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Delineamento do câncer de pâncreas na radioterapia

O adenocarcinoma pancreático desafia o planejamento radioterápico como poucos tumores abdominais. A proximidade com estruturas luminais radiosensíveis — estômago, duodeno e intestino delgado — torna o equilíbrio entre cobertura tumoral e proteção de órgãos de risco (OARs) uma tarefa que exige técnica refinada, controle rigoroso de movimento e conhecimento detalhado da anatomia vascular peripancreática. A IMRT tornou-se a técnica padrão para tratar o câncer de pâncreas em cenários neoadjuvante, adjuvante e definitivo, enquanto abordagens ablativas requerem SBRT ou técnicas guiadas por imagem.

Para uma visão abrangente de todos os sítios anatômicos abordados neste livro, confira nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo e campos na radioterapia.

Simulação e controle de movimento respiratório

TC axial e coronal de adenocarcinoma pancreático com contornos GTV, CTV e PTV para tratamento neoadjuvante com margens assimétricas para compensar movimento diafragmático
Fig. 16.1a — Volumes neoadjuvantes para adenocarcinoma de cabeça pancreática. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

A TC de simulação com contraste IV em protocolo pancreático é indispensável para o delineamento preciso do alvo e dos OARs. O protocolo típico utiliza 150 cc de contraste iodado a 5 cc/s, com aquisição em duas fases: arterial tardia (35 s) e portal venosa (90 s). Essa abordagem dupla permite delimitar tanto o tumor primário — geralmente hipointenso — quanto a extensão vascular, que é crítica no planejamento de doses acima de 50 Gy em EQD2.

O manejo do movimento respiratório reduz as doses nos OARs e maximiza a cobertura do alvo. Para qualquer abordagem ablativa, o controle de movimento é obrigatório. O gating — seja em inspiração profunda sustentada (DIBH) ou gating expiratório — é preferível, mas exige fiduciais metálicos ou stent metálico como referência. Quando o gating não é viável, a alternativa é o volume-alvo interno (ITV), delineando o GTV em todas as fases do 4D-CT. O paciente é imobilizado em alpha-cradle customizado, com braços elevados acima da cabeça sempre que tolerável.

Volumes-alvo no cenário neoadjuvante (ressecável borderline)

Cortes axiais de TC mostrando GTV, CTV e contornos de OARs em adenocarcinoma pancreático borderline ressecável com extensão vascular ao longo da artéria hepática comum, tronco celíaco e AMS
Fig. 16.1b-e — Cortes axiais do mais superior ao mais inferior do GTV. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

O tratamento pré-operatório de doença borderline ressecável ou ressecável de alto risco requer doses mais baixas e, consequentemente, tecnologia menos complexa. No entanto, as margens devem ser generosas o suficiente para cobrir toda a doença microscópica e a extensão radiograficamente oculta ao longo da vasculatura.

Definição dos volumes neoadjuvantes

Volume Definição e descrição
GTV Toda doença macroscópica na imagem, incluindo o tumor primário (tipicamente hipointenso), com atenção especial à extensão ao longo dos vasos, e todos os linfonodos suspeitos
ITV (opcional) Se utilizada abordagem ITV, delinear o GTV em todas as fases do 4D-CT
CTV Expansão uniforme de pelo menos 1 cm sobre toda doença macroscópica + cobertura das cadeias do tronco celíaco (CA) e artéria mesentérica superior (AMS) + margem adicional ao longo dos vasos em caso de incerteza + cobertura do hilo esplênico (lesões de corpo/cauda) + cobertura opcional da porta hepatis (lesões de cabeça)
PTV Margem baseada na técnica de controle de movimento, mínimo 0,5 cm. Sem ITV e em respiração livre, expansão de 1–1,5 cm na direção craniocaudal

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 16.1)

Os esquemas de fracionamento apropriados incluem 25 Gy em 5 frações, 30 Gy em 10 frações, 36 Gy em 12 frações e 50,4 Gy em 28 frações. A escolha depende da intenção terapêutica, da anatomia do paciente e da tecnologia disponível.

Tratamento definitivo de doença irressecável: doses ablativas

TC axial, sagital e coronal de tumor pancreático irressecável tratado com 75 Gy em 25 frações com CBCT diário e DIBH, mostrando GTV, PTV alta dose, PTV dose microscópica e PRVs de estômago e intestino delgado
Fig. 16.2a — Volumes definitivos para tumor de cabeça pancreática irressecável (75 Gy/25 fx, DIBH). Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Tumores irressecáveis devem receber doses ablativas ($\text{BED}_{10} \geq 100\ \text{Gy}$) sempre que técnicas de controle de movimento e guia por imagem estiverem disponíveis. A tendência de reduzir o número de frações, impulsionada pela natureza intensiva do planejamento estereotático, precisa ser equilibrada por considerações radiobiológicas e dosimétricas que garantam dose realmente ablativa.

A proximidade dos OARs luminais radiosensíveis frequentemente exige esquemas hipofracionados com mais de cinco frações. A recomendação prática é: 75 Gy em 25 frações para tumores a menos de 1 cm dos OARs, e 67,5 Gy em 15 frações para tumores a mais de 1 cm. O esquema de 50 Gy em 5 frações pode ser usado seletivamente quando o tumor está a mais de 2 cm dos OARs. Quando o contato extenso entre tumor e OARs impede cobertura adequada com dose ablativa, alternativas não ablativas como 50,4–56 Gy em 28 frações ou 33 Gy em 5 frações são aceitáveis.

Volumes-alvo no cenário definitivo

Cortes axiais de TC mostrando exclusão de OARs do PTV com margem de segurança adicional em tratamento ablativo de câncer pancreático, com PRVs de estômago e intestino delgado
Fig. 16.2b-c — Contornos com exclusão de OARs do PTV de alta dose. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition
Volume Definição e descrição
GTV Toda doença macroscópica na imagem, incluindo o tumor primário e extensão vascular
ITV (opcional) Se utilizada abordagem ITV, delinear o GTV em todas as fases do 4D-CT
CTV alta dose Corresponde ao GTV (ou ITV se utilizado) sem margem adicional
CTV dose microscópica Expansão uniforme ≥ 1 cm sobre toda doença macroscópica + cadeias CA e AMS + hilo esplênico (corpo/cauda) + margem vascular adicional + porta hepatis opcional (cabeça)
PTV alta dose Expansão 0–0,5 cm, subtraindo OARs críticos sobrepostos com margem de segurança:
• 56 Gy/28 fx ou 33 Gy/5 fx: subtrair estômago e intestino delgado sem margem adicional
• 50 Gy/10 fx, 67,5 Gy/15 fx ou 75 Gy/25 fx: subtrair com expansão de 0,5 cm (0,7 cm para interface longa)
PTV microscópico Mínimo 0,5 cm; sem ITV em respiração livre, 1–1,5 cm craniocaudal

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 16.2)

Um detalhe frequentemente subestimado: dada a natureza infiltrativa do PDAC, o over-contouring do GTV para incluir o parênquima pancreático circundante pode ser razoável, especialmente quando suportado por imagem diagnóstica adicional. Nas regiões de contato direto entre GTV e OAR crítico, o PTV deve excluir o OAR com margem de segurança que exceda a expansão do PRV.

PRVs para doses ablativas

Estrutura Definição do PRV
Estômago/duodeno proximal PRV Estômago e segmentos 1–2 do duodeno + 0,3 cm (0,5 cm para interface longa com o alvo)
Intestino delgado PRV Restante do intestino delgado + 0,3 cm (0,5 cm para interface longa)

Aplicável para doses ≥ 60 Gy em 25 frações ou equivalente em BED. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 16.2)

Planejamento adjuvante pós-pancreatectomia

TC axial pós-pancreatectomia mostrando ROIs do atlas RTOG 0848 com contornos de CTV e PTV para tratamento adjuvante, incluindo veia porta e aorta
Fig. 16.3a — ROIs do atlas RTOG 0848 para delineamento adjuvante. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

O cenário adjuvante segue a abordagem escalonada do atlas de delineamento do RTOG 0848, baseado em regiões de interesse (ROIs) que foram escolhidas pela facilidade de identificação e reprodutibilidade nas imagens. Campos menores focados no leito cirúrgico, CA e AMS também podem ser apropriados quando OARs limitantes de dose estão presentes.

Volumes-alvo adjuvantes (atlas RTOG 0848)

Volume Definição e descrição
GTV Não aplicável
CTV Leito cirúrgico e pancreaticojejunostomia (PJ) + cadeias nodais peripancreáticas, CA, AMS, paraaórticas, veia porta (tumores de cabeça) e esplênicas (corpo/cauda). ROIs do RTOG 0848:
• CA (1–1,5 cm proximal)
• AMS (2,5–3 cm proximal)
• Veia porta (VP: início na confluência VMS/veia esplênica)
• PJ
• Aorta (superiormente ao mais cefálico entre CA, VP ou PJ; inferiormente a L2, ou L3 para cobrir GTV pré-operatório)
• Leito tumoral (baseado em imagem pré-op, laudo patológico, clipes cirúrgicos)
Expansões VP, PJ, CA, AMS: 1,0 cm. Aorta: 2,5–3,0 cm à direita, 1,0 cm à esquerda, 2–2,5 cm anterior, 0,2 cm posterior. CTV = união das expansões, confirmando cobertura do leito tumoral
PTV Mínimo 0,5 cm; sem ITV em respiração livre, 1–1,5 cm craniocaudal

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 16.3)

Reconstrução parasagital de TC pós-pancreatectomia mostrando extensão craniocaudal do PTV adjuvante com ROIs do atlas RTOG 0848
Fig. 16.3g — Vista parasagital demonstrando extensão craniocaudal do PTV. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Restrições de dose aos órgãos de risco

As restrições de dose variam conforme o esquema de fracionamento. A tabela abaixo sintetiza os limites mais relevantes para os principais OARs no planejamento pancreático, organizados por número de frações. A distinção entre Limite (L — nunca ultrapassar) e Guideline (G — restrição sugerida quando a cobertura não é comprometida) é fundamental para otimizar o plano.

OAR 5 frações 10 frações 15–25 frações
Estômago/duodeno Dmax ≤ 23 Gy (G); D2cc ≤ 23 Gy (G) Dmax ≤ 28 Gy (G); D2cc ≤ 28 Gy (G) Dmax ≤ 40 Gy (G); D2cc ≤ 40 Gy (G)
Intestino delgado Dmax ≤ 23 Gy (G); D5cc ≤ 21 Gy (L) Dmax ≤ 28 Gy (G); D5cc ≤ 25 Gy (L) Dmax ≤ 40 Gy (G); D5cc ≤ 25 Gy (L)
Intestino grosso Dmax ≤ 25 Gy (G); D5cc ≤ 25 Gy (L) Dmax ≤ 30 Gy (G); D5cc ≤ 30 Gy (L) Dmax ≤ 45 Gy (L)
Fígado* Dmean < 15 Gy; V15 < 700 cc (L) Dmean < 16 Gy; V16 < 700 cc (L) Dmean < 20 Gy; V20 < 700 cc (L)
Rins (cada) V10 < 50%; D < 10 cc (L) V10 < 50%; D < 10 cc (L) V20 < 50%; Dmean (L)
Rim único D5cc < 16 Gy (L) D5cc < 16 Gy (L) D5cc < 20 Gy (L)
Medula Dmax < 18 Gy (L) Dmax < 18 Gy (L) Dmax < 35–45 Gy (L)
Ductos hepáticos/biliares Dmax ≤ 40 Gy (G) Dmax ≤ 55 Gy (G) Dmax ≤ 70–80 Gy (G)
Esôfago Dmax ≤ 25 Gy (G) Dmax ≤ 30 Gy (G) Dmax ≤ 45–65 Gy (G)

L = Limite (nunca ultrapassar); G = Guideline (restrição sugerida). *Fígado: se sem cirrose, usar restrições inferiores. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Table 16.4)

Uma nuance importante: quando o PTV se sobrepõe a um OAR crítico, a restrição com sufixo “se overlap” entra em vigor. Para o estômago, por exemplo, o D5cc com sobreposição pode ser limitado a 30 Gy em 5 frações ou 33 Gy em 10 frações. Esse nível de detalhe faz diferença entre um plano que entrega dose ablativa e um que fica aquém.

Integração prática: do diagnóstico ao plano final

A escolha do fracionamento no câncer pancreático nunca é puramente acadêmica. Três fatores determinam o esquema ideal: a intenção de tratamento (pré-operatório, adjuvante ou definitivo), a tecnologia disponível (gating, CBCT, fiduciais) e a anatomia específica do paciente — em particular, a extensão da interface tumor-OAR.

Na prática, o fluxo de trabalho começa pela avaliação da ressecabilidade. Tumores borderline recebem esquemas de dose mais baixa (25–50,4 Gy), com margens CTV generosas de pelo menos 1 cm e cobertura das cadeias vasculares. Tumores irressecáveis são candidatos a dose ablativa (BED₁₀ ≥ 100 Gy), mas a viabilidade depende diretamente da capacidade de excluir OARs do PTV de alta dose com margens de segurança adequadas. Já o cenário adjuvante, sem GTV a ser delineado, segue o atlas padronizado do RTOG 0848 com suas expansões específicas por ROI.

Para quem está planejando um caso de câncer gástrico ou hepatocarcinoma, muitas das restrições de OARs e princípios de controle de movimento são compartilhados e vale a consulta cruzada.

Referências

  1. Reyngold M, Parikh P, Crane CH. Ablative radiation therapy for locally advanced pancreatic cancer: techniques and results. Radiat Oncol. 2019;14(1):95.
  2. Goodman KA, Regine WF, Dawson LA, et al. Radiation Therapy Oncology Group consensus panel guidelines for the delineation of the clinical target volume in the postoperative treatment of pancreatic head cancer. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2012;83(3):901–8.

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