RM aponta maior carga de sintomas neurológicos em ex-jogadores de futebol
Ex-jogadores profissionais de futebol de elite apresentam, já na meia-idade, maior carga de sintomas neuropsiquiátricos e alterações estruturais no cérebro visíveis na ressonância magnética (RM), segundo pesquisa apresentada em 12 de julho de 2026 na Alzheimer’s Association International Conference (AAIC), em Londres. O estudo comparou 142 ex-atletas com 56 controles saudáveis e encontrou mais depressão, mais ansiedade e menor volume de massa cinzenta em regiões ligadas à memória, à atenção e à regulação emocional, mesmo antes de qualquer doença neurodegenerativa clinicamente evidente.

Como o estudo foi conduzido
A pesquisa foi liderada por Caleigh Grace Lynch, do Departamento de Ciências do Cérebro, e pelo Dr. Thomas D. Parker, professor clínico de neurologia, ambos do UK Dementia Research Institute Centre for Care Research and Technology do Imperial College London. O trabalho integra o programa de pesquisa da Advanced BRAIN Health Clinic, no Institute of Sport, Exercise and Health, e foi financiado pela Football Association (FA) e pela Professional Footballers’ Association (PFA), entidades que reúnem a base do futebol profissional britânico.
Foram avaliados 142 ex-jogadores profissionais (126 homens e 16 mulheres), com idades entre 30 e 60 anos, comparados a 56 participantes-controle (43 homens e 13 mulheres) sem histórico de esportes de contato ou de impactos repetidos na cabeça. Cada participante passou por avaliações padronizadas de depressão e ansiedade, testes cognitivos objetivos e autoavaliação de funções como planejamento, foco e resolução de problemas. Um total de 124 ex-atletas realizou RM cerebral, com os exames revisados por neurorradiologista experiente.
Os números foram expressivos. Entre os ex-jogadores, 31% pontuaram na faixa de depressão clinicamente significativa, contra apenas 9% dos controles; e 42% relataram ansiedade clinicamente significativa, ante 25% do grupo-controle. Na RM, os ex-atletas exibiram menor volume de massa cinzenta em regiões frontais, do cíngulo e do tálamo, áreas envolvidas em memória, atenção, tomada de decisão e regulação emocional. Cerca de 2% dos exames mostraram atrofia sugestiva de neurodegeneração clinicamente relevante. Curiosamente, os testes cognitivos objetivos não revelaram diferenças significativas entre os grupos, um contraste importante em relação às queixas subjetivas relatadas.
O que a ressonância magnética consegue mostrar
A RM é a ferramenta de escolha para avaliar a estrutura do encéfalo porque quantifica com precisão o volume de massa cinzenta e branca, sem radiação ionizante. Técnicas de morfometria baseada em voxel permitem detectar reduções sutis de volume regional muito antes de os sintomas clínicos aparecerem. Esse tipo de biomarcador de imagem vem ganhando espaço no rastreamento de doenças neurodegenerativas, como discutimos ao abordar o MR-AIV e o mapeamento do fluxo cerebral no Alzheimer e a RM amplificada que visualiza as pulsações do cérebro.
O padrão encontrado, com perda de massa cinzenta frontal e do cíngulo associada a sintomas de humor, é coerente com a hipótese de que impactos repetidos na cabeça, incluindo o cabeceio, deixam marcas mensuráveis no tecido cerebral. Ainda assim, os autores foram cautelosos: a maioria dos exames era individualmente normal, e a ausência de déficit cognitivo objetivo sugere que se trata de alterações precoces, e não de demência já estabelecida. A leitura estruturada e a comparação com bancos normativos de volumetria são decisivas para interpretar esses dados com segurança.
Implicações para a prática clínica
Para o radiologista e o clínico, o achado reforça o valor da RM estrutural na avaliação de atletas e ex-atletas com queixas neuropsiquiátricas. Protocolos volumétricos padronizados e comparações longitudinais podem ajudar a diferenciar o envelhecimento normal de processos patológicos incipientes. O estudo também destaca a importância de não negligenciar sintomas de depressão e ansiedade nessa população, que podem ser as primeiras manifestações clínicas, muitas vezes antes de qualquer alteração cognitiva mensurável.
No Brasil, país com enorme base de jogadores profissionais e amadores, o tema é especialmente relevante. Serviços de imagem e de medicina esportiva podem se beneficiar de protocolos de acompanhamento que combinem RM cerebral, avaliação neuropsicológica e triagem de saúde mental. A detecção precoce abre espaço para intervenções, como controle de fatores de risco, manejo do humor e monitoramento contínuo, antes que o quadro evolua para comprometimento cognitivo.
Próximos passos e limitações
Por se tratar de estudo transversal apresentado em congresso, os resultados ainda não passaram por revisão por pares completa e não estabelecem relação causal direta entre o futebol e as alterações cerebrais. Outras apresentações na AAIC 2026 reforçaram essa linha de investigação: pesquisadores do Amsterdam UMC relacionaram a exposição ao cabeceio a biomarcadores de lesão neural, como p-tau217 e S100B, enquanto grupos da Indiana University e da Boston University associaram maior tempo de carreira e patologia de tau e amiloide ao risco de encefalopatia traumática crônica (ETC). Essa mesma frente de pesquisa se conecta ao novo PET de tau capaz de detectar sinais de ETC em vida.
Os autores planejam acompanhamento longitudinal para verificar se as alterações de imagem progridem e se predizem declínio cognitivo futuro. Enquanto isso, a mensagem central é de vigilância: há efeitos mensuráveis na saúde cerebral de ex-jogadores de elite já na meia-idade, o que justifica maior atenção clínica, aconselhamento aos atletas e mais pesquisa sobre prevenção e diagnóstico precoce.
Fonte: AuntMinnie – estudo apresentado na AAIC 2026 (Imperial College London).




