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A perfusão além da margem no ultrassom com contraste (PBM, do inglês perfusion beyond margin) é um novo sinal de imagem que identifica carcinomas hepatocelulares (CHC) mais agressivos: quando o tumor medido na fase arterial do CEUS é pelo menos 5 mm maior do que no modo B, o risco de recidiva após hepatectomia laparoscópica sobe 76% e o risco de progressão local após ablação térmica mais do que dobra. O resultado vem de um estudo com 1.076 pacientes do Hospital Geral do Exército de Libertação Popular (PLA), em Pequim, publicado em 6 de outubro de 2026 na revista Radiology.

Medição do diâmetro de carcinoma hepatocelular em ultrassom em escala de cinza (19 mm) e com contraste (23 mm), mostrando perfusão além da margem
Protocolo de medida em três passos: o nódulo mede 19 mm no modo B e 23 mm na fase arterial do CEUS, em homem de 62 anos com cirrose. Imagem: RSNA/Radiology (Ding, Ji et al., 2026), via AuntMinnie.

O que o estudo chinês mediu

O trabalho, liderado por Wenzhen Ding e Ran Ji, do Departamento de Ultrassom Intervencionista do Hospital Geral do PLA, partiu de uma observação conhecida por quem faz ultrassom hepático: o contorno que o nódulo mostra na escala de cinza nem sempre coincide com a área que realça após a injeção de microbolhas. Estudos anteriores já tinham descrito essa discrepância entre vascularização e morfologia, mas, segundo os autores, ninguém havia definido o fenômeno de forma operacional nem medido seu impacto clínico.

A vantagem do CEUS é mostrar as duas informações no mesmo quadro, lado a lado, sem registro de imagens. O grupo definiu PBM como um diâmetro na fase arterial do CEUS que excede em 5 mm o diâmetro do modo B. A medida segue três passos: obter o plano do tumor, medir o maior diâmetro na escala de cinza e, em seguida, ajustar os marcadores sobre a imagem contrastada. No exemplo publicado, o nódulo de um homem de 62 anos com cirrose passou de 19 mm para 23 mm.

De acordo com a Diagnostic Imaging, o desenho foi retrospectivo e multicêntrico, com idade média de 60 anos. Os desfechos primários foram a sobrevida livre de recidiva (RFS) após hepatectomia laparoscópica e a sobrevida livre de progressão tumoral local (LTPFS) após ablação térmica.

Os números: recidiva, invasão microvascular e citoqueratinas

Comparados ao grupo sem o sinal, os pacientes com PBM tiveram pior RFS após a cirurgia (razão de risco, HR, de 1,76; p=0,03) e pior LTPFS após a ablação (HR de 2,40; p<0,001). A diferença também apareceu na peça cirúrgica: a invasão microvascular (MVI) foi encontrada em 52,2% dos tumores com PBM contra 25,0% dos demais (p=0,02). A positividade para citoqueratina 7 (CK7) foi de 26,2% contra 11,3% (p=0,04), e para citoqueratina 19 (CK19), de 26,9% contra 8,8% (p=0,02).

O sinal foi mais frequente em três grupos: tumores maiores que 3 cm (30,8%), CHC recidivado (28,4%) e fígado cirrótico (26,8%). Os autores propõem duas explicações para o pior prognóstico. A primeira é biológica: MVI, CK7 e CK19 já são marcadores conhecidos de comportamento agressivo. A segunda é técnica: se o operador planeja o tratamento pela borda vista no modo B, subestima a extensão real do tumor. Isso ajudaria a entender por que o efeito do PBM foi maior na ablação, que depende diretamente da margem definida pela imagem, do que na ressecção.

Contexto técnico: por que a margem importa na ablação

Como pano de fundo (não detalhado nas reportagens), a ablação por radiofrequência ou micro-ondas é tratamento curativo para CHC pequeno, e a regra prática é buscar uma margem ablativa de pelo menos 5 mm de parênquima ao redor do tumor. A progressão local costuma surgir justamente na periferia da zona tratada, onde focos de tumor viável escapam da ablação. Um nódulo que “parece” ter 19 mm, mas tem perfusão tumoral até 23 mm, consome quase toda a margem planejada antes mesmo da agulha entrar.

A MVI, por sua vez, é um dos fatores mais fortes de recidiva precoce após ressecção ou transplante, mas só é confirmada na histologia. Por isso há tanto interesse em preditores pré-operatórios por imagem, como a escala de RM que prevê recorrência do câncer hepático. O PBM tem uma vantagem prática: sai de um exame de ultrassom, à beira do leito ou na própria sala de ablação, e não exige segmentação, pós-processamento nem software dedicado. Plataformas de ultrassom com elastografia, contraste e IA já trazem o modo dual lado a lado necessário para a medida.

Editorial: reprodutibilidade é o ponto forte

No editorial que acompanha o artigo, Omid Shafaat e Stephen Reis, da Universidade Columbia, em Nova York, destacam que cinco leitores sem experiência prévia em CEUS atingiram 92% de acurácia na classificação do PBM depois de apenas duas horas de treinamento, e que o achado se manteve estável entre diferentes ângulos de aquisição e momentos do exame. Para os editorialistas, muitos biomarcadores de imagem não saem do laboratório porque dependem de segmentação trabalhosa, registro ou pós-processamento complexo; um critério simples, medido com caliper, tem chance real de chegar à rotina. Eles concluem que, se validado de forma prospectiva, o PBM pode aproximar caracterização tumoral e terapia guiada por imagem.

Implicações práticas e relevância para o Brasil

Os autores sugerem planejar a margem de ablação pela extensão definida no CEUS quando o PBM estiver presente, e defendem a orientação por CEUS sobretudo em pacientes com cirrose e CHC recidivado. A justificativa: a cirrose degrada a definição de borda no modo B, mas pouco afeta o CEUS, e muitos tumores recidivados não são candidatos a nova hepatectomia, o que torna a ablação a principal opção curativa.

No Brasil, onde hepatites virais, álcool e doença hepática gordurosa sustentam uma grande população cirrótica em vigilância por ultrassom, o achado é especialmente relevante para centros de hepatologia e radiologia intervencionista. O uso de contraste ultrassonográfico ainda é concentrado em serviços de referência, e incorporar uma medida a mais ao protocolo pré-ablação tem custo baixo onde o CEUS já existe. O sinal também pode pesar na escolha entre ablação, ressecção e terapias locorregionais, como a radioembolização com Y90 e a quimioembolização, área em que novos dispositivos como o TriNav Advance para embolização hepática buscam melhorar a entrega do tratamento.

Limitações e próximos passos

O próprio grupo reconhece que o limiar de 5 mm foi derivado e avaliado na mesma coorte, o que tende a superestimar o desempenho do marcador. Não houve comparação direta entre as medidas ultrassonográficas e o tamanho real na peça patológica, e os critérios podem precisar de ajuste em casos de PBM assimétrico ou de tumores encostados na cápsula hepática. O desenho é retrospectivo e vem de centros chineses de alto volume, com população em que a hepatite B predomina, o que limita a extrapolação direta para coortes ocidentais e latino-americanas. Validação prospectiva, de preferência multicêntrica e com ablação planejada pela margem do CEUS, é o passo que falta.

Fonte: AuntMinnie, Diagnostic Imaging, Ding, Ji et al., Radiology 2026 e editorial de Shafaat e Reis