Pacotes de equipamentos de radioterapia ajudam a transformar uma intenção (abrir ou ampliar um serviço) em um conjunto coerente de escolhas: o que entregar, com que segurança e com qual capacidade instalada.

Isso evita o erro mais comum: comprar a unidade de tratamento sem garantir o ecossistema que sustenta planejamento, verificação e qualidade. Para uma visão completa do tema, confira nosso Especificações Técnicas de Equipamentos de Radioterapia – Guia Completo.
EBRT e braquiterapia: duas práticas, dois conjuntos de equipamento
EBRT e braquiterapia usam fontes e fluxos de trabalho diferentes, então a lista de dispositivos muda junto com a técnica. Mesmo assim, o documento trabalha com a suposição de um serviço que ofereça as duas modalidades.
O texto distingue EBRT (fonte de radiação externa ao paciente) e braquiterapia (fonte interna ou muito próxima do paciente). Ele também aponta que a maioria dos tratamentos no mundo é EBRT e que a razão entre unidades de EBRT e unidades de braquiterapia é superior a 9:1 segundo o DIRAC (IAEA).
Packages 1, 2 e 3: o “mapa” de implantação (Tabela 2)
A Tabela 2 é o coração do planejamento: ela descreve pacotes de equipamentos conectados à capacidade do sistema de saúde, incluindo EBRT e braquiterapia.
Os pacotes apoiam avaliação de necessidades (needs assessment) e uma expansão progressiva. As especificações detalhadas nesta publicação cobrem Packages 1 e 2; capacidades adicionais do Package 3 não são especificadas.
Leia também: visão geral dos capítulos.
Tabela 2. Pacotes de equipamentos para serviços de radioterapia (EBRT)
Esta parte da Tabela 2 resume os componentes de EBRT por pacote.
| Componente | Package 1 | Package 2 | Package 3 |
|---|---|---|---|
| Treatment | Cobalt-60 teletherapy unit (preferably at least one with 100 cm SAD) and/or single-photon energy LINAC; orthovoltage X-ray unit as needed | Package 1 and additional single-photon energy unit(s) and/or multiple energy LINAC with electrons capabilities | Additional multiple energy LINAC unit(s) with electrons and IMRT, VMAT, IGRT, SRS, SBRT capabilities |
| Treatment unit accessories | Laser system for positioning; standard and customized shielding blocks; oncology information system including record and verify system (OIS including RVS); portal imaging | Laser system for positioning; customized blocks with or without MLC; OIS including RVS; EPID | Laser system for positioning; MLC or mini-MLC or cones; OIS including RVS; EPID; in-room MV or kV-imaging (for IGRT); motion management system (for IGRT) |
| Treatment planning | 3D TPS (DICOM-compatible) | 3D TPS (DICOM-compatible) | 3D TPS with additional capabilities (IMRT, VMAT, IGRT, SRS, SBRT) |
| Simulation imaging | Conventional digital simulator with laser system; access to a CT scanner | Package 1 and dedicated CT simulator with moveable laser system | CT simulator with moveable laser system and with additional 4DCT capability; access to MRI and/or PET/CT; fiducial markers |
Tabela 2. Pacotes de equipamentos para serviços de radioterapia (braquiterapia)
Esta parte da Tabela 2 resume os componentes de braquiterapia por pacote.
| Componente | Package 1 | Package 2 | Package 3 |
|---|---|---|---|
| Treatment unit | HDR remote afterloading unit | HDR remote afterloading unit | HDR remote afterloading unit |
| Source | Cobalt-60 | Cobalt-60 or iridium-192 | Cobalt-60 or iridium-192 |
| Applicators | Cervical (ring applicator set; ovoid applicator set; vaginal cylinders set); endometrial applicator set; transfer tubes | Cervical (ring applicator set including interstitial needles; ovoid applicator set; vaginal cylinders set)*; endometrial applicator set; transfer tubes | Additional CT-MR-compatible cervical intracavitary (ring applicator set; ovoid applicator set; vaginal cylinder set); intracavitary-interstitial (Vienna, Utrecht type); endometrial applicator set; prostate (reusable needles set); transfer tubes |
| Treatment planning | 2D TPS | 2D or 3D TPS | 3D TPS |
| Imaging | Conventional simulator or C-arm fluoroscopic X-ray unit; ultrasound with convex probe | Conventional simulator or C-arm fluoroscopic X-ray unit or CT simulator; ultrasound with convex probe and endorectal probe | CT simulator; access to MRI; ultrasound with convex probe and endorectal probe |
*Applicators that are CT-compatible will need to be procured if treatment planning is 3D CT-based.
CT=computed tomography; EPID=electronic portal imaging device; HDR=high-dose rate; IGRT=image-guided radiotherapy; IMRT=intensity-modulated radiotherapy; LINAC=medical linear accelerator; MLC=multileaf collimator; MR=magnetic resonance; MRI=magnetic resonance imaging; OIS=oncology information system; PET=positron emission tomography; RVS=record and verify system; SAD=source axis distance; SBRT=stereotactic body radiotherapy; SRS=stereotactic radiosurgery; TPS=treatment planning system; VMAT=volumetric modulated arc therapy.
Fonte: WHO/IAEA Technical Specifications (Table 2).
Avaliação de necessidades (needs assessment): do “o que existe” ao “o que falta”
Needs assessment, como definido pela WHO, é comparar o que está disponível com o que deveria estar disponível para a demanda e o contexto do território, levando em conta recursos financeiros e humanos.
O roteiro é simples: mapear o que existe; comparar com um padrão do que deveria existir (por exemplo, listas de dispositivos prioritários e plano nacional); medir a lacuna; e então checar recursos financeiros e humanos para priorizar. O texto destaca que a priorização é estratégica e deve considerar opiniões de usuários e de prestadores.
Escala do serviço: por que 1 vs 2 unidades de tratamento muda tudo
Um serviço com uma única unidade de tratamento externo tende a ficar vulnerável: uma falha de máquina vira interrupção de assistência e a capacidade de absorver aumento de demanda fica limitada.
Por isso o texto recomenda considerar, já na fase inicial, a implantação com duas unidades de EBRT em vez de uma, além de planejar expansão futura. Quando a opção envolve teleterapia com cobalto-60, ele menciona uma vantagem prática em combinar uma unidade com 100 cm de SAD e outra com 80 cm de SAD para poupar recursos, apontando para a discussão detalhada na seção correspondente.
EBRT por dentro: simulação, planejamento e entrega
EBRT não é “apertar o botão”: é um processo em três etapas (simulação, planejamento e entrega) com verificação, e cada uma delas puxa um conjunto específico de equipamentos.
O texto descreve tratamentos frequentemente fracionados (uma fração por dia útil) em cursos que podem chegar a 40 frações. Na simulação, imagens em posição de tratamento e com imobilização servem para delinear volume-alvo, tumor e órgãos de risco e para gerar referências de verificação; o CT simulator agrega geometria 3D e densidade para cálculo de dose absorvida em 3D.
Para tumores com movimento interno (por exemplo, pulmão ao longo do ciclo respiratório), o texto descreve o 4DCT (Package 3) e cita itens como bloco marcador no tórax, câmera para monitoramento e software para ordenar conjuntos de CT por fase do movimento.
No planejamento, o TPS recebe imagens, suporta delineações, otimização e algoritmos de cálculo. Na entrega, pacientes são posicionados com lasers e, quando disponível, imagem em sala; uma sessão típica dura 10–15 minutos, com feixe ligado por 1–2 minutos.
LINAC convencional e o que o Package 2 adiciona
Quando o documento fala em especificação de LINAC, ele está mirando um acelerador “convencional” capaz de atender uma ampla gama de sítios, com fótons e elétrons e com recursos que viabilizam 3D-CRT com eficiência.

O texto toma como base o design “convencional” (Figuras 2 e 3) e reconhece que há designs não convencionais no mercado, sem entrar no mérito comparativo.

Em linha com o Package 2, a especificação discutida inclui modalidade de fótons e elétrons, um colimador multi-lâminas (MLC) para facilitar a prática de 3D-CRT e um dispositivo de imagem portal eletrônico (EPID) para imagem digital em posição de tratamento. O texto também deixa claro que essa especificação pode ser adaptada ao LINAC de energia única do Package 1, sendo 6 MV a escolha padrão para esse cenário.
Energias de fótons: profundidade de dose e trade-offs (Tabela 3)
Subir a energia de fótons não é “sempre melhor”: você troca menor dose de entrada por maior dose de saída, além de implicações de proteção radiológica em energias mais altas.
No Package 2, o LINAC multi-energia pode combinar 6 MV com 10, 15 ou 18 MV. O texto discute o trade-off: menor dose de entrada versus maior dose de saída, com energias mais altas sendo menos adequadas quando a separação do paciente é pequena e mais úteis em separações maiores, além do impacto de produção de nêutrons e medidas de proteção.
McGinley reportou dose equivalente de nêutrons de 0,02 mSv/Gy (10 MV) até 8,3 mSv/Gy (18 MV) para aceleradores Varian e menciona aumento de 2–10 vezes em IMRT, o que ajuda a explicar por que IMRT/VMAT geralmente não são praticados acima de 10 MV.
Tabela 3. Energias de feixe de fótons e profundidade de dose em água
Os valores abaixo comparam profundidade de dose máxima e PDD a 10 cm para diferentes energias e geometrias (SSD).
| Parâmetro | Cobalt-60 (80 cm SSD) | Cobalt-60 (100 cm SSD) | 4 MV (100 cm SSD) | 6 MV (100 cm SSD) | 10 MV (100 cm SSD) | 15 MV (100 cm SSD) | 18 MV (100 cm SSD) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Depth of maximum dose | 0.5 cm | 0.5 cm | 1.0 cm | 1.5 cm | 2.3 cm | 2.9 cm | 3.2 cm |
| Percentage depth dose at 10 cm depth | 56.4% | 58.7% | 63.0% | 67.5% | 73.0% | 77.0% | 79.0% |
Fonte: WHO/IAEA Technical Specifications (Table 3). Dados do British Journal of Radiology, Supplement 25, para campo 10 cm x 10 cm.
Elétrons: penetração, seleção de energias e aplicação prática (Tabela 4)
Para elétrons, a pergunta prática é “até que profundidade consigo cobrir?” e o documento amarra isso diretamente a R90 e à escolha de um conjunto de energias.
Ele descreve que feixes de elétrons tipicamente são oferecidos de 4 MeV a 22 MeV e que, em geral, o serviço seleciona quatro ou cinco energias. A tabela de penetração (R90) ajuda a escolher energias com penetrações espaçadas de forma uniforme. A especificação exemplificada no texto usa 6, 9, 12 e 15 MeV, com abertura por aplicadores e uso de recortes individualizados de liga de baixo ponto de fusão (LMPA) no fim do aplicador.
Tabela 4. Energias de feixe de elétrons e penetração em água
Penetração expressa como R90 (cm) para diferentes energias de elétrons.
| Parâmetro | 4 MeV | 6 MeV | 8 MeV | 9 MeV | 10 MeV | 12 MeV | 15 MeV | 16 MeV | 18 MeV | 20 MeV | 22 MeV |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Penetration expressed as R90 (cm) | 0.9 | 1.7 | 2.4 | 2.7 | 3.1 | 3.9 | 4.7 | 5.0 | 5.5 | 6.3 | 7.0 |
Fonte: WHO/IAEA Technical Specifications (Table 4). Dados do IAEA Handbook.
MLC, blocos personalizados e EPID: velocidade com custo de complexidade
No Package 2, o MLC e o EPID tendem a acelerar o fluxo de trabalho e aumentar o controle em tempo real, mas o documento é explícito sobre a complexidade que vem junto.
Blocos e mandíbulas independentes modelam o campo, mas exigem fabricação em sala de moldes. O MLC automatiza esse processo e, em quase todos os casos de 2D e 3D-CRT, pode substituir blocos; o texto cita exceções (como blocos centrais ou em “ilha”) em que a combinação ainda pode ser necessária.
Quando a discussão vai para IMRT/VMAT, o documento chama atenção para um ponto que costuma ser subestimado: a especificação não é só do hardware (MLC, gantry e monitoramento de dose). Ela depende também de requisitos adicionais no TPS (planejamento inverso e cálculo de movimento das lâminas) e no OIS (transferência das instruções de entrega do TPS para o sistema).
Especificações Técnicas WHO/IAEA: checklist essencial para um LINAC
O anexo WHO/IAEA funciona como um checklist de aquisição: ele explicita requisitos funcionais, desempenho, utilidades, segurança e manutenção que precisam estar no contrato e na validação.
A tabela abaixo seleciona itens centrais do template, organizados por categoria, para servir como roteiro de especificação e conferência.
| Categoria | Item | Especificação (template WHO/IAEA) |
|---|---|---|
| Finalidade Clínica | Purpose of use | Delivery of megavoltage X-ray and electron beams for external beam radiotherapy (EBRT). |
| Finalidade Clínica | Functional requirements (overview) | LINAC com gantry, collimator e treatment couch; interface com record and verify system (RVS). |
| Requisitos Técnicos | Geometria do gantry | Gantry motorizado, design isocêntrico, 100 cm SAD, rotação ±180°, clearance do isocentro > 30 cm. |
| Requisitos Técnicos | Isocentro mecânico | Diâmetro máximo ≤ 2 mm para os três eixos (colimador, gantry, couch). |
| Requisitos Técnicos | Campo de fótons | Máximo 40 cm x 40 cm e mínimo ≤ 4 cm x 4 cm (nível de isodose de 50% no isocentro). |
| Requisitos Técnicos | Mandíbulas assimétricas | Movimentos assimétricos em todas as mandíbulas, cruzando o eixo central. |
| Requisitos Técnicos | Coincidência campo luz/radiação | ≤ 2 mm. |
| Requisitos Técnicos (Package 2) | MLC integrado | ≥ 80 lâminas motorizadas; largura máxima 1 cm no isocentro; leakage interleaf < 4%; acurácia de posição ≤ 1 mm. |
| Requisitos Técnicos | Energias de fótons | 6 MV com flattening filter. |
| Requisitos Técnicos | Dose rate (fótons) | Variável de 50 MU/min até pelo menos 400 MU/min. |
| Requisitos Técnicos (Package 2) | Segunda energia de fótons | 10 MV com flattening filter. |
| Requisitos Técnicos (Package 2) | Elétrons | Energias: 6, 9, 12 e 15 MeV; dose rate ≥ 400 MU/min. |
| Requisitos Técnicos | Monitoramento e interlocks | Câmaras de ionização duais para dose/dose rate/simetria/steering; simetria ≤ 2% e flatness ≤ 3%. |
| Infraestrutura | Utilidades | Alimentação trifásica; chilled water; compressed air (conforme necessário); SF6; ar-condicionado (seis trocas de ar/hora). |
| Operação e Segurança | EPID / portal imaging | Portal imaging (Package 1) ou EPID integrado (Package 2) para imagem portal digital e comparação com DRRs. |
| Operação e Segurança | Lasers fixos | Dois lasers cruzados laterais, um laser cruzado no teto e um laser de linha sagital (vermelho ou verde). |
| Operação e Segurança | Escalas e coordenadas | Convenção IEC 61217 como pelo menos uma opção em modo clínico. |
| Comissionamento | Requirements for commissioning | Acceptance testing, commissioning de feixes, referência de dosimetria, auditoria de dosimetria, baselines de QC e survey de radiação. |
| Garantia e Manutenção | Warranty | Pelo menos 12 meses. |
| Garantia e Manutenção | Maintenance tasks | 4–8 dias de serviço por ano (preventative maintenance). |
| Garantia e Manutenção | Spare parts availability post-warranty | 10 anos (mínimo). |
| Garantia e Manutenção | Estimated lifespan | 10–15 anos. |
Fonte: WHO/IAEA Technical Specifications of Radiotherapy Equipment for Cancer Treatment (Annex 1 – LINAC template).
Para conectar checklist e planejamento, volte ao guia completo e use a Tabela 2 como “mapa” de dependências antes de assinar qualquer contrato.




