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Em metástases cerebrais, a escolha entre whole brain radiation therapy (WBRT) e stereotactic radiosurgery (SRS) muda o alvo, o racional de preservação funcional e o padrão de controle intracraniano que se busca. Este artigo dedicado recompõe, em linguagem clínica direta, o que o capítulo apresenta sobre seleção entre WBRT e SRS, campos de tratamento, delineamento da cavidade pós-operatória e esquemas de dose. Para uma visão mais ampla do tema, confira nosso Target Volume Delineation and Field Setup – Complete Clinical Guide.

Para comparar a lógica de setup estereotáxico fora do crânio, veja também nosso artigo sobre SBRT de Cabeça e Pescoço: Guia Clínico Prático.

WBRT versus SRS em metástases cerebrais

O capítulo não tenta encerrar a discussão sobre quando indicar WBRT ou SRS. Ele coloca a decisão em três eixos: número e volume das metástases cerebrais, desempenho clínico e uso de ferramentas prognósticas, entre elas a molecular graded prognostic assessment.

O equilíbrio descrito no texto é objetivo. Em linhas gerais, a SRS preserva melhor a função neurocognitiva e a qualidade de vida, enquanto a WBRT melhora as taxas de controle à distância e o controle global das metástases intracranianas. Na prática, esse contraste ajuda a organizar a conversa com a equipe e com o paciente: uma técnica favorece preservação funcional; a outra amplia a cobertura de doença microscópica e de falhas fora do alvo indexado.

Metástases difusas e numerosas empurram o caso para WBRT. Metástases intactas e cavidades pós-ressecção, quando pequenas e afastadas de estruturas críticas, entram na lógica de SRS descrita no capítulo.

WBRT: princípios de planejamento e delineamento

O planejamento de WBRT usa tomografia sem contraste do vértex até a coluna cervical alta, com cortes axiais de até 2,5 mm. O paciente fica em decúbito dorsal, cabeça neutra, com máscara termoplástica, e o campo de visão indicado é de 600 mm.

Quando o objetivo inclui preservar cognição, o capítulo recomenda duas estratégias: memantina e/ou hippocampal avoidance WBRT. Aqui não há espaço para improviso. A preservação hipocampal depende de fusão da tomografia de planejamento com ressonância magnética com gadolínio, usando sequência tridimensional spoiled gradient e cortes axiais de 1,25 a 1,5 mm para definir a região de avoidance. Pela diretriz do RTOG 0933 mostrada na figura, apenas a porção SGZ dos hipocampos é contornada, seguida por expansão volumétrica de 5 mm. O PTV corresponde a todo o tecido cerebral menos essa expansão dos hipocampos, sem margem adicional de setup.

Nos arranjos convencionais, a técnica típica é 3D-CRT com feixes laterais opostos de 6 MV e bloqueio por MLC. A figura abaixo resume o campo padrão com o par de feixes rotacionado levemente em RAO/LAO para proteger as lentes e manter cobertura da placa cribriforme e dos lobos temporais.

Campos padrão de WBRT com cobertura da placa cribriforme e proteção das lentes em metástases cerebrais
Campos padrão de WBRT com cobertura da placa cribriforme, proteção das lentes e cobertura adequada dos lobos temporais. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup: A Practical Guide for Conformal and Intensity-Modulated Radiation Therapy, 2nd Edition

Campos sugeridos para WBRT

A Tabela 28.1 organiza os cenários clínicos, a técnica escolhida e os detalhes geométricos que realmente mudam o campo. Ela também deixa claro quando o planejamento sai do arranjo lateral oposto convencional e passa para IMRT/VMAT com preservação hipocampal.

Aspecto WBRT convencional Doença leptomeníngea Linfoma/leucemia Poupança de couro cabeludo HA-WBRT
Cenário clínico Metástases cerebrais difusas, numerosas ou “too many to count”; PCI para câncer de pulmão de pequenas células. Doença leptomeníngea. Profilaxia do SNC para ALL; leucemia do SNC de alto risco. Quando o resultado cosmético é prioridade e a técnica pode produzir um “reverse Mohawk”. Metástases cerebrais difusas, numerosas ou “too many to count”; PCI para câncer de pulmão de pequenas células; exclusão se a lesão estiver a menos de 5 mm do hipocampo.
Técnica 3D-CRT com feixes laterais opostos, levemente fora do eixo, em RAO/LAO, para evitar divergência para as lentes. 3D-CRT com feixes laterais opostos, levemente fora do eixo, em RAO/LAO, para evitar divergência para as lentes. 3D-CRT com feixes laterais opostos, levemente fora do eixo, em RAO/LAO, para evitar divergência para as lentes. 3D-CRT com feixes laterais opostos, levemente fora do eixo, em RAO/LAO, para evitar divergência para as lentes. IMRT/VMAT.
Volumes-alvo e margens Todo o conteúdo craniano. Todo o conteúdo craniano, mais nervos ópticos, região retro-orbitária e lâmina crivosa. Todo o conteúdo craniano, mais nervos ópticos, região retro-orbitária, retina e, se houver comprometimento ocular, todo o globo. Todo o conteúdo craniano. CTV: todo o parênquima cerebral até o forame magno. PTV: CTV menos os hipocampos com expansão de 5 mm, sem margem adicional de setup.
Bordas de campo e cobertura Superior: 2 cm de flash. Posterior: 2 cm de flash com ou sem bloqueio posterior do pescoço por MLC para proteger partes moles. Inferior: base de C1. Anterior: bloqueio por MLC de 2 cm de flash até o aspecto anterior de C1, bloqueando parótidas e lentes. Cobrir lobos temporais e placa cribriforme. Cobrir lobos temporais e placa cribriforme com margem adicional de 8-10 mm para penumbra e setup diário. Cobrir lobos temporais e placa cribriforme com margem adicional de 8-10 mm para penumbra e setup diário; cobrir o terço posterior dos globos se não houver envolvimento ocular ao exame em lâmpada de fenda, ou ambos os globos inteiros se houver envolvimento ocular. Borda do MLC posicionada na tábua externa da calvária. Não há bordas geométricas convencionais descritas; o capítulo descreve o planejamento inverso com preservação dos hipocampos.
Restrições de estruturas normais Metástases cerebrais: hipocampos com D100% ≤ 9 Gy e Dmax ≤ 16 Gy; nervos ópticos e quiasma com Dmax ≤ 30 Gy. PCI para câncer de pulmão de pequenas células: hipocampos com D100% ≤ 7,5 Gy e Dmax ≤ 13,5 Gy; nervos ópticos e quiasma com Dmax ≤ 25 Gy.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 28.1)

As variações da técnica convencional evitam um erro comum: tratar todos os casos como se fossem iguais. Na doença leptomeníngea, o campo se afasta mais da placa cribriforme. Em linfoma ou leucemia do SNC, a cobertura orbitária muda. Na poupanca do couro cabeludo, a borda do MLC vai para a tábua externa da calvária.

Variações dos campos de WBRT para doença leptomeníngea, linfoma ou leucemia do SNC e técnica de poupanca do couro cabeludo
Variações dos campos de WBRT para situações clínicas específicas descritas na Tabela 28.1. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup: A Practical Guide for Conformal and Intensity-Modulated Radiation Therapy, 2nd Edition

Dose e fracionamento em WBRT

A Tabela 28.2 resume um ponto simples, mas decisivo: o contexto clínico muda a prescrição. O texto mantém os esquemas mais usados para metástases cerebrais e doença leptomeníngea, mas também inclui reirradiação, PCI e profilaxia do SNC.

Cenário clínico Dose e fracionamento
WBRT, doença leptomeníngea 30 Gy em 10 frações (mais comum); 37,5 Gy em 15 frações (RTOG); 30 Gy em 12 frações; 20 Gy em 5 frações para pior prognóstico.
Reirradiação com WBRT 20-25 Gy em 10 frações, com intervalo mínimo de 4-6 meses.
PCI para câncer de pulmão de pequenas células 25 Gy em 10 frações (mais comum).
Profilaxia do SNC para ALL 12 Gy em 8 frações.
Leucemia do SNC de alto risco ≥18 Gy em 9-10 frações, com dose baseada na intensidade da terapia sistêmica.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 28.2)

Na verificação de setup, o capítulo usa filmes ortogonais semanais com imagem MV e reserva o kV diário, em geral, para WBRT baseada em IMRT.

Hippocampal avoidance WBRT com fusão de CT e ressonância pós-contraste e expansão de 5 mm ao redor dos hipocampos
HA-WBRT com fusão de CT e ressonância pós-contraste, contorno da porção SGZ dos hipocampos e expansão de 5 mm para a zona de avoidance. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup: A Practical Guide for Conformal and Intensity-Modulated Radiation Therapy, 2nd Edition

A figura de HA-WBRT resume o ponto central: a cobertura continua difusa, mas o desenho do plano passa a ser condicionado pelas estruturas ligadas à memória e pelas restrições no aparelho óptico.

SRS: princípios de planejamento e delineamento

A seção de SRS entra direto no ponto clínico. As situações contempladas são SRS em fração única e SRS fracionada, de 2 a 5 frações, tanto para metástases intactas quanto para cavidade pós-ressecção. O fracionamento depende do tamanho ou volume do alvo e da distância para estruturas críticas. O instrumental pode ser Leksell Gamma Knife baseada em cobalto, com sistema frame-based ou frameless, ou plataformas baseadas em LINAC.

Para delinear alvo e planejar tratamento, o texto prefere ressonância magnética T1 volumétrica com contraste, em cortes de 1 a 2 mm. Se o paciente não tolera ressonância ou tem dispositivo implantado incompatível, a alternativa é tomografia contrastada. Em SRS com LINAC, uma tomografia de cortes finos é adquirida e rigidamente co-registrada, e a imagem diária passa de recomendação a exigência. Isso faz sentido: sem verificação diária, qualquer margem mínima perde o valor.

Em metástases intactas, a regra é enxuta: GTV igual à lesão que realça na sequência T1 e CTV igual a GTV + 0 mm. O capítulo preserva a simplicidade porque o ganho da SRS está justamente na seletividade do volume. A discussão fica mais rica quando entra a cavidade pós-operatória, onde duas metodologias distintas convivem.

No método 1, a cavidade vista na ressonância pós-contraste recebe expansão uniforme de 2 mm. No método 2, o CTV inclui a região com realce, a cavidade cirúrgica e o trajeto cirúrgico, com 5 a 10 mm ao longo do retalho ósseo se havia contato dural pré-operatório, 1 a 5 mm se não havia esse contato e mais 1 a 5 mm ao longo do seio venoso quando existia contato tumoral com o seio.

A figura dedicada à cavidade pós-ressecção mostra um caso temporal esquerdo de 24 mm após ressecção total de metástase retal de 33 mm, com contato dural pré-operatório e sem contato com seio venoso. A escolha foi dose única, porque a cavidade tinha menos de 3 cm e distância adequada de estruturas delicadas. Como o tratamento foi feito em Leksell Gamma Knife, o PTV ficou igual ao CTV, sem expansão adicional.

Comparação entre os métodos 1 e 2 de delineamento da cavidade pós-operatória para SRS em metástase cerebral
Comparação entre os métodos 1 e 2 de delineamento da cavidade pós-operatória para SRS, incluindo cavidade cirúrgica, trajeto cirúrgico e margens ao longo do retalho ósseo. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup: A Practical Guide for Conformal and Intensity-Modulated Radiation Therapy, 2nd Edition

Delineamento de alvo em SRS

A Tabela 28.3 mostra duas filosofias claras para a cavidade pós-operatória. Uma usa expansão uniforme de 2 mm; a outra incorpora a cavidade, o trajeto cirúrgico e extensões ao longo do retalho ósseo ou do seio venoso quando havia contato pré-operatório.

Situação GTV CTV
Metástases cerebrais não ressecadas Lesão com realce ao contraste na sequência T1 da ressonância magnética. GTV + 0 mm.
Cavidade pós-operatória após ressecção total macroscópica (método 1) [2] n/a Expansão de 2 mm ao redor dos limites da cavidade de ressecção vistos na ressonância pós-contraste.
Cavidade pós-operatória após ressecção total macroscópica (método 2) [3] n/a Toda a região com realce ao contraste, a cavidade cirúrgica e o trajeto cirúrgico vistos na ressonância pós-operatória; margem de 5-10 mm ao longo do retalho ósseo além da região inicial de contato tumoral pré-operatório se o tumor tocava a dura; margem de 1-5 mm ao longo do retalho ósseo se o tumor não tocava a dura; margem de 1-5 mm ao longo do seio venoso se havia contato tumoral inicial com o seio.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 28.3)

O segundo exemplo do capítulo descreve quatro novas metástases de câncer de mama, entre 6 e 20 mm e volumes de 0,07 a 1,92 cm3, em paciente previamente irradiada com WBRT de 30 Gy em 10 frações. Todas estavam a distância adequada de estruturas delicadas e foram tratadas com Gamma Knife em fração única, com GTV igual ao realce em T1 pós-gadolínio e expansão de 0 mm para CTV e PTV.

Dose de SRS e restrições para órgãos de risco

A Tabela 28.4 deixa a lógica prática bem visível. Lesões menores e cavidades pequenas permanecem candidatas a fração única; quando o volume cresce ou a relação com estruturas críticas muda, os esquemas em 3 ou 5 frações entram em cena.

Esquema 1 fração 3 frações 5 frações
Dose no PTV (cavidade pós-operatória) 20 Gy (<4,2 cm3)
18 Gy (≥4,2 a <8,0 cm3)
17 Gy (≥8,0 a <14,4 cm3)
15 Gy (≥14,4 a <20 cm3)
14 Gy (≥20 a <30 cm3)
12 Gy (≥30 cm3)
27 Gy (<30 cm3) 30 Gy (≥30 cm3 e <5 cm)
Dose no PTV (metástases não ressecadas) 24 Gy (<1 cm)
22 Gy (≥1,0 a <2,0 cm)
18 Gy (≥2,0 a <3,0 cm)
15 Gy (≥3,0 a <4,0 cm)
27 Gy 30 Gy
Restrição para tronco encefálico V12 Gy < 1 cm3
V18 Gy < 0,5 cm3
23,1 Gy máximo
V23 Gy < 0,5 cm3
28 Gy máximo
Restrição para aparato óptico 9 Gy máximo 17,4 Gy máximo
V13,8 Gy < 0,2 cm3
23 Gy máximo
V20 Gy < 0,2 cm3

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 28.4)

As doses deixam evidente uma diferença prática importante. Para cavidades pós-operatórias pequenas, o capítulo aceita 20 Gy em dose única quando o volume é menor que 4,2 cm3, mas reduz progressivamente a prescrição conforme o volume aumenta até o grupo com 30 cm3 ou mais. Quando a cavidade é maior, mas ainda com menos de 5 cm, entra o esquema de 30 Gy em 5 frações. Nas metástases não ressecadas, o raciocínio muda para diâmetro: 24 Gy em lesões menores que 1 cm, 22 Gy entre 1,0 e menos de 2,0 cm, 18 Gy entre 2,0 e menos de 3,0 cm e 15 Gy entre 3,0 e menos de 4,0 cm.

As restrições de tronco encefálico e aparato óptico também mostram por que a distância a estruturas críticas pesa tanto na decisão. Em 1 fração, o aparato óptico fica limitado a 9 Gy máximos e o tronco encefálico a V12 Gy menor que 1 cm3 e V18 Gy menor que 0,5 cm3. Em 3 frações, o limite do tronco sobe para 23,1 Gy máximos com V23 Gy menor que 0,5 cm3, enquanto o aparato óptico fica em 17,4 Gy máximos e V13,8 Gy menor que 0,2 cm3. Em 5 frações, os máximos passam para 28 Gy no tronco e 23 Gy no aparato óptico, mantendo V20 Gy menor que 0,2 cm3 para o aparato óptico.

Se há um fio condutor entre as duas partes do capítulo, ele é simples: em metástases cerebrais, técnica e volume-alvo caminham juntos. A WBRT cobre o crânio inteiro e aceita adaptações para leptomeníngea, linfoma, leucemia, poupanca de couro cabeludo e preservação hipocampal. A SRS trabalha com ressonância fina, margens mínimas e seleção rigorosa por tamanho, volume e proximidade de estruturas críticas. Ler as duas estratégias lado a lado ajuda a evitar o erro mais comum nesse cenário: tratar problemas clínicos muito diferentes como se pedissem o mesmo plano.

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