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O delineamento de volume alvo no adenocarcinoma de próstata só funciona bem quando a IMRT vem acompanhada de contorno milimétrico e verificação diária de posição. O capítulo dedica toda a discussão a esse ponto: como definir próstata, vesículas seminais, loja prostática e linfonodos pélvicos sem perder cobertura tumoral nem ampliar toxicidade desnecessariamente.

Depois da confirmação patológica, a avaliação inicial inclui toque retal, escores de função urinária e erétil e exames laboratoriais relevantes, com PSA e estudos adicionais se houver terapia de privação androgênica planejada. No MSKCC, a mpMRI é recomendada para praticamente todos os pacientes, salvo contraindicação, porque ajuda a detectar doença de alto grau subamostrada, medir o volume prostático, localizar o tumor dominante, estimar extensão extraprostática e invasão de vesículas seminais e ainda identificar doença macroscópica no pós-operatório que possa justificar escalonamento de dose. Para uma visão mais ampla do tema, confira nosso Target Volume Delineation and Field Setup – Complete Clinical Guide.

Quando a radioterapia externa entra em combinação com boost de braquiterapia, a uretra ganha peso ainda maior como estrutura de evitação. Esse raciocínio aparece no capítulo ao justificar o uso de Foley em certas simulações; para revisar o pano de fundo dosimétrico desse cenário, vale ler também nosso artigo sobre TSET e Braquiterapia: Monte Carlo na Prática.

Simulação, RM e preparo diário

A etapa de simulação define boa parte da reprodutibilidade do tratamento. No fluxo descrito pelos autores, a preferência institucional é por simulação e planejamento baseados apenas em RM nos tratamentos definitivos e nos casos pós-operatórios com recorrência local macroscópica; quando isso não é possível, a alternativa é uma tomografia com cortes de 2 mm fusionada a uma RM de 3 T obtida na posição de tratamento.

Nos tratamentos definitivos, três marcadores fiduciais são implantados na base, no terço médio e no ápice pelo menos cinco dias antes da simulação, com possibilidade de acrescentar um espaçador retal se não houver extensão extraprostática posterior. Se a estratégia envolver escalonamento de dose para suspeita de recorrência local macroscópica após cirurgia, os fiduciais podem ser colocados no momento das biópsias. O capítulo também padroniza o preparo intestinal: dieta pobre em gordura e em resíduos, suplemento de fibras e simeticona iniciados uma semana antes da simulação e mantidos durante o tratamento, além de enema três horas antes da simulação e, quando necessário, antes das frações.

A bexiga cheia não fica como detalhe operacional. A orientação é ingerir 16 onças de água 45 minutos antes da simulação e dos tratamentos. Para a uretra, o protocolo usa sonda Foley nas simulações de SBRT e nas combinações de EBRT com boost de braquiterapia, embora o texto cite a alternativa de delineamento uretral em RM descrita por Zakian e colaboradores. O posicionamento é em decúbito dorsal, com imobilização de pernas e pelve; nos tratamentos ultrahipofracionados, o setup precisa ser validado previamente e pode ser com sistema frame ou frameless. No MSKCC, os pacientes são imobilizados em um molde termoplástico que vai do abdome médio à metade das coxas e conforma a face interna das pernas, com almofada de joelho para estabilidade extra.

Os limites da tomografia vão de L2 ao fêmur médio. O isocentro fica na próstata ou na loja prostática; se a pelve nodal entrar no plano, o ponto de referência sobe para o topo das cabeças femorais. A fusão RM-TC fica melhor quando o registro respeita a interface bexiga-próstata, frequentemente alterada por diferenças de pitch entre os exames, e quando também se confere anatomia óssea e fiduciais em sequências como T1 SPGR ou 3D BFFE. Esse cuidado parece banal até o momento em que alguns milímetros mudam o ápice, a cápsula posterior ou a extensão para vesículas seminais.

Delineamento do CTV definitivo

No cenário definitivo, o CTV prostático inclui a próstata inteira e cobre as vesículas seminais de acordo com o risco de invasão. A mpMRI diagnóstica entra aqui como ferramenta de segurança: ela ajuda a garantir que tumor macroscópico e extensão extraprostática sejam incorporados ao volume, em vez de ficarem diluídos por uma leitura baseada apenas em TC.

Projeção tridimensional do volume alvo clínico da próstata em vistas AP, lateral e oblíquas para checagem anatômica de base, ápice e vesículas seminais
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Os autores chamam atenção para o plano axial T2 como a sequência mais útil na definição da próstata. O início do contorno costuma ocorrer no nível médio da glândula, justamente onde cápsula posterior e vesículas seminais aparecem com mais clareza. A partir daí, os limites ficam organizados por referências anatômicas concretas: lateralmente, o volume permanece dentro do levantador do ânus; anteriormente, o marco é o estroma fibromuscular anterior; posteriormente, vale a interface com o reto ou com o espaçador retal nos casos de SBRT; inferiormente, o ápice deve ser reconhecido em relação ao padrão em “ampulheta” do diafragma urogenital descrito por McLaughlin e colegas; superiormente, o contorno chega ao nível da bexiga.

A cobertura das vesículas seminais também precisa ser disciplinada. O capítulo descreve incluir de 5 a 10 mm proximais ou a extensão completa, conforme o risco de invasão, e recomenda revisar planos sagital e coronal, além de uma avaliação tridimensional do volume. Essa checagem não é meramente estética. Na projeção 3D da Fig. 25.2, o aspecto esperado é o de uma glândula relativamente globosa sustentando superiormente uma estrutura alada correspondente às vesículas seminais. Se o “pedestal” inferior se alonga demais, o contorno provavelmente desceu além do necessário para dentro do diafragma urogenital. Se o formato se torna irregular de corte para corte, o problema pode ser compensação excessiva de deformação ou movimento do órgão.

A legenda da Fig. 25.1 reforça outro ponto útil na prática: o espaçador retal hidrogélico aparece melhor na RM T2, mas a adição de contraste iodado pode facilitar sua delimitação mesmo sem depender da RM. Para quem trabalha em ambientes com fluxos híbridos de imagem, isso tem valor concreto, porque reduz a chance de perder o limite posterior real entre próstata e reto.

Tabela prática de volumes, doses e margens

A Tabela 25.1 concentra o núcleo operacional do capítulo. Em vez de tratar dose, fracionamento e margem como decisões separadas, ela mostra como cada regime muda o PTV e o tipo de volume que precisa ser coberto.

Tabela 25.1 — Volumes sugeridos para EBRT e conceitos de contorno

Os autores organizam os cenários em tratamento definitivo, pós-operatório e pelve nodal eletiva, sempre vinculando dose, margem e descrição anatômica do alvo.

Cenário Protocolo Dose por fração Esquema usado no MSKCC Margem de PTV Descrição do CTV / observações
Definitivo Convencional 180-200 cGy 81-86.4 Gy em 45-48 frações 6 mm, exceto 5 mm posteriormente CTVpros = próstata inteira com cobertura variável das vesículas seminais conforme o risco de invasão. A mpMRI diagnóstica deve ser usada para garantir inclusão de tumor macroscópico e EPE. O texto observa que esse regime é usado raramente no MSKCC.
Definitivo Hipofracionado moderado 240-300 cGy 70.2 Gy em 26 frações 5 mm, exceto 3 mm posteriormente Mesma lógica anatômica do CTV prostático, com início do contorno no nível médio da glândula onde cápsula posterior e vesículas seminais ficam mais definidas. É a opção padrão de EBRT no MSKCC quando o paciente não é candidato a braquiterapia nem a SBRT. Se houver tratamento de linfonodos pélvicos, o capítulo remete ao volume nodal dedicado.
Definitivo Ultra-hipofracionado (SBRT/SABR) >500 cGy 40 Gy em 5 frações, em dias alternados 5 mm, exceto 3 mm posteriormente Indicado para pacientes de baixo e intermediário risco com boa função urinária. O limite posterior segue a interface retal ou o espaçador; inferiormente o ápice deve ser reconhecido em relação ao diafragma urogenital; superiormente a referência é a bexiga; as vesículas seminais entram com 5-10 mm proximais ou cobertura total conforme o risco.
Pós-operatório Convencional 180 cGy 72 Gy em 40 frações, com boost até 78 Gy para doença macroscópica 6 mm, exceto 5 mm posteriormente CTV da loja prostática dentro das orientações RTOG. Limite inferior em torno de 10 mm abaixo da anastomose vesicouretral na última fatia que ainda mostra urina. Anteriormente, a referência é a sínfise púbica e o volume não deve avançar para o bulbo peniano. Posteriormente, acompanha a parede anterior do reto ou afunila para fora da bexiga ao longo de quatro cortes. Lateralmente, usa levantador do ânus e fáscia do obturador interno. Superiormente, estende-se cerca de 1-2 cm acima da sínfise para incluir remanescentes de vesículas seminais, sem perseguir todos os clips hemostáticos.
Linfonodos pélvicos eletivos Convencional com SIB 180 cGy, com boost simultâneo para doença macroscópica Definitivo: 45 Gy em 25 frações com SIB até 56.25 Gy. Pós-op: 46.8 Gy em 26 frações com SIB até 57.2 Gy no GTV nodal. 8 mm na pelve eletiva; 5 mm sobre o GTV nodal Volume nodal baseado em RTOG modificado. Regiões-alvo: ilíacas comuns, externas, internas, obturatórias e pré-sacrais. Começa na bifurcação aórtica. As ilíacas externas terminam no topo da cabeça femoral; as ilíacas internas e cadeias obturatórias vão até a face superior da sínfise púbica; a região pré-sacral vai do topo de S1 até S2. O capítulo ainda orienta não incluir alça intestinal nem músculo no CTV e fundir RM ou PET diagnósticos se houver doença nodal grosseira a ser impulsionada.

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 25.1)

Os autores deixam claro que esses esquemas refletem a prática corrente do MSKCC e não substituem validação institucional. A prescrição precisa acompanhar doses já comprovadas como seguras e eficazes no ambiente em que o tratamento será entregue. O mesmo raciocínio vale para as margens: no tratamento definitivo, os kVs diários são casados aos fiduciais; nos esquemas hipofracionados, kV e CBCT entram diariamente e o movimento intrafração é monitorado ou corrigido durante a entrega; no pós-operatório, CBCT ao menos semanal ajuda a revisar partes moles.

Loja prostática após prostatectomia

No pós-operatório, o alvo deixa de ser um órgão e passa a ser um espaço de risco. Isso muda tudo. O capítulo usa a Fig. 25.3 para mostrar que a contagem começa caudalmente, cerca de 10 mm abaixo da anastomose vesicouretral na última imagem com urina, e segue cranialmente em uma TC de 2 mm com protocolo de bexiga cheia.

Série axial de TC mostrando delineamento da loja prostática após prostatectomia, com CTV em azul e PTV modificado em vermelho
Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

O volume não deve entrar no bulbo peniano. Anteriormente, a sínfise púbica serve de guia. Posteriormente, a parede anterior do reto e a interface vesical passam a limitar um alvo que precisa abraçar áreas de risco microscópico, mas sem criar uma capa de dose excessiva sobre o reto. É por isso que a figura mostra a modificação manual do PTV depois da expansão geométrica inicial: o objetivo é evitar que o formato em “halter” se projete em excesso cranialmente sobre o reto anterolateral.

A Fig. 25.4 ajuda a entender por que o volume pós-operatório exige conferência tridimensional rotineira. Diferentemente do tratamento da próstata intacta, o plano pós-cirúrgico inevitavelmente aproxima o PTV da bexiga e do reto para cobrir o espaço perirretal anterior, a anastomose vesicouretral e os novos recessos criados entre a face posterior da bexiga, o assoalho pélvico e a própria anastomose. Nesse contexto, a sobreposição do PTV com reto e bexiga não é um erro automático. O erro real seria deixar de suavizar a transição anterior acima da sínfise púbica. Quando esse afunilamento é abrupto, a distribuição de dose fica mais suscetível a falhas de alvo induzidas pela variação diária do enchimento vesical, mesmo com protocolo de bexiga cheia.

Linfonodos pélvicos, IG-IMRT e checagem 3D

Quando a doença exige cobertura nodal, o capítulo recomenda um volume pélvico eletivo baseado em RTOG modificado. O percurso começa na bifurcação aórtica e desce cobrindo cadeias ilíacas comuns, externas, internas, obturatórias e a região pré-sacral. O limite inferior das ilíacas externas fica no topo das cabeças femorais; para ilíacas internas e obturatórias, a referência é a face superior da sínfise púbica; a faixa pré-sacral vai do topo de S1 até S2. O texto ainda chama atenção para um detalhe simples e decisivo: não incluir alça intestinal nem músculo no CTV.

Se houver linfonodo grosseiramente acometido, a fusão com RM ou PET diagnósticos deve guiar o boost do GTV. A Fig. 25.5 traz um exemplo concreto: paciente T1cN1M0, Gleason 4 + 4 e PSA 22 tratado com IG-IMRT moderadamente hipofracionada, dois anos de Lupron e Abiraterona e dose painting em 26 frações. A pelve eletiva recebeu 4680 cGy, o linfonodo pélvico direito macroscópico recebeu 5720 cGy e próstata mais vesículas seminais receberam 7020 cGy.

Esse caso resume bem a filosofia do capítulo. Primeiro, todo CTV deve ser delineado em cada corte da TC ou da RM de planejamento. Segundo, o PTV não é número fixo: ele depende do fracionamento, da imagem diária e do padrão institucional de entrega. Terceiro, a avaliação de qualidade precisa sair do axial isolado. As figuras do capítulo insistem na leitura cruzada entre axial, sagital, coronal e projeções 3D porque os erros mais perigosos da próstata costumam parecer discretos em um único corte e óbvios quando o volume é visto como estrutura completa.

Se a intenção é transportar essa lógica para a rotina, a mensagem final é direta: margens pequenas só são defensáveis quando a guiagem diária e o controle do preparo são igualmente rigorosos. Para navegar por outros cenários anatômicos do mesmo livro, do nasofaringe ao sistema nervoso central, volte ao guia completo da série.

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