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Pesquisadores de cinco hospitais pediátricos norte-americanos analisaram seis anos de eventos de segurança em ressonância magnética e chegaram a um número que assusta menos pela frequência e mais pela origem: 60% dos acidentes ocorreram porque algum protocolo não foi cumprido. O levantamento, publicado no Journal of the American College of Radiology (JACR), mapeia 146 incidentes registrados na Zona IV entre 2017 e 2022 — a área de maior risco do modelo de quatro zonas do American College of Radiology, onde está o magneto.

O que mostram os números

Em termos absolutos, a taxa parece baixa: 0,027% dos exames, ou 146 eventos em 541 mil ressonâncias pediátricas. Convertido para escala clínica, isso equivale a 3,3 eventos por 100 mil exames, com média de 4,9 incidentes por ano em cada um dos cinco centros. Quando se olha para a natureza dos eventos, a fotografia muda de tom.

Criança realizando exame de ressonância magnética pediátrica em sala blindada
RM pediátrica exige protocolos específicos: cuidadores acompanham na sala e sedação é frequente, ampliando o risco de incidentes na Zona IV.

O detalhamento dos 146 eventos revela três grupos dominantes: projetéis respondem por 30%, lesões térmicas e queimaduras por 13% e ocorrências envolvendo implantes por 10%. Em 78 episódios (53%), o paciente foi diretamente afetado. Dez eventos (6,8%) foram classificados como graves. Itens recorrentes nas ocorrências de projétil incluem equipamentos de anestesia, monitores, estetoscópios, agulhas, telefones celulares e crachás de identificação — objetos que entram na sala porque a rotina pediátrica admite, com razão, a presença de cuidadores e anestesiologistas dentro da Zona IV.

Por que a pediatria muda o cálculo de risco

A radiologia pediátrica tem variáveis que não aparecem com o mesmo peso na rotina adulta. Crianças pequenas raramente conseguem ficar imóveis pelo tempo necessário, o que leva ao uso de sedação ou anestesia geral em parte significativa dos exames. Isso traz para a sala de RM equipamentos com componentes metálicos e baterias, além de profissionais que talvez não tenham treinamento de segurança magnética tão consolidado quanto o do técnico de RM. Cuidadores também entram na Zona IV para tranquilizar o paciente — e levam, sem perceber, chaves, telefones e até implantes próprios.

Outro vetor crescente é o de dispositivos implantáveis. Os autores chamam atenção para o fato de que 20% a 30% das crianças encaminhadas para RM já possuem algum implante — implantes cocleares, válvulas de derivação, expansores tissulares, cateteres venosos centrais. Houve eventos de segurança envolvendo implantes mesmo quando os serviços seguiram à risca as orientações do fabricante, o que sugere que a documentação do fornecedor nem sempre cobre todas as condições do exame.

Detalhes do estudo

O grupo analisou registros de incidentes de cinco hospitais infantis acadêmicos dos Estados Unidos no período de 2017 a 2022, segmentando os eventos pelas categorias do American College of Radiology. A definição estrita de “Zona IV” exclui ocorrências em salas de preparo ou recuperação e foca no entorno do magneto e em corredores de acesso direto. A metodologia permite comparar serviços de diferentes portes porque normaliza pelo volume de exames realizados.

Além das categorias mais conhecidas — projéteis, queimaduras e implantes — a planilha incluiu falhas na verificação pré-exame, problemas com sensores de monitorização, distensões em pacientes durante posicionamento e episódios envolvendo o resfriamento criogênico do magneto. A heterogeneidade reforça que o risco em pediatria não é dominado por um único modo de falha, mas distribuído por toda a cadeia do exame.

Implicações para a prática clínica

O dado mais incômodo é também o mais acionável: se 60% dos eventos resultam de protocolos não seguidos, a curva de risco pode ser reduzida sem grande investimento tecnológico. Serviços de imagem pediátrica podem revisar listas de checagem, treinamentos obrigatórios anuais e a triagem de acompanhantes — incluindo metal detectors específicos para ambiente de RM. Vale lembrar que algumas equipes — sobretudo anestesistas e enfermeiros vindos do bloco cirúrgico — entram na sala de RM esporadicamente e precisam de orientação repetida.

No contexto brasileiro, onde muitos serviços compartilham equipes entre adultos e crianças, o estudo ajuda a justificar uma política de “buddy check” antes da entrada do paciente sedado e a padronização de carrinhos de anestesia compatíveis com RM. A rotina compartilhada também é um lembrete importante para hospitais que terceirizam a anestesia: o treinamento de segurança magnética precisa acompanhar o contrato. Outras pesquisas recentes mostram que a sobrecarga ergonômica dos radiologistas eleva a chance de erros operacionais quando o time está fatigado, o que reforça a importância de cobrir a etapa de checagem.

Tecnologia, IA e o futuro do controle de Zona IV

O setor já caminha para apoios automáticos que mitigam a falha humana. Sistemas de visão computacional para portas e câmeras térmicas em paredes da Zona IV começam a emitir alertas quando detectam objetos ferromagnéticos próximos do magneto. Soluções de detecção de implantes via radiografia simples ou TC de baixa dose também ganham espaço — e dialogam com a tendência mais ampla de imagem oportunística, em que algoritmos analisam dados pediátricos para gerar informação clínica adicional sem necessidade de exames extras.

Para serviços que estão repensando o fluxo, plataformas de RM com configurações pediátricas dedicadas — como as discutidas em novos sistemas de RM aberta de alto desempenho — podem reduzir o tempo do exame e, por consequência, a janela de exposição ao risco.

Perspectivas e limitações

Os autores reconhecem que cinco hospitais não representam a diversidade dos serviços americanos, e há subnotificação inerente a estudos baseados em registros voluntários. Mesmo assim, o estudo oferece o melhor benchmark recente para um segmento pouco estudado — e estabelece uma régua que serviços brasileiros e latino-americanos podem usar para auditar suas próprias estatísticas. A mensagem central da pesquisa cabe em uma frase: crianças não devem ser tratadas como “mini adultos” na RM, e protocolos só protegem quando são executados.

Fonte: The Imaging Wire — Pediatric MRI Safety Surveyed (10/05/2026)