Este artigo detalhado integra a série de especificações técnicas de equipamentos de radioterapia e entra no ponto que costuma definir a qualidade do planejamento em braquiterapia: aplicadores compatíveis com o seu fluxo de imagem, um afterloader HDR com controles e contingências claros, e um TPS capaz de reconstruir e transferir planos com segurança. Para o panorama completo da série, veja o Especificações Técnicas de Equipamentos de Radioterapia – Guia Completo.
CT-MR vs metálicos: quando o aplicador vira requisito de imagem
O documento especifica aplicadores CT-MR-compatíveis para planejamento baseado em tomografia. Se o serviço prevê planejamento 2D com simulador convencional ou com C-arm fluoroscópico, aplicadores metálicos também são considerados adequados e trazem um ganho bem pragmático: robustez e durabilidade superiores em relação aos CT-MR-compatíveis.

Há ainda uma ressalva útil para quem escreve especificação: estritamente, seriam necessários aplicadores compatíveis com CT, mas os fabricantes, na prática, tendem a rotular como “metálico” ou “CT-MR-compatível”. Isso evita surpresas na fase de proposta técnica.
Outro ponto de especificação que merece olhar de ciclo de vida é o número de canais do afterloader. O texto observa que aplicações ginecológicas podem demandar apenas três canais, mas recomenda uma configuração com pelo menos 20 canais pensando em técnicas mais complexas que podem ser adotadas ao longo da vida útil do equipamento. Ainda assim, o próprio documento permite ajuste conforme a necessidade local.
Afterloader HDR (cobalto-60): o mínimo que precisa constar
A especificação técnica pede um sistema remoto de pós-carregamento com ≥ 20 canais para braquiterapia intracavitária HDR, com fonte de cobalto-60 de atividade 74 GBq ±10% na entrega. O afterloader deve verificar automaticamente conexões únicas de aplicadores e ser facilmente manobrável na sala.
Para segurança e consistência, são exigidas duplas motorização/acionamentos precisos para a fonte miniaturizada e para a fonte fictícia (dummy), com posicionamento digital contínuo, rotina pré-exposição com teste do dummy e checagem do comprimento do cateter.
No console de controle, o documento lista requisitos operacionais e de governança: conexão em rede com o TPS dedicado; controle de acesso por senha (incluindo restrições para dados sensíveis, como força da fonte); registro de atividades e número de transferências; base de planos padrão (para aplicadores rígidos e fontes lineares) com atualização automática dos tempos de permanência, e edição restrita por senha; identificação única do paciente; exibição de status inclusive durante falta de energia; registro online do tratamento com visualização gráfica do progresso; e impressão do protocolo completo ao final.
Em contingência elétrica, pede bateria interna ou UPS para retração segura da fonte/dummy, além de manivela para retração manual, pinças de haste longa e um recipiente de emergência blindado para armazenamento de até 81 GBq de cobalto-60, com volume suficiente para o maior aplicador previsto.
Na infraestrutura de segurança, entram monitoramento de área com sinais audíveis/visuais (sala e painel), luzes de aviso, intertravamento de acesso, intercomunicador com o paciente e dois sistemas completos de CFTV com pan/zoom/tilt. A mesa de tratamento deve permitir posicionamento (inclusive sentado), e o tampo precisa ser radiotransparente para permitir imagem por raios X.
O conjunto de aplicadores e acessórios inclui, conforme o texto, opções CT-MR-compatíveis (como Fletcher e conjuntos tipo anel), aplicadores vaginal/retal e tubos intrauterinos de titânio com diâmetros de 3,5 mm e 5,0 mm, além de acessórios (por exemplo, tubos de transferência, marcadores e caixa de esterilização), dispositivo universal de fixação e caixa de reconstrução para aplicações ginecológicas.
Quanto a normas, o documento ancora a especificação do afterloader em IEC 60601-2-17:2013 e em requisitos para fontes seladas (ISO 2919:2012 e ISO 9978:1992), além de orientação sobre mensagens de erro/alerta de software em radioterapia (IEC TR 63183:2019).
Segurança, proteção e segurança física da fonte: bunker e rotinas
O afterloader (com a fonte) deve ser armazenado e operado em bunker de concreto. Para dimensionar a blindagem, o texto remete à metodologia do IAEA Safety Reports Series No. 47 e reforça que piso, teto e paredes precisam entrar na conta, respeitando as exigências locais de restrições e limites de dose.

O documento também cita layouts típicos de suíte de braquiterapia (tratamento, controle, preparo e recuperação) e enquadra a sala como área controlada no contexto dos International Basic Safety Standards. No eixo de segurança física do material radioativo, entram medidas conforme a regulação local: travas no afterloader quando não estiver em uso, controle seguro de acesso por portas e proteção fora do horário de funcionamento.
Após a instalação, exige-se um levantamento radiométrico abrangente no entorno da sala, com medidor calibrado, para demonstrar conformidade com limites de dose para equipe e público. Na sala, o texto lista recursos para segurança, proteção e segurança da fonte: monitor de área, intertravamento de acesso, recipiente de emergência e pinças, sinalização luminosa de “feixe ligado”, sinalização trevo de radiação ionizante, comunicação audiovisual sala-controle, botões de retração de emergência (sala e controle) e recursos para prevenir remoção não autorizada e sabotagem.
C-arm fluoroscópico: imagem planar para planejamento e conferência
O C-arm e descrito como um sistema móvel de raios X e detecção montado em arco rotativo, capaz de produzir imagens planares com o aplicador já inserido e exportá-las para um TPS de braquiterapia.
Na especificação, o documento pede: gerador de alta frequência com 40–110 kV e tubo com dois focos; modo fluoroscópico (com pedal e “last image hold”) e modo radiográfico; detector de painel plano com pelo menos 21 cm x 21 cm; duas telas de alta resolução com pelo menos 18 polegadas; movimento orbital ≥ 120° (–30° a +90°); deslocamento vertical motorizado ≥ 40 cm; deslocamento horizontal ≥ 20 cm; distância foco-receptor ≥ 90 cm; “free space” ≥ 76 cm; freio para controle do arco; interface DICOM 3.0 (TPS ou PACS); e armazenamento em disco rígido e externo.
Em proteção radiológica, o texto aponta que a blindagem do bunker do afterloader tende a ser suficiente para a operação do C-arm, mas exige proteção do operador com avental plumbífero e protetor de tireoide durante exposição e recomenda que outros profissionais fiquem fora da sala durante o uso. Também reforça que o equipamento deve entrar em rotina de controle de qualidade (sistema de raios X, mecânica e itens de segurança).
Ultrassom: guia de posicionamento (inclui Package 2)
O ultrassom e apresentado como ferramenta de imagem para guiar e confirmar a colocação de aplicadores intracavitários. A especificação pede uma unidade móvel com modos 2D e M-mode, duas portas ativas de transdutor e dois transdutores convexos para exames transabdominais em ginecologia na faixa 2,0–5,0 MHz.
No Package 2, acrescenta dois transdutores transretais biplanares (sagital e transversal) cobrindo 3,0–12,0 MHz. O monitor deve ter pelo menos 18 polegadas e exibir no mínimo 256 níveis de cinza em 2D. O documento também especifica teclado com controle de um botão, porta USB e saída de vídeo, impressora térmica a bordo e impressora laser A4, medições (comprimento, altura, largura, ângulo, área e volume), armazenamento em formato clinicamente útil e transferência sob padrão DICOM, além de gel solúvel em água e hipoalergênico. A QA enfatiza estabilidade de qualidade de imagem por transdutor e no sistema como um todo.
TPS de braquiterapia: reconstrução, otimização e transferência
O TPS de braquiterapia e definido como software para preparar planos com base nas características dosimétricas da fonte, dimensões dos aplicadores, imagens do paciente e posições/tempos de permanência permitidos. A norma citada para segurança do TPS e a IEC 62083:2009.
A especificação pede uma estação em rede com monitor de 23 polegadas e grande capacidade de armazenamento, com software de otimização de dose por pontos, planos ou volumes com base em reconstrução a partir de imagens isocêntricas, ortogonais e semi-ortogonais. Em integração de imagem, exige hardware, software e licenças para transferência DICOM de CT, MRI e também de simulador convencional ou de um C-arm fluoroscópico. Inclui ainda um scanner de filme de mesa (ou equivalente) para entrada manual quando necessário.
Para consistência e segurança, o texto pede bibliotecas de conjuntos de dados de referência para a fonte e para todos os aplicadores, além de controle hierárquico por senha (calibração da fonte, parâmetros de modelagem, biblioteca de planos padrão e sincronização de dados da fonte com o painel de controle). Completa com software de gestão e arquivamento, impressora A3/A4 para isodoses e parâmetros, e transferência online automática de dados do paciente e do plano autorizado para o console do afterloader. Na QA, o foco recai em testes regulares de recursos/algoritmos, atenção a upgrades e verificação de que a força de fonte atual está refletida no TPS.
Para completar o panorama com equipamentos de feixe externo, veja também: especificações técnicas para equipamentos de radioterapia externa (EBRT).
Dosimetria e controle de qualidade para HDR (Tabela 16)
O documento destaca que a dosimetria em braquiterapia se apoia no estabelecimento da taxa de kerma no ar de referência (RAKR) e aponta a câmara de ionização tipo poço como detector preferencial. A tabela a seguir lista o conjunto de dosimetria e QC específico para HDR, incluindo phantom para avaliação de qualidade de imagem em ultrassom.
Tabela 16. Equipamentos de dosimetria e controle de qualidade para braquiterapia HDR
Itens, descrições e comentários foram reestruturados em HTML mantendo os requisitos e números especificados no documento.
| Item | Descrição | Comentários |
|---|---|---|
| Câmara de ionização tipo poço | Câmara do tipo poço para medir a força da fonte do afterloader HDR (cobalto-60 ou irídio-192), com conector TNC ou BNC, certificado de calibração e adaptador específico para o fabricante/modelo do afterloader. | Recalibração em SSDL/PSDL recomendada a cada 2 anos. |
| Cabo triaxial | Cabo de extensão triaxial com pelo menos 10 m, com conectores TNC ou BNC. | Recomenda-se cabo reserva; falhas são comuns com múltiplos manuseios ou uso inadequado. |
| Eletrômetro | Eletrômetro classe de referência, canal único, compatível com a câmara tipo poço, com conector TNC ou BNC. | Dessecante interno requer troca conforme umidade. Preferível calibrar o eletrômetro junto com a câmara tipo poço. |
| Termômetro | Termômetro de vidro (tipo álcool), faixa 0°C–50°C, resolução 0,2° ou menor, com certificado de calibração. | O uso de termômetro de mercúrio não deve ser permitido. |
| Barômetro | Barômetro digital ou aneroide, resolução de 0,01 kPa, certificado de calibração e faixa adequada à elevação do serviço. | Em grandes altitudes, a faixa de pressão é crítica; redução da ordem de 1% a cada 80 m de elevação. |
| Fonte de verificação | Dispositivo de checagem com césio-137 para câmara tipo poço, incluindo adaptador/suporte. | Incluir material radioativo exige cumprir requisitos do regulador local. |
| Filme radiocrômico | Filme radiocrômico auto-revelável para dosimetria em braquiterapia. | Consumível. |
| Ferramenta de checagem de posição | Ferramenta para verificar posição da fonte, com cavidade para a fonte, escala em milímetros e possibilidade de incorporar filme radiocrômico para autoradiografia. | Normalmente fornecida pelo fabricante do afterloader. |
| Phantom de qualidade de imagem (ultrassom) | Phantom para testes de uniformidade, escala geométrica, contraste, resolução, sensibilidade e zona morta, com material mimetizador de tecido de longa duração; combinação de alvos lineares por monofilamento e alvos volumétricos de vários tamanhos; diâmetro mínimo de alvo linear de aproximadamente 0,1 mm; otimizado para 2–5 MHz. | |
| Phantom de QA (ultrassom transretal) | Phantom de material equivalente a tecido com formas complexas para checar alinhamento da grade eletrônica (medidas horizontais/verticais), confirmar resolução axial/lateral e testar profundidade de penetração, resolução e medidas de distância, área e volume. Inclui ao menos 3 objetos de calibração visualizáveis ao girar o transdutor 60° à direita ou esquerda e capacidade de testar consistência geométrica. | Recomendado quando se utiliza ultrassom transretal em implantes intersticiais (Package 2). |
Fonte: WHO/IAEA Technical Specifications of Radiotherapy Equipment for Cancer Treatment (Table 16)

O texto lembra que, dentre esses itens, a fonte de verificação é o componente emissor de radiação e deve ser manuseada por físicos médicos clinicamente qualificados, com armazenamento seguro e aderência às regras locais de transporte, uso e guarda de material radioativo. Para a câmara tipo poço, a recomendação objetiva e recalibração bienal por SSDL/PSDL; entre calibrações, a estabilidade pode ser monitorada com a fonte de verificação.
Especificações Técnicas WHO: TPS de braquiterapia (resumo)
A OMS, em conjunto com a IAEA, publicou um template de especificações técnicas para o TPS de braquiterapia. A tabela abaixo destaca itens essenciais do anexo, agrupados por categoria, para uso em compras, aceitação e implantação.
| Categoria | Item | Especificação |
|---|---|---|
| Finalidade clínica | Propósito | Preparação de planos de tratamento de pacientes para braquiterapia. |
| Finalidade clínica | Nível de uso | Hospital. |
| Finalidade clínica | Departamento | Radiation Oncology Department. |
| Requisitos técnicos | Funções do software | Módulos para importação/registro de imagens, contornos de alvo e órgãos de risco, planejamento de posições/tempos de permanência, cálculo de dose, revisão/exportação e modelagem da fonte. |
| Requisitos técnicos | Workstation | Estação em rede com monitor de 23 polegadas e alta capacidade de armazenamento. |
| Requisitos técnicos | Otimização | Otimização por pontos, planos ou volumes baseada em posições de cateter e dwell times reconstruídos de imagens isocêntricas, ortogonais e semi-ortogonais. |
| Integração de imagem | Entrada DICOM | Transferência DICOM de CT, MRI e simulador convencional ou C-arm fluoroscópico. |
| Integração de imagem | Entrada manual | Scanner de filme de mesa (ou equivalente) para entrada de filmes ou imagens digitalizadas. |
| Dados | Bibliotecas | Conjuntos de dados de referência para a fonte e para todos os aplicadores (library). |
| Segurança | Acesso por senha | Controle hierárquico por senha para calibração/modelagem da fonte, biblioteca de planos padrão e sincronização de dados com o painel de controle. |
| Operação | Gestão e arquivo | Software de gestão para manutenção de base e arquivamento. |
| Saída | Impressão | Impressora para saída A3/A4 de isodoses e parâmetros do plano. |
| Integração clínica | Envio ao console | Transferência online automática de dados do paciente e do plano autorizado para o painel de controle do afterloader. |
| Infraestrutura | Energia e climatização | Alimentação monofásica e ar-condicionado. |
| Infraestrutura | Rede | Disponibilidade de rede. |
| Manutenção | Garantia | No mínimo 12 meses. |
| Manutenção | Atualizações | Atualizações de software conforme necessidade. |
| Manutenção | Serviço | Contrato com upgrades e acesso a helpdesk. |
| Manutenção | Vida útil | Vida útil estimada de 5 anos. |
| Segurança/Normas | Norma específica | IEC 62083:2009. |
Fonte: WHO/IAEA Technical Specifications of Radiotherapy Equipment for Cancer Treatment (Annex 11)
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