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Um casal entrou com uma acao civil contra um radiologista da Nova Inglaterra, alegando que ele deixou de identificar sinais de um AVC iminente em angiotomografia computadorizada. Jeffrey e Kim Sayward formalizaram a queixa em um tribunal federal do Maine no dia 15 de maio. A defesa do casal afirma que o radiologista Eric J. Sax, MD, MBA, FACR, entao prestando servico ao MaineHealth Hospital em Biddeford, falhou em identificar um coagulo perigoso em exame realizado tres anos antes.

Ilustracao do tema legal envolvendo erro diagnostico em radiologia: cerebro e simbolos judiciais
Casal alega no Maine que estenose vertebrobasilar critica em CTA passou despercebida em laudo de pronto-socorro.

O que o processo afirma

Segundo o documento protocolado na corte federal, o coagulo descrito pelo casal estava em risco de se deslocar e bloquear o suprimento sanguineo do cerebro do paciente, configurando ameaca iminente. A acao sustenta que, como resultado da leitura supostamente negligente, o homem de 63 anos foi liberado do hospital. Nove horas depois, conforme o relato, o trombo se deslocou e progrediu para um AVC devastador, deixando o paciente com sequelas permanentes.

Alem do MaineHealth, os advogados nomeiam como cor-reu a Spectrum Healthcare Partners, pratica medica baseada em Portland que fornece laudos de imagem para hospitais em todo o Maine. A defesa afirma que o Dr. Sax estava trabalhando para a pratica na epoca e atualmente reside em Massachusetts, atuando hoje no Tufts Medical Center, em Boston, segundo registros publicos.

A sequencia clinica relatada

Os Sayward se descrevem como snowbirds, viajantes que saem da Florida para passar os veroes no Maine. Na manha de 29 de maio de 2023, Jeffrey Sayward sofreu um episodio de sincope na regiao. Uma ambulancia o levou ao pronto-socorro do entao Southern Maine Health Care, hoje rebatizado MaineHealth Maine Medical Center Biddeford. Ele chegou ao ED pouco depois das 10h e teve sua acuidade classificada como emergencial.

Um clinico assistente solicitou uma angiotomografia de cabeca e pescoco, seguindo protocolo de AVC, para avaliar patologia com risco de vida. As imagens foram adquiridas entre 11h20 e 11h34, e o laudo final foi assinado eletronicamente pelo Dr. Sax as 11h48. A acao afirma que o radiologista deixou de destacar uma alteracao critica nas imagens: estenose de alto grau, compativel com a presenca de um coagulo. O laudo, segundo o documento, registrou que a arteria vertebral esquerda estava sem evidencia de estenose.

O desfecho clinico

O hospital recebeu alta para o paciente por volta das 12h57, atribuindo o quadro a tontura provavelmente causada por desidratacao apos jogo de golfe no dia anterior. Por volta das 19h, no entanto, o paciente subitamente sentiu fraqueza e mal-estar. O casal acionou o servico de emergencia, e o paciente foi transferido para o centro de trauma nivel 1 do MaineHealth em Portland devido ao quadro grave. Nova CTA mostrou que ele havia sofrido um AVC.

A comparacao com as imagens daquela manha, segundo a defesa, evidenciou que o Dr. Sax teria deixado passar o coagulo na arteria vertebral esquerda. O paciente ficou internado por uma semana e necessitou de um longo periodo de reabilitacao em regime interno. Apesar de terapia fisica e ocupacional extensas, segue com sequelas permanentes. A familia alega despesas medicas extraordinarias, dor e sofrimento, perda de prazer de vida e dano permanente, com pedido de danos a serem definidos acima de 75 mil dolares — mas, segundo os advogados, com valor final provavelmente muito maior.

O contexto juridico e o pioneirismo da acao

O caso assume relevancia adicional porque, segundo a defesa, e uma das primeiras acoes de erro medico ajuizadas em corte federal do Maine apos decisao recente da Suprema Corte. Em janeiro, a Corte permitiu que uma acao federal em Delaware prosseguisse, mesmo sem atender requisitos procedimentais exigidos para acoes em cortes estaduais daquele estado. A interpretacao abre caminho para questoes semelhantes em outras jurisdicoes.

A advogada Elizabeth Kayatta, que representa o casal, ve no processo a oportunidade de criar precedente no Maine, estado conhecido por triagem rigorosa antes que acoes de erro medico cheguem as cortes superiores. Para ela, uma vitoria contra o radiologista pode trazer mais transparencia publica sobre erros medicos. O Maine Health Security Act, segundo a advogada, encobre em sigilo a maior parte das acoes de erro medico que tramitam no estado.

Implicacoes para a pratica radiologica

Casos como este reforcam pontos relevantes para o radiologista de plantao em pronto-socorro. O primeiro e a importancia da comunicacao explicita de achados criticos, mesmo que ja constem no laudo. Em protocolos de AVC, valores duvidosos justificam contato direto com o medico assistente e registro do dialogo. O segundo ponto e o uso de checklists para arterias vertebrais, segmento frequentemente associado a erros perceptivos em CTA. O terceiro e a documentacao do tempo entre aquisicao e laudo, que vira indicador de qualidade.

Esses cuidados dialogam com avancos tecnologicos. Como descrevemos em cobertura sobre IA na deteccao de TEP em angio-TC com desempenho real-world, ferramentas automatizadas podem servir de rede de seguranca contra omissoes perceptuais em achados emergenciais. Sociedades como ACR e SBR ja recomendam que servicos de alto volume considerem essas camadas de suporte. O caso tambem se conecta a discussao mais ampla sobre o papel publico do radiologista, ja explorada em cobertura sobre a indicacao de Saphier para Surgeon General nos EUA.

Pendencias e proximos passos

O Dr. Sax nao respondeu ao pedido de comentario do jornal local que primeiro noticiou o caso. MaineHealth e Spectrum Healthcare Partners tambem nao se manifestaram. A acao judicial deve ter tramitacao longa, com fase pericial centrada em revisao das imagens e em opiniao de radiologistas especialistas em neuroimagem vascular. Para o radiologista brasileiro, o caso e um lembrete de que a documentacao detalhada do raciocinio diagnostico, alem do contato com o medico que solicitou o exame, e o melhor escudo contra litigios envolvendo achados perdidos.

Fonte: Radiology Business