrados em diversos países desde então.
Outra lição central diz respeito à comunicação com o público. Durante a crise em Goiânia, rumores, medo e desinformação ameaçaram dificultar as operações de campo. A estratégia adotada pela CNEN de monitoramento transparente e divulgação aberta dos resultados — como a publicação das medições de água tratada mostrando níveis consistentemente abaixo do detectável — ajudou a preservar a confiança da população numa situação de enorme tensão social. Goiânia demonstrou que a comunicação de risco não é um complemento às operações técnicas; é parte essencial da resposta.
A resposta em Goiânia provou que profissionais bem treinados e cooperação interinstitucional rápida podem conter um desastre radiológico grave. Mas também provou, de forma dolorosa, que prevenção é insubstituível. Fontes de alta atividade que saem de operação precisam ser descomissionadas com segurança, armazenadas em condições controladas ou devolvidas ao fabricante. O acidente motivou revisões profundas nas regulamentações da CNEN e influenciou diretamente a elaboração de padrões internacionais mais rigorosos para controle de fontes radioativas ao longo de todo o ciclo de vida.
Para profissionais que trabalham com especificações técnicas de equipamentos de radioterapia, as lições de Goiânia oferecem um lembrete prático e urgente: a rastreabilidade completa das fontes, do fabricante ao descarte final, não é burocracia — é a barreira que separa a operação segura de uma potencial catástrofe. No artigo dedicado às lições do acidente, detalhamos cada recomendação da AIEA e as mudanças regulatórias que se seguiram no Brasil e no mundo.




