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Câncer de tireoide e radioterapia externa — o delineamento de volumes-alvo é um dos pilares do planejamento radioterápico para tumores tireoidianos que exigem irradiação. Carcinomas anaplásicos irressecáveis, recorrências locais pós-cirúrgicas com margens comprometidas e doença pouco diferenciada refratária ao iodo radioativo representam os cenários mais frequentes em que a radioterapia conformacional com modulação de intensidade (IMRT) assume papel central. Este artigo detalha os princípios de planejamento, os volumes prescritos e cinco casos clínicos reais extraídos do livro de referência. Para uma visão mais ampla de todos os sítios anatômicos, confira nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo e configuração de campos.

Princípios de Planejamento e Avaliação por Imagem

O primeiro passo antes de qualquer delineamento é garantir um estadiamento por imagem adequado. Exame físico minucioso, ultrassonografia cervical e ressonância magnética ajudam a detectar linfadenopatias e extensão extratireoidiana que a tomografia isolada pode subestimar. Um ponto operacionalmente crítico: o uso de contraste iodado na TC de simulação deve ser evitado quando o paciente ainda poderá receber iodo radioativo, pois a sobrecarga de iodo estável pode interferir na captação por até 6 meses. Quando o contraste for clinicamente indispensável, a decisão precisa estar formalmente justificada antes da administração.

Carcinomas pouco diferenciados ou anaplásicos fogem do padrão dos tumores tireoidianos bem diferenciados: eles podem ser ávidos por FDG no PET-CT, oferecendo informação complementar relevante para definir o GTV. Já papilares e foliculares bem diferenciados raramente captam FDG de forma significativa. Essa distinção tem implicação prática direta: se o subtipo histológico sugere avidez por FDG, o PET-CT agrega informação real ao planejamento; caso contrário, seu valor é limitado.

Cortes axiais de TC de planejamento mostrando CTV 70 Gy (vermelho) e CTV 60 Gy (verde) em carcinoma papilar metastático de tireoide
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.1a: Carcinoma papilar metastático com recorrência irressecável e linfonodos mediastinais.

A imobilização deve incluir máscara termoplástica cobrindo cabeça, pescoço e ombros — não apenas cabeça e pescoço. A cabeça deve ficar levemente estendida para afastar a cavidade oral do campo e reduzir dose à mucosa oral. Esse detalhe aparentemente simples muda significativamente a distribuição de dose no palato e na língua, e muitas vezes é a diferença entre uma mucosite grau 2 e uma grau 3 no final do tratamento.

A prescrição de dose segue dois patamares principais: 66–70 Gy para doença macroscópica ou leito tumoral com margens positivas, e 54–63 Gy para regiões subclínicas de risco. O tratamento pode ser entregue em 30–35 frações, com dose por fração de 1,8 a 2 Gy por CTV, usando plano IMRT com dose-painting simultâneo ou, alternativamente, um curso inicial seguido de boost sequencial. A escolha entre dose-painting e boost sequencial depende da experiência da equipe e das restrições de dose nos órgãos de risco adjacentes.

Volumes-Alvo para Doença Macroscópica (66–70 Gy)

A definição de GTV e CTV para doença macroscópica segue critérios bem estabelecidos. O GTV inclui toda doença identificável ao exame físico e por imagem: massa primária residual ou recorrente e linfonodos cervicais com diâmetro ≥ 1 cm ou com centro necrótico. A tabela a seguir resume as definições recomendadas pelo livro de referência.

Volumes-alvo sugeridos para doença macroscópica

Volume Definição e Descrição
GTV66–70 Primário: toda doença macroscópica ao exame físico e imagem. Linfonodos cervicais: todos os nódulos ≥ 1 cm ou com centro necrótico.
CTV66–70 Geralmente idêntico ao GTV66–70. Se necessário margem por incerteza na extensão da doença macroscópica, adicionar 3–5 mm (GTV + 3–5 mm = CTV). Quando adjacente à medula espinhal: margem de 1 mm é aceitável, pois a proteção medular é prioritária. Para linfonodos suspeitos pequenos (< 1 cm): considerar dose de 66 Gy (CTV66).
PTV66–70 CTV66–70 + 3–5 mm conforme variabilidade do posicionamento diário. Quando adjacente à medula espinhal: margem de 1 mm é aceitável.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 9.1). Dose sugerida para doença macroscópica: 70 Gy. Quando houver risco de toxicidade ao plexo braquial, laringe, medula espinhal, pulmão ou esôfago, 66 Gy pode ser considerado. No cenário pós-operatório com ressecção macroscópica mas margem(ns) positiva(s) significativa(s), o leito tumoral ou região de preocupação pode receber 66 Gy.

Cortes de TC mostrando CTV 70 Gy e CTV 60 Gy em carcinoma anaplásico de tireoide irressecável invadindo laringe, traqueia e esôfago
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.2a: Anaplásico irressecável com invasão de laringe, traqueia e esôfago.

Na prática, a decisão entre 70 Gy e 66 Gy depende da proximidade com estruturas críticas e do balanço risco-benefício para cada paciente individual. Um tumor volumoso aderido à traqueia anterior pode receber 70 Gy sem maiores riscos, mas quando o GTV encosta na medula espinhal a apenas alguns milímetros, reduzir para 66 Gy e aceitar margem de CTV de 1 mm passa a ser a opção mais prudente. A proteção medular não é negociável — uma mielopatia actínica é irreversível e devastadora.

Linfonodos suspeitos com diâmetro inferior a 1 cm representam um dilema clínico frequente. Nesses casos, uma dose intermediária de 66 Gy pode ser suficiente: alta o bastante para esterilizar doença microscópica, mas com menor risco de toxicidade ao tecido adjacente. A seleção dessas lesões menores exige correlação cuidadosa entre exame físico, ultrassonografia e achados na TC de simulação.

Volumes-Alvo para Região Subclínica de Risco (54–63 Gy)

O CTV subclínico abrange as regiões com risco de doença microscópica, mesmo sem evidência macroscópica. A definição varia conforme o cenário clínico — definitivo ou pós-operatório — e exige atenção a detalhes anatômicos específicos da tireoide.

Volumes-alvo sugeridos para região subclínica

Volume Definição e Descrição
CTV54–63 (Primário) Deve incluir o sulco traqueoesofágico e margem > 5 mm ao redor de qualquer CTV66–70. No cenário pós-operatório: englobar leito tumoral e sulco traqueoesofágico do(s) lado(s) envolvido(s). Se traqueostomia realizada: incluir o estoma até a superfície cutânea. Idealmente, excluir laringe alta (pregas vocais/aritenoides e acima) e esôfago posterior, quando não adjacentes ao tumor ou ao leito tumoral.
CTV54–63 (Pescoço lateral) Incluir níveis cervicais bilaterais II–VII. A cobertura do pescoço lateral pode ser omitida quando se irradia o compartimento central e o mediastino superior até o nível da carina. Níveis I e retrofaríngeos são geralmente omitidos, a menos que estejam em risco.
PTV54–63 CTV54–63 + 3–5 mm. Quando adjacente à medula espinhal: 1 mm aceitável.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 9.2). Dose subclínica sugerida: 60–63 Gy. Regiões nodais não envolvidas podem ser classificadas como baixo risco subclínico e tratadas com 54 Gy, a critério do médico.

Cortes axiais de TC mostrando CTV pós-operatório em carcinoma anaplásico de tireoide com extensão extratireoidiana e margens positivas
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.3a: Pós-operatório de anaplásico com extensão extratireoidiana e margens positivas.

O sulco traqueoesofágico merece atenção especial: essa região é o sítio mais frequente de recorrência local no câncer de tireoide, e seu delineamento inadequado compromete todo o tratamento. No cenário pós-operatório, é fundamental verificar se houve traqueostomia — quando presente, o estoma precisa ser incluído até a superfície da pele, pois representa via de disseminação potencial para implantes cutâneos.

A exclusão da laringe alta e do esôfago posterior, quando possível, reduz significativamente a toxicidade de deglutição e preserva a voz. Porém, se o tumor primário ou o leito cirúrgico for adjacente a essas estruturas, a exclusão não se aplica e a cobertura completa é obrigatória. A tentativa de poupar essas estruturas às custas da cobertura oncológica não é aceitável.

O nível I e os linfonodos retrofaríngeos são geralmente omitidos no câncer de tireoide. Essa é uma diferença importante em relação a outros tumores de cabeça e pescoço, como o carcinoma de nasofaringe, onde a cobertura retrofaríngea é mandatória. No câncer tireoidiano, o padrão de disseminação linfática favorece os níveis centrais (VI–VII) e laterais (II–V), tornando a inclusão de nível I e retrofaríngeos desnecessária na maioria dos casos.

Cenários Clínicos: Doença Irressecável e Quimiorradioterapia Definitiva

Dois dos cinco casos ilustrativos do livro de referência demonstram o manejo de doença irressecável tratada com quimiorradioterapia definitiva. Ambos receberam plano IMRT com dose-painting simultâneo.

Caso 1 — Carcinoma papilar metastático (Fig. 9.1): Homem de 58 anos com carcinoma papilar metastático de tireoide, submetido a múltiplas ressecções prévias, que se apresentou com recorrência local irressecável e múltiplos linfonodos mediastinais. Recebeu quimiorradioterapia definitiva para prevenir progressão local. O CTV70 Gy (vermelho) abrange a recorrência local e linfonodos mediastinais envolvidos, enquanto o CTV60 Gy (verde) cobre as regiões subclínicas de risco. Este caso exemplifica o cenário de doença recorrente que esgotou as opções cirúrgicas — a radioterapia com dose definitiva é a melhor alternativa para controle local.

Cortes adicionais de TC de planejamento do carcinoma papilar metastático de tireoide com CTV 70 e 60 Gy demarcados
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.1b: Cortes adicionais do carcinoma papilar metastático mostrando extensão mediastinal.

Caso 2 — Carcinoma anaplásico irressecável (Fig. 9.2): Mulher de 73 anos com carcinoma anaplásico de tireoide invadindo laringe, traqueia e esôfago. Recebeu quimiorradioterapia definitiva com doxorrubicina concomitante. O CTV70 Gy (vermelho) engloba toda a doença volumosa, e o CTV60 Gy (verde) abrange o risco subclínico. Detalhe importante: o manúbrio, que normalmente não é incluído no volume de risco, foi englobado neste caso específico por conta da doença volumosa anterior agressiva no pescoço. Essa decisão é atípica e deve ser individualizada — não se trata de protocolo, mas de resposta a uma apresentação clínica particular.

Cortes axiais adicionais de TC mostrando extensão do CTV em carcinoma anaplásico de tireoide com invasão de estruturas adjacentes
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.2b: Cortes adicionais do anaplásico mostrando invasão de laringe, traqueia e extensão ao manúbrio.

Esses dois casos ilustram a versatilidade da IMRT com dose-painting: o plano entrega simultaneamente 70 Gy ao volume de alto risco e 60 Gy ao volume subclínico, sem necessidade de boost sequencial. A escolha de doxorrubicina como quimioterápico concomitante no anaplásico reflete a agressividade dessa histologia e a necessidade de sensibilização ao tratamento, embora as opções sistêmicas tenham evoluído significativamente nos últimos anos.

Radioterapia Pós-Operatória e Margens Comprometidas

O cenário pós-operatório no câncer de tireoide exige atenção redobrada ao leito cirúrgico, especialmente quando há extensão extratireoidiana ou margens positivas. Clips cirúrgicos orientam o delineamento do leito e devem ser sistematicamente identificados em cada corte da TC.

Cortes de TC de planejamento pós-operatório em anaplásico de tireoide com clips cirúrgicos e CTV 70 Gy demarcado
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.3b: Pós-operatório de anaplásico com clips cirúrgicos orientando o delineamento do CTV70 Gy.

Caso 3 — Anaplásico pós-operatório (Fig. 9.3): Mulher de 50 anos com carcinoma anaplásico submetida a ressecção com extensão extratireoidiana e margens positivas, sem linfonodos envolvidos. Recebeu quimiorradiação pós-operatória. O CTV70 Gy (vermelho) inclui o leito tumoral e os clips cirúrgicos, enquanto o CTV60 Gy (verde) cobre o risco subclínico do compartimento central. A ausência de linfonodos positivos não elimina a necessidade de irradiação subclínica nesse subtipo histológico agressivo — o anaplásico tem taxa de recorrência local e a distância significativamente maior que os diferenciados.

Caso 4 — Recorrência multifocal de variante de células altas (Fig. 9.4): Mulher de 61 anos com variante de células altas do carcinoma papilar, submetida a três cirurgias prévias, que se apresentou com recorrência multifocal. Foi tratada com quimiorradioterapia definitiva. O GTV70 Gy (vermelho) demarca cada foco de recorrência, e o CTV60 Gy (verde) cobre o pescoço subclínico em risco. A variante de células altas é reconhecidamente mais agressiva que a variante papilar clássica, com maior propensão a recorrência e comportamento biologicamente mais adverso.

Cortes axiais mostrando GTV 70 Gy e CTV 60 Gy em recorrência multifocal de carcinoma papilar de tireoide variante células altas
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.4a: Recorrência multifocal do papilar, variante de células altas, após três cirurgias prévias.

Quando há recorrência multifocal após múltiplas cirurgias, o campo cirúrgico se torna hostil — fibrose extensa, distorção anatômica e risco aumentado de lesão nervosa tornam nova ressecção proibitivamente arriscada. A quimiorradioterapia definitiva com IMRT permite entregar 70 Gy a cada foco individualmente, com gradiente de dose favorável para os tecidos adjacentes. Cada foco de recorrência exige seu próprio GTV delineado, e o plano precisa acomodar múltiplos alvos de alta dose simultaneamente.

Cortes adicionais da TC de planejamento em recorrência multifocal de carcinoma papilar com GTV e CTV demarcados
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.4b: Cortes adicionais demonstrando cobertura dos múltiplos focos de recorrência.

Doença Pouco Diferenciada e Omissão do Pescoço Lateral

Nem todos os casos exigem irradiação bilateral do pescoço lateral. O último caso do capítulo demonstra um cenário em que a omissão do pescoço lateral foi deliberada e clinicamente justificada, ilustrando o princípio de individualização baseada no padrão de recorrência do paciente.

Cortes de TC mostrando CTV 60 Gy em câncer de tireoide pouco diferenciado com omissão do tratamento do pescoço lateral
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.5a: Pouco diferenciado de fenótipo folicular; pescoço lateral intencionalmente omitido.

Caso 5 — Câncer pouco diferenciado, fenótipo folicular (Fig. 9.5): Mulher de 69 anos com câncer de tireoide pouco diferenciado de fenótipo folicular, aderido a traqueia e esôfago, submetida a ressecção e iodo radioativo, que recorreu com massa paratraqueal direita invadindo a traqueia. Após nova ressecção e esvaziamento cervical, recebeu quimiorradiação adjuvante. O CTV60 Gy (verde) cobre o compartimento central e o mediastino superior. O tratamento do pescoço lateral foi omitido, dada a alta probabilidade de recorrência no compartimento central — a dose e o risco foram priorizados onde o benefício clínico era máximo.

Cortes adicionais da TC de planejamento do câncer de tireoide pouco diferenciado mostrando extensão do CTV no mediastino superior
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition — Fig. 9.5b: Extensão do CTV60 Gy ao mediastino superior com omissão do pescoço lateral.

A decisão de omitir o pescoço lateral não é trivial. Ela pressupõe que o risco de recorrência lateral é suficientemente baixo para que a redução de toxicidade justifique a ausência de cobertura. No cenário deste caso — doença central recorrente com esvaziamento cervical recente e sem linfonodos laterais comprometidos — a omissão é razoável e alinhada com o princípio de individualização do tratamento. Omitir o pescoço lateral reduz significativamente o volume irradiado, com benefício direto na preservação da função de deglutição e redução de xerostomia.

Considerações Práticas de Planejamento

O planejamento IMRT para câncer de tireoide exige delineamento slice a slice de todos os volumes — GTV e CTV — em cada corte da TC de planejamento. A seleção acurada do CTV para doença macroscópica (CTV66–70) e para a região subclínica (CTV54–63) é crítica para o resultado terapêutico. O tratamento pode ser entregue como plano all-in-one com dose-painting simultâneo em 30–35 frações ou como curso inicial seguido de boost.

Quando a dose de 70 Gy gera preocupação com toxicidade ao plexo braquial, laringe, medula espinhal, pulmão ou esôfago, a redução para 66 Gy é justificável. No cenário pós-operatório com ressecção macroscópica mas margem positiva significativa, o leito tumoral ou a região de preocupação pode receber 66 Gy em vez de 70 Gy, equilibrando controle local e preservação funcional. Essa flexibilidade entre 66 e 70 Gy não é fraqueza do protocolo — é reconhecimento de que a dose ótima varia conforme a relação espacial entre o alvo e os órgãos de risco em cada caso.

As regiões nodais não envolvidas classificadas como baixo risco subclínico podem ser tratadas com 54 Gy, a critério do médico responsável. Essa flexibilidade permite poupar tecido normal adjacente sem comprometer a cobertura oncológica quando a probabilidade de doença oculta naquela região específica é limitada. Na prática, a decisão de tratar com 54 Gy versus 60 Gy depende da carga de doença original, da extensão do esvaziamento cervical e da agressividade histológica do tumor.

Para um panorama completo dos princípios de delineamento em todos os sítios anatômicos da oncologia radioterápica, confira nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo e configuração de campos.