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Braquiterapia Guiada por Imagem na Prática Clínica

A braquiterapia guiada por imagem representa o reforço central padrão para tumores ginecológicos, especialmente câncer de colo uterino, endométrio e vagina. Sem ela, o controle local cai significativamente — e a sobrevida global segue o mesmo caminho. As diretrizes da American Brachytherapy Society (ABS) e do GEC-ESTRO orientam todo o fluxo, desde a escolha do aplicador até o planejamento tridimensional com TC ou RM.

Toda paciente precisa de exame físico completo, incluindo exame pélvico, e estadiamento radiográfico com TC contrastada e/ou PET/CT. A RM pélvica complementa a avaliação quando o tumor excede 4 cm ou há suspeita de invasão vesical ou retal. A escolha do aplicador depende diretamente do tamanho tumoral, extensão parametrial e envolvimento vaginal.

Volumes-alvo de braquiterapia guiada por imagem segundo GEC-ESTRO: GTV, HRCTV e IRCTV em diagrama esquemático do colo uterino
Volumes-alvo GEC-ESTRO para braquiterapia cervical: GTV (laranja), HRCTV (roxo) e IRCTV (verde). Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Um ponto que muitos residentes subestimam: a braquiterapia é insubstituível. Técnicas como SBRT só entram em protocolos de pesquisa ou quando a paciente recusa a braquiterapia. A orientação de especialistas como Christine Feng e Jyoti Mayadev, da UC San Diego, reforça que o tratamento total não deve ultrapassar 56 dias — incluindo a fase de radioterapia externa (EBRT).

As pacientes também devem receber aconselhamento sobre toxicidades tardias e uso de dilatador vaginal se não mantiverem atividade sexual regular. O seguimento deve ser coordenado dentro de uma equipe multidisciplinar. Para uma visão completa do delineamento em radioterapia, consulte nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo.

Câncer de Colo Uterino: Avaliação e Escolha do Aplicador

A braquiterapia melhora controle local, sobrevida livre de doença (DFS) e sobrevida global (OS) no tratamento definitivo do câncer cervical. Deve ser iniciada entre as semanas 3 e 5 da EBRT. No cenário pós-operatório, pacientes com margem vaginal positiva recebem braquiterapia após a EBRT.

A avaliação inicial exige hemograma, função renal e hepática, TC contrastada de tórax/abdome/pelve ao diagnóstico, e PET/CT. A RM pélvica é recomendada para planejamento de braquiterapia em tumores maiores que 4 cm. Quanto ao aplicador:

Cenário clínico Aplicador recomendado
Tumor <4 cm, envolvimento vaginal <1 cm, doença parametrial não volumosa Intracavitário isolado
Tumor 3-5 cm, doença parametrial, topografia irregular, dificuldade com OAR Híbrido intracavitário/intersticial
Tumor >5 cm, envolvimento vaginal >1 cm, doença parametrial volumosa Intersticial isolado

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

O ultrassom transabdominal ou transretal auxilia o posicionamento do tandem. O ultrassom transretal é particularmente útil quando se precisa criar um trajeto para o tandem ou guiar agulhas em casos híbridos/intersticiais. Em pacientes com fístula vesicovaginal, considere nefrostomia de desvio. Já fístulas retovaginais devem ser desviadas antes do início da irradiação.

Delineamento de Volumes e Planejamento Cervical

Cancer cervical FIGO IIB: PET/CT com tumor FDG-ávido, RM pélvica ponderada em T2, aplicador tandem-ovoides com HRCTV e distribuição de dose
Câncer cervical FIGO IIB: (a) PET/CT, (b) RM T2, (c) tandem e ovoides com HRCTV, (d) distribuição de dose. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

O delineamento exige precisão absoluta. A TC de cortes finos ou RM com aplicador é mandatória para planejamento 3D. O tandem deve estar posicionado no colo e útero — se usar anel, deve ficar rente ao colo; se usar ovoides, o tandem deve bissetar os ovoides. A tamponagem vaginal não pode deslocar o anel ou os ovoides.

Os volumes-alvo seguem a terminologia GEC-ESTRO. O GTV corresponde ao tumor macroscópico visível na RM no momento da braquiterapia. O HRCTV engloba o GTV, colo uterino e extensão macroscópica ou envolvimento parametrial ao tempo do implante. O IRCTV adiciona 1 cm de margem ao HRCTV e pode incluir a extensão da doença ao diagnóstico — usado mais na Europa do que nos EUA.

Volumes-alvo e OARs no câncer cervical intacto

Estrutura Descrição
GTV Tumor macroscópico no momento da braquiterapia visível na RM
HRCTV GTV + colo uterino + extensão macroscópica ou envolvimento parametrial
IRCTV HRCTV + margem de 1 cm, pode incluir extensão ao diagnóstico
Bexiga Contorno da parede vesical externa
Reto Parede retal externa, do esfíncter anal à transição retossigmoideana
Sigmoide Parede sigmoideana externa, da flexura retossigmoideana até 2 cm acima do útero

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.1)

Quando se utiliza TC para planejamento, os volumes-alvo tendem a superestimar a extensão da doença. A RM permite definir o GTV com muito mais acurácia. Para câncer cervical pós-operatório com margem vaginal positiva, trata-se o terço superior da vagina.

Esquemas de dose HDR para câncer cervical intacto (EQD2)

EBRT total (Gy) Frações HDR Dose HRCTV por fração (Gy) Dose HRCTV total (Gy) EQD2 total (Gy)
45 4 7,0 28,0 83,9
45 5 5,5 27,5 79,8
45 5 6,0 30,0 81,8
45 3 8,0 24,0 80,3

Contribuição de dose da EBRT assumida como dose de prescrição (45 Gy). Doses cumulativas em EQD2 (α/β = 10 para alvo, α/β = 3 para tecidos normais). Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.2)

Metas dosimétricas para braquiterapia cervical

Estrutura Parâmetro Meta ideal EQD2 (Gy) Restrição máxima EQD2 (Gy)
HRCTV $D_{90\%}$ ≥80
Bexiga $D_{2cc}$ ≤80 ≤90
Reto $D_{2cc}$ ≤65 ≤75
Sigmoide $D_{2cc}$ ≤70 ≤75

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.3)

Câncer de Endométrio: Tratamento Adjuvante e Definitivo

A braquiterapia no câncer endometrial cobre três cenários: adjuvância pós-operatória, doença recorrente e pacientes clinicamente inoperáveis. A cirurgia upfront continua sendo o tratamento padrão para doença operável. A avaliação linfonodal deve ser considerada em FIGO grau 2-3, doença macroscópica >2 cm intraoperatória e/ou invasão miometrial >50%.

No pós-operatório, a radioterapia adjuvante reduz o risco de recorrência local em pacientes com fatores adversos: alto grau, invasão miometrial profunda, extensão estromal cervical, invasão linfovascular (LVSI) e envolvimento linfonodal regional. A braquiterapia vaginal deve começar dentro de 12 semanas da cirurgia — mas somente após exame pélvico confirmando cicatrização da cúpula. Quando combinada como reforço após EBRT, inicia em até 2 semanas do término da radioterapia externa.

Corte axial de TC com cilindro vaginal para braquiterapia apresentando gap de ar entre o aplicador e a cúpula vaginal
Cilindro vaginal com gap de ar no ápice (seta vermelha) — situação a evitar. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

O cilindro vaginal deve ser o maior diâmetro tolerado pela paciente. Na TC de planejamento, verifique que o aplicador está rente ao ápice da cúpula vaginal e que há contato mucoso adequado. Gaps de ar no ápice comprometem a distribuição de dose e devem ser corrigidos antes do tratamento. Confirme sempre o comprimento vaginal.

Esquemas para braquiterapia endometrial pós-operatória

(A) Braquiterapia de cúpula isolada
Ponto de prescrição Frações Dose por fração (Gy)
0,5 cm de profundidade da superfície vaginal 3 7,0
0,5 cm de profundidade 4 5,5
0,5 cm de profundidade 5 5,0
0,5 cm de profundidade 6 2,5
Superfície vaginal 4 8,5
Superfície vaginal 5 6,0
Superfície vaginal 6 4,0
(B) Reforço pós-EBRT
EBRT Frações HDR Dose por fração (Gy)
45 Gy em 25 frações 3 5,0
50,4 Gy em 28 frações 2 6,0

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.5)

Endométrio Inoperável e Doença Recorrente

Câncer de endométrio inoperável com aplicador Y para braquiterapia: corte sagital com HRCTV, corte axial e distribuição de dose
Endométrio inoperável com aplicador Y: (a) sagital com HRCTV, (b) axial, (c) distribuição de dose. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Para pacientes clinicamente inoperáveis, a radioterapia definitiva com braquiterapia ± EBRT constitui o tratamento padrão. EBRT isolada não é preferida e deve ser reservada apenas a quem recusa ou não tolera a braquiterapia. A RM pélvica basal é recomendada para avaliar a extensão total da doença.

Pacientes com útero de largura <4 cm podem usar tandem e cilindro ou tandem e anel. Útero >4 cm exige aplicador de duplo tandem. Para duplo tandem, idealmente as pontas devem alcançar os cornos uterinos bilaterais para otimizar a distribuição de dose. O CTV deve incluir todo o útero, colo e 1-2 cm superiores da vagina.

Esquemas para câncer endometrial inoperável

(A) Braquiterapia isolada
Frações HDR Dose por fração (Gy) EQD2 (Gy)
4 8,5 52,4
5 8,0 60,0
5 7,3 52,6
6 6,4 52,5
6 6,0 48,0
(B) Reforço pós-EBRT
EBRT Frações HDR Dose por fração (Gy) EQD2 (Gy)
45 Gy / 25 fx 2 8,5 70,5
45 Gy / 25 fx 3 6,5 71,1
45 Gy / 25 fx 3 6,3 69,9
45 Gy / 25 fx 4 5,2 70,6
45 Gy / 25 fx 5 5,0 75,0
50,4 Gy / 28 fx 2 6,0 65,6
50,4 Gy / 28 fx 6 3,75 75,3

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.7)

Na recorrência local sem irradiação prévia ou com recorrência fora do campo, a radioterapia de resgate é recomendada. O esquema padrão consiste em EBRT 45 Gy em 25 frações seguido de braquiterapia com EQD2 total de 70-80 Gy. Para pacientes previamente irradiadas com recorrência vaginal, pode-se considerar cirurgia de resgate. Quando inviável, EBRT em dose reduzida (30,6-36 Gy em 17-20 frações) com braquiterapia ± quimioterapia é uma alternativa. A dose de braquiterapia depende da tolerância tecidual e da dose prévia.

Câncer Vaginal: Avaliação, Delineamento e Planejamento

A braquiterapia como parte do tratamento definitivo com preservação de órgão melhora a sobrevida global no câncer vaginal. A radioterapia definitiva é a abordagem preferida para estádio I, com cirurgia como opção apenas em tumores não volumosos distais e não uretrais. Quimiorradioterapia definitiva é preferida para estádios II-IVA.

A braquiterapia intersticial é a abordagem padrão. Somente tumores muito pequenos (espessura ≤5 mm) podem considerar aplicadores intracavitários. O ultrassom transretal guia a colocação de agulhas intersticiais e evita perfuração intestinal. Ao final do procedimento, um toque retal digital confirma que nenhum cateter está perfurando o reto.

Câncer vaginal distal com implante intersticial: corte sagital com HRCTV e aplicador, corte axial e distribuição de dose
Câncer vaginal distal com implante intersticial: (a) sagital com HRCTV, (b) axial, (c) distribuição de dose. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Volumes-alvo no câncer vaginal primário

Estrutura Descrição
GTV Tumor macroscópico na RM ao tempo da braquiterapia
HRCTV GTV + margem de 1 cm lateral, inferior e superior
IRCTV HRCTV + extensão microscópica na vagina (inclui toda a doença inicial)
Bexiga Parede vesical externa
Reto Parede retal externa, do esfíncter anal à transição retossigmoideana
Sigmoide Parede sigmoideana, da flexura ao 2 cm acima do útero e paramétrios

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.8)

A dose total alvo deve ser 70-80 Gy, variando conforme a localização vaginal e estruturas adjacentes. Na vagina proximal, 75-80 Gy é aceitável, mas na vagina distal — mais próxima da uretra — deve-se reduzir para 70-75 Gy. Para doença multifocal ou disseminação descontínua, trata-se toda a extensão vaginal para dose equivalente de 60 Gy, com reforço das áreas de tumor residual grosseiro para 70-80 Gy.

Esquemas de dose para câncer vaginal primário

EBRT Frações HDR Dose HRCTV/fração (Gy) EQD2 HRCTV (Gy)
45 Gy / 25 fx 3 7,0 74,1
45 Gy / 25 fx 4 6,0 76,3
45 Gy / 25 fx 5 4,5-5,5 71,5-79,8
45 Gy / 25 fx 9 3,0 76,8
45 Gy / 25 fx 10 3,0 73,6
50,4 Gy / 28 fx 3 7,0 79,4
50,4 Gy / 28 fx 5 4,0-5,0 72,9-80,9

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.9)

Metas dosimétricas para câncer vaginal

Estrutura Parâmetro Meta ideal EQD2 (Gy) Restrição máxima EQD2 (Gy)
HRCTV $D_{90\%}$ Vagina inferior 1/3: 70-75; Vagina superior 2/3: 75-80
Bexiga $D_{2cc}$ ≤80 ≤90
Reto $D_{2cc}$ ≤65 ≤75
Sigmoide $D_{2cc}$ ≤75 ≤75

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 22.10)

Câncer de Vulva e Considerações Finais

No câncer de vulva, a quimiorradioterapia concomitante é a abordagem preferida para estádios II-IVA. A braquiterapia como reforço deve ser considerada em pacientes com extensão vaginal ou que toleram mal a fase inicial de EBRT. Para estádio I, a braquiterapia não faz parte do tratamento padrão — exceto em pacientes clinicamente inoperáveis.

A braquiterapia guiada por imagem transformou a oncologia ginecológica ao permitir planejamento tridimensional adaptativo. O uso de RM em vez de TC para delineamento de volumes possibilita identificar com precisão o GTV e individualizar o HRCTV conforme a resposta ao tratamento. Essa precisão se traduz em melhor cobertura tumoral com proteção de órgãos de risco — o que, na prática, significa menos toxicidade tardia e melhores resultados clínicos.

Para detalhes sobre delineamento em outras regiões anatômicas, confira nossos artigos sobre radioterapia ginecológica definitiva com IMRT e tratamento pós-operatório ginecológico.

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