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Princípios do Delineamento no Carcinoma de Nasofaringe

O carcinoma de nasofaringe exige uma abordagem de delineamento que combina exame físico detalhado com fusão de imagens multimodais. Diferente de outros tumores de cabeça e pescoço, a proximidade com a base do crânio e as vias neurais torna o planejamento particularmente desafiador — e qualquer atalho na avaliação por imagem cobra um preço alto na qualidade do tratamento.

Equipamento de radioterapia para tratamento de carcinoma de nasofaringe com máscara termoplástica e posicionamento de cabeça e pescoço
Foto: Jo McNamara / Pexels

A endoscopia detalhada é obrigatória. Ela deve avaliar a cavidade nasal anterior, a nasofaringe e a orofaringe, descrevendo extensão tumoral e infiltração. Na prática, muitos centros subestimam esse passo — mas é justamente a correlação entre achado endoscópico e imagem que evita erros grosseiros no GTV.

A ressonância magnética (RM) com contraste é indispensável, salvo contraindicação como marca-passo. Idealmente, a RM deve ser adquirida na posição de tratamento, com o dispositivo de imobilização. A sequência T1 sem contraste é a melhor para visualizar infiltração medular óssea. Para delineamento de base de crânio e disseminação perineural, a RM não tem substituto.

O PET/CT funciona como guia complementar. No sítio primário, pode superestimar ou subestimar a extensão real da doença, especialmente na base do crânio. Já para identificação de linfonodos pequenos e metástases, o PET/CT é extremamente valioso. Para uma visão completa do tema, confira nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo e campos.

Simulação e Imobilização do Paciente

A simulação é realizada em decúbito dorsal, com cabeça e pescoço em posição neutra e máscara termoplástica de 5 pontos cobrindo desde o crânio, com ou sem ombros. O CT de simulação deve ter cortes de 2–3 mm de espessura e ser adquirido com contraste IV, tipicamente do vértice até 2 cm abaixo das articulações esternoclaviculares.

Para centros que preferem a técnica de beam split com campos AP ou AP/PA de pescoço inferior (pacientes N0), cortes mais espessos podem ser usados no pescoço baixo. Essa flexibilidade na aquisição é prática e reduz tempo de simulação sem comprometer a qualidade do planejamento na região de interesse principal.

O status EBER deve ser obtido de biópsias teciduais para auxiliar na discussão prognóstica. Quando possível, o DNA do EBV pode ser quantificado em laboratório certificado (CLIA ou equivalente).

Volumes Alvo no Delineamento da Doença Macroscópica

Os volumes alvo incluem GTV (volume tumoral macroscópico) e CTV (volume alvo clínico). A seleção precisa do CTV primário e da região subclínica é fundamental na era do IMRT para carcinoma de nasofaringe, dada a facilidade de disseminação tumoral ao longo de vias neurais e foraminas.

Volume Definição Margem
GTV70 Toda doença macroscópica no exame físico e imagem. Avaliar cuidadosamente invasão de base de crânio e disseminação perineural
GTV70 nodal Linfonodos ≥1 cm em eixo curto, com centro necrótico ou ávidos ao FDG-PET. Na dúvida, contornar como GTV
CTV70 primário GTV70 primário + margem. Quando há certeza completa do GTV, pode ser equivalente ao GTV sem margem adicional 3–5 mm
CTV70 nodal GTV70 nodal + margem. Para linfonodos pequenos (~1 cm), doses de 63–66 Gy podem ser consideradas 3–5 mm
PTV70 primário CTV70 primário + margem conforme posicionamento diário. Aceitar comprometimento se PTV sobrepõe OARs críticos 3–5 mm
PTV70 nodal CTV70 nodal + margem 3 mm

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 1.1)

Um ponto que merece atenção: quando o tumor está próximo ao nervo óptico ipsilateral, é necessária uma discussão informada sobre riscos e benefícios. Os autores favorecem a cobertura do tumor mesmo sacrificando o aparato óptico ipsilateral, mas constrainando rigorosamente o nervo óptico contralateral e o quiasma. Margem de 0 mm é aceitável quando o tumor está em proximidade com OARs críticos como tronco encefálico e medula espinhal.

A dose sugerida para doença macroscópica é de 2–2,12 Gy/fração, totalizando 69,96–70 Gy em 33–35 frações.

Volumes Subclínicos de Alto Risco

O CTV subclínico de alto risco envolve uma expansão de 10 mm a partir do GTV70 primário (quando possível), incluindo toda a nasofaringe. A cobertura deve garantir inclusão de estruturas anatômicas específicas dependendo do estadiamento T.

Estrutura Cobertura Condição
Palato mole Inferiormente Sempre
Cavidade nasal posterior ≥5 mm da coana Sempre
Seios maxilares posteriores Cobertura das fossas pterigopalatinas (V2) Sempre
Seio etmoidal posterior Quando indicado Se invasão
Base do crânio (forame oval, rotundum, lacerum) Foraminas Sempre
Seio cavernoso até cavidade de Meckel Lado envolvido T3–T4
Fossa pterigóide/espaços parafaríngeos Completa Sempre
Seio esfenoidal Metade inferior (T1–T2); inteiro (T3–T4) Conforme T
Clivus 1/3 se sem invasão; inteiro se com invasão; na dúvida, todo o clivus Conforme invasão

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 1.2)

É fundamental revisar as janelas ósseas do CT durante o contorno para garantir cobertura adequada das foraminas da base do crânio. Na prática, essa revisão é frequentemente negligenciada — e pode fazer toda a diferença entre um plano adequado e uma falha de cobertura.

Para o componente nodal subclínico, o CTV deve incluir linfonodos retrofaríngeos bilaterais e níveis IB, II, III, IV e V. O nível IB pode ser omitido no pescoço N0 e, a critério do radio-oncologista, também no pescoço N+ quando não houver linfonodos IB suspeitos. Para pescoço N0, pode-se considerar omitir o pescoço baixo.

A dose subclínica de alto risco é de 1,6–1,7 Gy/dia para 35 frações ou 1,64–1,8 Gy/dia para 33 frações. Técnicas sequenciais sem SIB também podem ser empregadas, com 50–54 Gy na região subclínica e boost sequencial de 16–20 Gy até a dose total de 70 Gy.

Planejamento Adaptativo e Considerações Clínicas

O carcinoma de nasofaringe frequentemente se beneficia de replanejamento adaptativo durante o tratamento. Um exemplo prático: pacientes com estadio cT3N2 podem apresentar regressão tumoral significativa durante o curso, permitindo redução do GTV superior e afastamento de estruturas críticas como o quiasma óptico.

A simulação com RM durante o tratamento permite visualizar a regressão e ajustar os volumes. Em termos práticos, a Fase 1 do plano pode incluir volumes mais amplos, enquanto a Fase 2 incorpora a resposta tumoral com GTV reduzido e melhoria na cobertura dos órgãos de risco. O PTV de 56 Gy deve manter cobertura de doença microscópica mesmo com a redução do GTV superior.

Nas regiões posteriores próximas ao tronco encefálico, compromissos na dose do PTV devem ser aceitos para respeitar a tolerância dos OARs — ou a margem de PTV pode ser reduzida a 0 mm. O nível V cervical merece atenção para cobertura posterior adequada, incluindo o músculo trapézio. A cobertura da gordura posterior à clavícula também pode ser considerada.

Para referências de doses alternativas, consulte o protocolo NRG HN001 ou as diretrizes internacionais de consenso para delineamento de CTV em carcinoma de nasofaringe (Lee et al., Radiother Oncol, 2018). Para mais detalhes sobre outros sítios tumorais e técnicas de campo, acesse nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo.

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