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A ressonância magnética (RM) pode aposentar o toque retal no estadiamento do câncer de próstata. Um estudo publicado na revista JAMA Network Open concluiu que a RM tem desempenho equivalente ao exame digital para determinar a extensão da doença, e em alguns desfechos até o supera. A conclusão reforça o papel cada vez mais central da imagem por RM no manejo dos homens com câncer de próstata clinicamente significativo.

Ressonância magnética multiparamétrica da próstata exibida em estação de trabalho com segmentação da glândula
RM multiparamétrica da próstata: estudo indica que o exame pode substituir o toque retal no estadiamento.

O que o estudo encontrou

Pesquisadores da Alemanha analisaram dados de 4,4 mil homens com idade mediana de 66 anos e nível mediano de PSA de 7,4 ng/mL — lembrando que valores acima de 3 ng/mL costumam motivar investigação adicional. Todos os pacientes estavam programados para prostatectomia radical, o que permitiu confrontar as previsões dos exames com o resultado cirúrgico real.

Cada participante passou por toque retal, usado para atribuir o estágio clínico T e avaliar características de gravidade do tumor, como extensão local, extensão extracapsular e invasão das vesículas seminais. Esses achados foram comparados aos de exames de RM multiparamétrica realizados em equipamentos de 1,5 T ou 3 T, com os dados reportados pela escala PI-RADS. O desfecho primário foi a sobrevida livre de metástases à distância.

No conjunto de pacientes, o estadiamento por RM mostrou-se ligeiramente mais preciso do que o toque retal para prever a sobrevida livre de recorrência bioquímica, com índice C de 0,62 (em que 0,5 representa acaso e 1 significa previsão perfeita). A RM também foi superior na previsão da sobrevida livre de metástases à distância, com índice C de 0,67. Já quando os autores aplicaram quatro dos principais sistemas europeus de classificação de risco do câncer de próstata, RM e toque retal ficaram equiparados.

Entendendo os conceitos por trás dos números

Para quem não é especialista, vale destacar alguns termos. O estadiamento clínico T descreve o quanto o tumor se estende dentro e ao redor da próstata; a extensão extracapsular indica que o câncer rompeu a cápsula do órgão; e a invasão das vesículas seminais sinaliza doença mais avançada. São informações decisivas para escolher entre vigilância ativa, cirurgia, radioterapia ou terapias combinadas.

A RM multiparamétrica combina diferentes sequências de imagem — anatômica, de difusão e com contraste dinâmico — para mapear a próstata com riqueza de detalhes. A escala PI-RADS, por sua vez, padroniza a leitura dos exames e estima a probabilidade de câncer clinicamente significativo, o que a tornou uma linguagem comum entre radiologistas e urologistas. O índice C (ou estatística de concordância) mede a capacidade de um modelo de ordenar corretamente quem terá pior desfecho, e por isso foi escolhido para comparar as duas estratégias.

Implicações para a prática clínica

A vantagem da RM sobre o toque retal não foi enorme, mas os autores consideraram suficiente para sugerir que o exame digital seja eliminado em favor da investigação por imagem na maioria dos casos. A troca ajudaria a contornar limitações históricas do toque retal, como subjetividade, dependência do examinador e capacidade restrita de avaliar extensão extracapsular ou invasão das vesículas seminais.

No Brasil, onde o câncer de próstata é o tumor mais frequente entre os homens depois do câncer de pele, a ampliação do acesso à RM pode qualificar o encaminhamento e reduzir procedimentos desnecessários. O gargalo, porém, é a disponibilidade de equipamentos e de radiologistas treinados em PI-RADS, sobretudo na rede pública, onde muitos pacientes ainda dependem de filas longas e de exames descentralizados. Padronizar laudos e investir em capacitação seriam passos indispensáveis para colher, no país, os benefícios que o estudo alemão descreve. Iniciativas que aumentam a produtividade da imagem, como as descritas em soluções de IA que reduzem o tempo de espera por ressonância, tendem a ser aliadas nessa transição, ao liberar agenda e priorizar os casos de maior risco. Técnicas emergentes como o RM fingerprinting para identificar lesões de próstata também apontam para um estadiamento cada vez mais objetivo e menos dependente da experiência individual de cada examinador.

Perspectivas e limitações

O estudo tem a força de reunir uma amostra grande e de usar a peça cirúrgica como referência, mas se restringe a homens já indicados para prostatectomia radical — um grupo com doença mais avançada, que não representa todo o espectro de pacientes. A diferença modesta de desempenho e a equivalência frente aos sistemas de classificação de risco pedem cautela antes de abandonar por completo o exame físico. Ainda assim, o trabalho consolida a ideia de que o papel da RM no câncer de próstata vai muito além do rastreamento e alcança o estadiamento, terreno em que se conecta a estratégias de terapia focal guiada por imagem e inteligência artificial. Para o paciente, o horizonte é de menos exames invasivos e decisões terapêuticas mais precisas.

Fonte: The Imaging Wire