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A irradiação nodal regional no câncer de mama pede delineamento de volume alvo e planejamento de campos com cobertura contínua da mama ou da parede torácica, dos níveis axilares I a III, da fossa supraclavicular, dos linfonodos interpeitorais e da cadeia mamária interna. Para uma visão mais ampla do tema, confira nosso Target Volume Delineation and Field Setup – Complete Clinical Guide.

Nas páginas 142 a 150, o capítulo organiza esse trabalho em quatro blocos muito diretos: princípios gerais, volumes para parede torácica direita sem reconstrução, volumes para parede torácica esquerda reconstruída com expansor tecidual e uma solução de planejamento convencional 3D conformado. O ganho do texto está justamente na objetividade. Ele entrega posição de simulação, limites do escaneamento, componentes do CTV/PTV, uso de bolus e metas dosimétricas que realmente guiam a otimização.

Princípios gerais da irradiação nodal regional no câncer de mama

O ponto de partida é bem definido: a paciente faz a simulação em posição de tratamento, com os dois braços elevados acima da cabeça e imobilização em breast board. A aquisição tomográfica vai do cricoide até 5 cm abaixo da borda inferior do portal clinicamente marcada, e o capítulo exige inclusão completa dos dois pulmões.

Se a mama estiver íntegra, os limites mamários e a cicatriz da lumpectomia podem ser marcados com fios na pele antes do escaneamento. O contraste intravenoso é opcional. Parece um detalhe simples, mas essa marcação antecipa decisões importantes quando o planejamento precisa diferenciar tecido mamário remanescente, parede torácica e área do leito tumoral.

No delineamento, o PTV inclui tecido mamário ou parede torácica, linfonodos axilares ipsilaterais níveis I a III, linfonodos supraclaviculares ipsilaterais, linfonodos interpeitorais e linfonodos mamários internos. O capítulo ainda incorpora as rotas linfáticas de conexão, a prótese mamária quando presente e a musculatura e a pele da parede torácica consideradas sob risco de doença microscópica.

Há um detalhe operacional que não deve escapar: nos planos VMAT/IMRT, usa-se bolus diário de 3 mm sobre a parede torácica. Em câncer de mama inflamatório, quando a dose do GTV cutâneo precisa atingir pelo menos 100% da dose prescrita, o livro admite bolus mais espesso, de 1 cm.

Margens sugeridas para a região de doença macroscópica

A Tabela 12.1 converte a descrição anatômica em contorno executável. Ela separa o que compõe o CTV e como o PTV deve ser expandido em cada direção, inclusive com a exceção posterior específica dos mamários internos.

Volume alvo Definição e descrição
Clinical target volume (CTV) Tecido mamário ou parede torácica conforme o RADCOMP Breast Atlas [1], linfonodos regionais ipsilaterais [2], rotas linfáticas de conexão, prótese mamária quando presente e musculatura/pele da parede torácica consideradas em risco de doença microscópica.
Planning target volume (PTV) Margem de 3-5 mm medialmente, 5-10 mm lateralmente e 3-5 mm posteriormente, com exceção dos mamários internos, que devem ter 0 mm de margem posterior; acrescentar ainda 5-10 mm superior, inferior e anteriormente para incluir a superfície cutânea. A quantidade de pulmão incluída pode ser aparada a critério médico.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 12.1)

O valor dessa tabela está na assimetria das margens. O capítulo não recomenda uma expansão única em todas as direções. Ele diferencia medial, lateral, posterior e superfície cutânea, e ainda abre a exceção posterior dos mamários internos, que precisa ser lembrada justamente nos casos em que a cobertura nodal regional é mais exigente.

Diretrizes dosimétricas para VMAT da mama

A Tabela 12.2 resume as metas de cobertura para 50 Gy em 25 frações e coloca limites claros para pulmão, coração, mama contralateral, esôfago, tireoide e plexo braquial. É o quadro que fecha a passagem entre contorno anatômico e plano aceitável.

Estrutura Parâmetro Objetivo
Target criteria – 50 Gy in 25 fractions
PTV D95% ≥95%
PTV V95% ≥95%
PTV D05% ≤110%
Internal mammary node (IMN) D95% ≥100%
Normal tissue criteria
Ipsilateral lung V20Gy ≤33%
Ipsilateral lung V10Gy ≤68%
Ipsilateral lung Mean Gy ≤20 Gy
Contralateral lung V20Gy ≤25%
Heart V25Gy ≤25%
Heart Mean Gy ≤9 Gya; ≤8 Gyb
Heart Dmax ≤50 Gy
Left anterior descending artery (LAD) Dmax ≤50 Gy
Contralateral intact breast Mean Gy ≤5 Gy
Contralateral implant Mean Gy ≤8 Gy
Esophagus Dmax ≤50 Gy
Thyroid Mean Gy ≤20 Gy
Brachial plexus Dmax ≤55 Gy

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 12.2)

O recado dessa tabela é objetivo. A cobertura do PTV precisa manter D95% e V95% em pelo menos 95%, limitar D05% a 110% e ainda levar os mamários internos a D95% de pelo menos 100%. Ao mesmo tempo, pulmão ipsilateral, coração e mama contralateral não aparecem como apêndice do plano; entram como fronteiras explícitas do que pode ser aceito.

Diretrizes dosimétricas para IMRT/VMAT com e sem DIBH

A Tabela 12.3 acrescenta a situação que costuma concentrar mais ajustes finos: IMRT/VMAT, reconstrução com implante e diferença entre planejamento sem DIBH e com deep inspiratory breath hold. Os números deixam claro que a respiração controlada não é um detalhe cosmético. Ela muda metas de baixa dose e de dose média em estruturas críticas.

Estrutura Parâmetro Objetivo
Target criteria – 50 Gy in 25 fractions
PTV D95% ≥95%
PTV V95% ≥95%
PTV D05% ≤110%
Inside implant PTV D95% ≤120%
Internal mammary node (IMN) D95% ≥90%
Normal tissue criteria
Ipsilateral lung V20Gy Non-DIBH: 30% (33%); DIBH: 27% (30%)
Ipsilateral lung V10Gy Non-DIBH: 65% (68%); DIBH: 60% (63%)
Ipsilateral lung Mean Gy Non-DIBH: 18 Gy; DIBH: 18 Gy
Contralateral lung V20Gy 5%
Heart V25Gy – left breast 3%
Heart V25Gy – right breast 0.5%
Heart Dmax 50 Gy
Heart Mean Gy – left breast and IMN, D95% ≥ 90% Non-DIBH: 7 Gy (8 Gy); DIBH: 6 Gy (7 Gy)
Heart Mean Gy – right breast and IMN, D95% ≥ 90% 4 Gy
Heart Mean Gy – left breast and IMN, D95% ≥ 100% Non-DIBH: 8 Gy (9 Gy); DIBH: 7 Gy (8 Gy)
Heart Mean Gy – right breast and IMN, D95% ≥ 100% 5 Gy
Heart If any of the constraints above cannot be achieved Non-DIBH: 10 Gy (12 Gy); DIBH: 9 Gy (10 Gy)
Left anterior descending artery (LAD) Dmax 25 Gy (35 Gy)
Contralateral intact breast Mean Gy 6 Gy
Contralateral implant Mean Gy 8 Gy
Esophagus Dmax 35 Gy (40 Gy)
Thyroid Mean Gy 20 Gy
Brachial plexus Dmax 55 Gy
Liver (for right side) Mean Gy 8 Gy (10 Gy)
Stomach Mean Gy Non-DIBH: 5 Gy; DIBH: 3 Gy
Cord Dmax 20 Gy

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 12.3)

Na prática, essa tabela chama a atenção sobretudo para o coração, a artéria descendente anterior esquerda e o estômago. As metas mais restritivas com DIBH mostram por que a técnica entra cedo na discussão quando há mama esquerda, parede torácica reconstruída e necessidade de cobrir mamários internos.

Volumes-alvo e cadeias nodais na parede torácica direita sem reconstrução

Na parede torácica direita sem reconstrução, as Figuras 12.1, 12.2 e 12.3 funcionam como um atlas rápido de conferência. Elas mostram a mesma solução em corte coronal, sagital e em sequência axial do crânio para o caudal.

Cortes axiais crânio-caudais de parede torácica direita sem reconstrução com PTV, CTV, níveis axilares I a III, cadeia supraclavicular e mamária interna contornados
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

A legenda cromática é precisa e ajuda muito na revisão: vermelho para PTV, laranja claro para CTV, azul para nível I, roxo claro para nível II, laranja escuro para nível III, verde para supraclaviculares e verde-amarelado para mamários internos. Vista assim, a irradiação nodal regional deixa de parecer um conjunto de volumes soltos e passa a ser lida como continuidade anatômica.

As imagens axiais da Fig. 12.3 ajudam particularmente na checagem superior-inferior. O contorno começa cranialmente, atravessa a transição axilar e segue até a parede torácica anterior, deixando claro como o alvo abraça a superfície sem perder a relação com pulmão e mediastino. É uma seção curta, mas suficiente para orientar a revisão geométrica de um caso não reconstruído.

Esse é o cenário em que as margens da Tabela 12.1 costumam ser revisitadas várias vezes. A expansão posterior de 3 a 5 mm, com exceção dos mamários internos, e a expansão anterior de 5 a 10 mm para incluir a pele alteram a forma final do alvo. Se o plano for VMAT ou IMRT, o bolus diário de 3 mm sobre a parede torácica precisa ser decidido desde o começo, não apenas no fechamento da otimização.

O texto do capítulo não acrescenta detalhes narrativos além do encaminhamento para as figuras, mas a mensagem visual é clara: parede torácica, níveis axilares, supraclaviculares e mamários internos devem ser revisados como um conjunto. Conferir cada subvolume isoladamente é necessário; conferir a continuidade entre eles é o que evita lacunas indesejadas.

Volumes-alvo e cadeias nodais na parede torácica esquerda reconstruída com expansor

Quando a parede torácica esquerda foi reconstruída com expansor tecidual, a geometria muda e o capítulo responde mostrando exatamente isso nas Figuras 12.4 e 12.5. O contorno continua regional e abrangente, mas a relação com o expansor, o coração e a mama contralateral aparece de forma explícita.

Cortes axiais crânio-caudais de parede torácica esquerda reconstruída com expansor tecidual mostrando PTV, CTV, cadeias nodais, coração e mama contralateral
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Na Fig. 12.4, além do mesmo código de cores já usado para PTV, CTV e cadeias nodais, o coração é marcado em amarelo e a mama contralateral em roxo escuro. Esse acréscimo muda a leitura do caso. Em situações esquerdas reconstruídas, não basta saber onde está o alvo; é preciso enxergar ao mesmo tempo o que precisa ser protegido.

A Fig. 12.5 leva essa revisão para a sequência axial em direção crânio-caudal. O expansor domina boa parte do hemitórax esquerdo anterior, e a Tabela 12.3 acompanha esse cenário com um limite específico: dentro do implante, o D95% deve ficar em até 120%. Isso interfere diretamente na aceitação de hot spots e na maneira de negociar cobertura junto à interface com o dispositivo.

O mesmo quadro diferencia metas sem DIBH e com DIBH para pulmão ipsilateral, coração e estômago. Para o coração, o capítulo separa metas para mama esquerda e mamários internos com D95% de pelo menos 90% e de pelo menos 100%, além de uma linha de contingência se as metas anteriores não puderem ser cumpridas. Para a artéria descendente anterior esquerda, o Dmax é de 25 Gy, com 35 Gy entre parênteses, e o estômago cai de 5 Gy para 3 Gy com DIBH.

Esse é um dos pontos em que o dado fala por si. O capítulo registra metas mais restritivas quando o breath hold profundo é utilizado, e isso orienta a decisão prática em casos reconstruídos à esquerda. Se a cadeia mamária interna precisa entrar e o coração passa a competir por espaço, a diferença entre os dois cenários deixa de ser teórica.

Planejamento convencional 3D conformado

O trecho de planejamento 3D conformado é breve, mas muito claro: a solução mostrada combina um feixe de elétrons medial en face com dois campos tangenciais laterais opostos. A partir daí, as Figuras 12.6, 12.7 e 12.8 funcionam como guia de montagem do arranjo.

Na Fig. 12.6, o feixe de elétrons en face medial aparece em vermelho e é casado com dois tangentes laterais opostos em azul e verde. A Fig. 12.7 muda para a visão coronal do campo supraclavicular e dos alvos linfonodais. Já a Fig. 12.8 mostra um boost 3D ao leito tumoral: um campo de elétrons en face com recorte personalizado, em azul, envolvendo o leito tumoral em marrom, os clips em verde claro e a cicatriz da lumpectomia em cinza.

Vale notar como a lógica do capítulo permanece consistente do começo ao fim. Primeiro, ele define aquisição de imagem e anatomia-alvo. Depois, transforma esse contorno em margens objetivas e em limites dosimétricos muito concretos. Por fim, mostra como uma solução 3D clássica pode ser organizada quando o caso pede campos tangenciais, campo supraclavicular e boost dirigido ao leito tumoral.

Se você quiser retornar ao panorama completo das localizações anatômicas e técnicas discutidas no livro, vale revisitar o Target Volume Delineation and Field Setup – Complete Clinical Guide. Para acompanhar também o contexto mais amplo da doença no site, veja nossa cobertura sobre a projeção global do câncer de mama publicada na Lancet.

Referências do capítulo

O capítulo ancora suas recomendações em três fontes diretas: o RADCOMP Breast Atlas, um mapeamento tridimensional de recidivas nodais regionais e o estudo que avaliou a redução de baixa dose em tecido normal com DIBH associado ao VMAT em pacientes reconstruídas com implante.

  1. MacDonald S e colaboradores. RADCOMP Breast Atlas. RTOG Foundation, 23 de fevereiro de 2016.
  2. DeSelm C, Yang TJ, Cahlon O, Tisnado J, Khan A, Gillespie E, Powell S e Ho A. Análise de mapeamento tridimensional das recidivas nodais regionais em câncer de mama. International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics. 2019;103(3):583-591.
  3. Dumaine VA, Saksornchai K, Zhou Y, Hong L, Powell S e Ho AY. Redução de baixa dose em tecido normal com a adição de DIBH ao VMAT em pacientes com reconstrução por implante recebendo irradiação nodal regional. Radiation Oncology. 2018;13(1):187.

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