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Um número crescente de pacientes está descobrindo que tem câncer sozinho, pelo portal do paciente, antes de qualquer conversa com a equipe médica. É o que mostra um estudo publicado em 24 de junho de 2026 na JAMA Network Open, que quantificou um efeito colateral pouco discutido da liberação imediata de resultados de exames.

Paciente surpresa ao ler resultado de exame no celular pelo portal do paciente
Boa parte dos pacientes que recebem um diagnóstico de câncer pelo portal está sozinha no momento.

O que o estudo encontrou

Conduzida por Sheena Bhalla, MD, do Simmons Cancer Center da UT Southwestern, com o pesquisador sênior David Gerber, MD, a pesquisa entrevistou em 2025 pacientes diagnosticados com câncer entre 2019 e 2023. Na análise final, com 2.412 participantes, 170 deles (7%) souberam do diagnóstico de câncer diretamente pelo portal institucional. A maioria, 1.923 pessoas (84%), recebeu a notícia da equipe clínica — presencialmente, por telemedicina ou por telefone.

Dois achados chamam atenção de quem trabalha com imagem. Primeiro: entre os 170 que descobriram pelo portal, 72 (cerca de 45%, quase metade) tinham resultados de exames de imagem acompanhando o diagnóstico. Segundo: mais da metade desses pacientes estava sozinha no momento em que abriu o resultado. Ou seja, a notícia mais difícil da vida chegou por uma tela, sem ninguém ao lado e sem interpretação clínica imediata.

Por que isso está acontecendo

A raiz do fenômeno é regulatória. Nos Estados Unidos, a regra de “information blocking” do 21st Century Cures Act passou a exigir o acesso imediato e irrestrito do paciente às suas informações eletrônicas de saúde, com a exigência de liberação imediata em vigor desde abril de 2021. Na prática, laudos e resultados passaram a aparecer no portal assim que ficam prontos — muitas vezes antes que o médico que solicitou o exame os tenha visto.

Os números de contexto são eloquentes. Estudos anteriores mostraram que a proporção de pacientes que viam o resultado antes do médico solicitante saltou de cerca de 37% em 2017 para 75% em 2022. Nesse mesmo ano, laudos de radiologia eram o tipo de resultado mais visualizado primeiro pelos pacientes (76%), à frente da patologia (58%), e o tempo mediano até a primeira visualização caiu de aproximadamente 77 horas para apenas 6 horas. A radiologia, portanto, está na linha de frente desse impasse.

O dilema para a radiologia

“Com a liberação imediata dos resultados, os pacientes muitas vezes descobrem um câncer novo ou em progressão pelo portal, em seus dispositivos portáteis, a qualquer hora do dia, sem interpretação clínica simultânea da equipe que os acompanha”, resumiu Sheena Bhalla. O conflito é genuíno: de um lado, o direito do paciente de acessar seus próprios dados sem barreiras; de outro, o cuidado de não transformar um laudo cru em uma sentença solitária.

Vale lembrar que um laudo radiológico é escrito para outro médico, com terminologia técnica e, não raro, ressalvas e diagnósticos diferenciais. Lido fora de contexto, ele pode gerar pânico desproporcional — ou, no extremo oposto, falsa tranquilidade. Não por acaso, três estados americanos (incluindo o Texas) já aprovaram leis que permitem atrasar a liberação de resultados relacionados a câncer no portal, buscando uma janela para o contato humano.

O peso emocional de uma descoberta solitária

Para além dos números, há um custo humano que o estudo ajuda a tornar visível. Receber a confirmação de um câncer é um dos momentos mais delicados da trajetória de um paciente, e o modo como essa informação é entregue influencia diretamente a ansiedade, a adesão ao tratamento e a confiança na equipe. Descobrir o diagnóstico em um aplicativo, durante a madrugada ou no intervalo do trabalho, sem ninguém para contextualizar o que aquilo significa, transforma um ato de cuidado em uma experiência de abandono.

Curiosamente, a preferência dos pacientes não é unânime. No conjunto da amostra, 75% disseram preferir receber a notícia de um profissional, contra 23% que preferem o portal. Mas, entre os que de fato souberam pelo portal, a balança se inverte: cerca de 54% passaram a preferir essa via no futuro, e 42% optariam pelo contato com o médico. O dado sugere que, para parte das pessoas, o acesso rápido e o controle sobre a própria informação superam o desconforto — o que reforça a importância de oferecer opções, e não uma regra única.

Caminhos de mitigação e o contexto brasileiro

Os autores não defendem voltar atrás na transparência, mas sim desenhar a entrega com mais cuidado. Entre as soluções sugeridas estão a entrega escalonada de resultados (tiered release), resumos em linguagem simples gerados por IA e modelos de liberação imediata por opção do próprio paciente (opt-in). A IA aplicada à comunicação tem papel central aqui — uma ideia que já exploramos ao mostrar como o GPT-5 pode ajudar pacientes a entender o laudo radiológico e como o laudo multimídia interativo torna o resultado mais compreensível.

No Brasil, onde os portais de paciente avançam e a LGPD reforça o direito de acesso aos próprios dados, o debate é igualmente pertinente, ainda que sem uma exigência de liberação imediata como a americana. A lição é clara: à medida que os serviços de imagem digitalizam a entrega de laudos, vale pensar desde já em fluxos que combinem transparência com acolhimento — para que o avanço tecnológico não signifique deixar o paciente sozinho diante de uma má notícia.

Fonte: AuntMinnie — estudo publicado na JAMA Network Open.