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A Radiology Partners anunciou em 25 de agosto um acordo definitivo para comprar a Everlight Radiology, sediada em Londres e uma das maiores operações de teleradiologia do mundo. O grupo americano não divulgou os termos financeiros, mas o Australian Financial Review apurou preço em torno de US$ 715 milhões, citando fontes com conhecimento do acordo; parte da imprensa do setor noticiou a transação como um negócio de US$ 1 bilhão. Qualquer que seja o número final, o efeito é o mesmo: nasce a maior plataforma global de laudo a distância, e a consolidação da radiologia deixa de ser um fenômeno americano.

Os números do negócio

A Everlight foi fundada em 2006 e se apresenta como a principal fornecedora internacional de laudos remotos, atendendo hospitais e centros de imagem no Reino Unido, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Emprega mais de 800 radiologistas atuando em 40 países e produz cerca de 2,5 milhões de laudos por ano.

Sala de laudos de teleradiologia da Everlight Radiology com radiologistas em estações de múltiplos monitores
Sala de laudos da Everlight Radiology, que opera no modelo “follow the sun” com mais de 800 radiologistas em 40 países. Foto: Everlight Radiology/Radiology Business.

Vale fazer a conta implícita nesses números, porque ela explica o preço. São aproximadamente 3.100 laudos por radiologista por ano — produtividade compatível com operação de teleradiologia madura. E, a US$ 715 milhões, o comprador está pagando cerca de US$ 286 por laudo anual recorrente. Para comparação, a vendedora — a gestora britânica de private equity Livingbridge — pagou aproximadamente US$ 344 milhões por uma participação majoritária em 2021. Cinco anos depois, a saída sai por algo próximo de duas vezes esse valor.

Do outro lado da mesa, a Radiology Partners foi fundada em 2012, é sediada em Nashville, no Tennessee, e empregava mais de 4.000 radiologistas antes do acordo, atendendo mais de 3.400 unidades clientes. A empresa já tinha presença forte em leitura remota nos Estados Unidos: comprou a vRad, maior grupo de teleradiologia americano, como parte da aquisição de US$ 885 milhões da linha de imagem da Mednax, em 2020. A tese explícita é combinar a vRad e seus mais de 500 médicos com a Everlight.

O modelo “follow the sun”

O ativo que a Everlight vende não é apenas volume, é fuso horário. O modelo follow the sun distribui radiologistas por várias faixas horárias para que a leitura noturna de um país seja feita no horário comercial de outro. Um exame pedido às 3h da manhã em Manchester é laudado por alguém que está no meio da tarde na Austrália — sem plantão noturno, sem privação de sono, sem o custo de escala 24 horas em cada mercado.

É uma solução elegante para o problema mais persistente da radiologia de emergência, e explica por que essas operações valem múltiplos altos: elas monetizam a diferença de fuso, que é um recurso que não se replica com investimento. Rich Whitney, presidente e CEO da Radiology Partners, foi direto ao ponto na declaração: “A Everlight tem uma rede global incomparável de radiologistas subespecialistas, construída ao longo de 20 anos. A RP também passou muitos anos em teleradiologia e construiu a infraestrutura clínica e a tecnologia que dão suporte a radiologistas em escala.”

A escassez de radiologistas é o motor da consolidação

A justificativa de mercado apresentada pela Radiology Partners é a mesma nos países da Everlight e nos Estados Unidos: falta gente para laudar. Na Austrália, segundo estimativas do governo citadas no anúncio, o número de serviços de imagem diagnóstica prestados pelo Medicare local cresceu 40% na última década, e a imagem avançada cresceu quase duas vezes mais rápido que a oferta de mão de obra radiológica.

Essa é a mesma pressão que já documentamos em outras frentes: o tempo de laudo que cresceu 177% em uma década nos Estados Unidos e o êxodo de radiologistas do sistema VA são sintomas do mesmo desequilíbrio. Quando a demanda cresce mais rápido que a formação de especialistas, o capital entra para arbitrar a diferença — e a forma mais rápida de arbitrar é comprar quem já tem os radiologistas contratados. É o mesmo movimento de escala que acompanhamos na negociação bilionária entre Curium e Lantheus em radiofármacos: setores com gargalo de oferta atraem consolidação.

Mosaic Drafting: a IA é parte da tese, não acessório

A parte tecnológica do anúncio merece atenção. A Radiology Partners informou que pretende disponibilizar aos leitores da Everlight o Mosaic Drafting, produto de sua subsidiária Mosaic Clinical Technologies que usa IA para gerar laudos preliminares — sujeito a autorizações regulatórias nos demais países.

Essa frase carrega a lógica econômica inteira do negócio. Se o ativo escasso é hora de radiologista, e a IA aumenta o número de exames que cada radiologista consegue laudar por hora, então comprar uma base de 800 radiologistas e aplicar sobre ela um multiplicador de produtividade é uma alavanca dupla. O detalhe regulatório, porém, não é trivial: laudo preliminar gerado por IA tem enquadramento diferente na FDA, no UKCA/MHRA britânico, na TGA australiana e na Anvisa, e “sujeito a autorizações” pode significar anos de diferença entre mercados. A própria Radiology Partners já pediu publicamente mais clareza regulatória — cobrimos o caso quando a empresa peticionou à FDA por regras mais claras para IA em imagem.

O que muda para clientes e radiologistas

Nada, no curto prazo — é o que dizem as duas empresas. Após o fechamento, cada organização continuará atendendo os mesmos mercados e clientes, com radiologistas laudando onde têm licença e credenciamento. “Para os clientes da Everlight, os relacionamentos do dia a dia, os contatos e os fluxos de trabalho clínicos permanecem inalterados, e o negócio continuará sendo conduzido por sua atual equipe de gestão”, afirmou a Radiology Partners.

Rob Anderson, CEO global da Everlight, reforçou: “Estamos muito satisfeitos em nos juntar à Radiology Partners, um movimento que dará aos nossos radiologistas e clientes acesso a profundidade clínica, tecnologia e investimento adicionais em uma escala que levaria anos para construir sozinhos. O que não vai mudar é aquilo que nossos clientes mais valorizam: as mesmas equipes, os mesmos padrões e o mesmo compromisso de laudar cada exame com rapidez e precisão.”

A ressalva sobre licença e credenciamento não é formalidade. Ela é o limite jurídico que impede a teleradiologia de virar arbitragem salarial pura: o radiologista precisa estar habilitado na jurisdição do paciente, o que restringe a substituição de mão de obra local por mão de obra mais barata em outro país.

Riscos regulatórios e leitura para o Brasil

O negócio ainda depende de aprovações regulatórias e de condições de fechamento em múltiplas jurisdições. Uma operação que concentra dois dos maiores provedores de laudo remoto do mundo tende a atrair escrutínio antitruste, sobretudo no Reino Unido e na Austrália, onde a Everlight tem posição relevante e o comprador passa a ter pouca concorrência de escala equivalente. Há também o risco de execução: integrar 800 radiologistas de cinco países em uma plataforma tecnológica única, com regras de credenciamento distintas, não é trivial.

Para o Brasil, o recado é de mercado. A teleradiologia nacional já vive consolidação própria, e a operação americana reforça a tese de que escala é o principal fator competitivo desse segmento — quem tem mais volume dilui custo de plataforma, de qualidade e agora de IA. A Resolução CFM 2.314/2022 e a exigência de registro no CRM mantêm o mercado brasileiro relativamente protegido de laudo estrangeiro direto, mas não protegem de aquisição: nada impede que grupos globais comprem operadores locais já habilitados. Serviços independentes que competem apenas por preço por laudo são os mais expostos.

O que observar nos próximos meses: as decisões antitruste no Reino Unido e na Austrália, o cronograma real de liberação do Mosaic Drafting por país e se o preço confirmado no fechamento fica mais perto dos US$ 715 milhões apurados ou do US$ 1 bilhão noticiado. A diferença entre os dois números é, por si só, um indicador de quanto o mercado ainda está calibrando o valor de uma hora de radiologista.

Fonte: Radiology Business — Rad Partners expands overseas, acquiring 1 of world’s largest teleradiology businesses