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O seguimento de nódulos pulmonares não escala porque cada achado gera uma cadeia de tarefas manuais — revisar imagem, avisar o paciente, definir intervalo, pedir novo exame, rastrear a pendência — e nenhum serviço tem gente suficiente para fechar todas elas. Esse é o argumento central de “Sustainable Screening”, artigo de opinião publicado em 25 de setembro na Radiology Today por Chris Wood, CEO da RevealDX, empresa que vende software de radiômica para nódulo pulmonar. A tese merece atenção, mas precisa ser lida sabendo quem a assina: parte dos números vem da literatura, parte não tem fonte identificável, e a solução proposta é exatamente o produto que o autor comercializa.

Gráfico de barras: adesão às diretrizes Fleischner cai de 86,6% no laudo para 46% no seguimento realizado em 4.586 pacientes com nódulo pulmonar incidental
O laudo acerta; o sistema não executa. Cadeia de adesão em dois sistemas de saúde dos veteranos dos EUA. Dados: Hedstrom et al., Annals ATS, 2022.

O que o artigo defende

Wood parte de um diagnóstico conhecido: o câncer de pulmão segue como a principal causa de morte por câncer nos Estados Unidos, e o rastreio com tomografia de baixa dose, apesar de bem estabelecido, alcança pouca gente. Ele cita uma estimativa do CDC de que só cerca de 18% dos adultos elegíveis foram rastreados. Acrescenta que “muito mais da metade” dos diagnosticados não se enquadra nos critérios de rastreio, menciona mulheres com câncer de mama como grupo candidato à inclusão e lembra que tomografias feitas por outros motivos — dor abdominal, avaliação cardíaca, infecção — encontram nódulos em pessoas que frequentemente têm risco alto.

A partir daí vem o núcleo do texto. Segundo o autor, até 40% das TCs de tórax identificam um nódulo, apenas 22% dos pacientes com nódulos pequenos fazem o controle no prazo, e metade dos cânceres “sobe de estágio” no intervalo até o exame de controle. A conclusão: se cada achado incidental exige aumento proporcional de revisão manual e navegação, os programas não crescem. A saída proposta é radiômica e IA para separar quem merece atenção de quem pode seguir em vigilância de rotina — sem que a ferramenta tome a decisão final, ressalva Wood.

O que a literatura confirma — e o que não confirma

Conferimos cada número. O dado de participação tem respaldo: a análise da Sociedade Americana de Câncer sobre o National Health Interview Survey de 2024, publicada no JAMA em novembro de 2025, encontrou 18,7% de elegíveis em dia com o rastreio, entre 12,76 milhões de pessoas elegíveis pelos critérios da USPSTF. O mesmo trabalho estimou 62 mil mortes evitáveis em cinco anos se a cobertura fosse total. Já falamos do problema quando cobrimos como a adesão ao rastreio pulmonar com TC vem subindo, ainda que de patamar baixo.

A afirmação de que “muito mais da metade” dos casos fica fora dos critérios é exagerada em relação aos estudos que encontramos. Uma análise nacional americana de adultos com 50 anos ou mais diagnosticados com câncer de pulmão mostrou que 52% cumpriam os critérios da USPSTF de 2021 — ou seja, cerca de metade ficava de fora. Coortes hospitalares menores relatam frações elegíveis de 35% a 64%, dependendo da população. O ponto do autor se sustenta em direção, não em magnitude.

A prevalência de nódulos “de até 40%” também está acima do que a maior série publicada indica. O estudo de Gould e colaboradores no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, com 415 mil TCs de tórax da Kaiser Permanente entre 2006 e 2012, encontrou nódulos em 24% a 31% dos exames — e a tendência era de alta. Em rastreio com baixa dose, programas europeus como o NELSON relataram frações maiores, o que talvez explique o teto de 40%.

Os dois números mais fortes do artigo — 22% de seguimento no prazo e 50% de upstaging — não localizamos em fonte primária, e o texto não os referencia. A literatura mostra algo próximo, mas com outra régua. O estudo de Hedstrom e colegas, publicado na Annals of the American Thoracic Society em 2022 com 4.586 pacientes de dois sistemas de saúde dos veteranos que já tinham rastreadores de nódulo, mostrou que o laudo do radiologista seguiu as diretrizes Fleischner em 86,6% dos casos, mas o seguimento efetivamente realizado concordou com a diretriz em apenas 46%, e com a recomendação do laudo em 54,3%. Em quase 40% dos casos, o controle foi menos agressivo do que o indicado. Sobre estágio, o estudo SUMMIT, publicado na CHEST em 2023, observou que atrasos de três a seis meses no exame de intervalo não mudaram o estágio ao diagnóstico, mas atrasos acima de seis meses triplicaram o risco relativo de doença em estágio II ou superior — com amostra pequena e significância limítrofe. Na Dinamarca, Borg e colegas revisaram 4.066 casos de câncer em estágio IV e concluíram que 45% dos nódulos previamente descritos não haviam sido monitorados de forma adequada.

Fleischner, Lung-RADS e o vazio entre os dois

Parte da complexidade que Wood descreve nasce de haver dois sistemas de conduta. Para nódulos incidentais em adultos a partir de 35 anos, valem as diretrizes da Fleischner Society de 2017: sólido único abaixo de 6 mm dispensa controle de rotina em paciente de baixo risco; entre 6 e 8 mm, TC em 6 a 12 meses; acima de 8 mm, TC em 3 meses, PET/TC ou amostragem tecidual. Para nódulos encontrados em programa de rastreio, vale o Lung-RADS, com categorias que vão do controle anual à investigação imediata. Os intervalos diferem, os limiares diferem, e um nódulo de 7 mm pode receber condutas distintas conforme a porta pela qual entrou.

Isso importa porque o achado incidental não pertence a programa nenhum. No rastreio, há coordenador, registro e agenda de retorno. No incidental, há uma frase no fim de um laudo que o solicitante — muitas vezes um cardiologista ou cirurgião que pediu o exame por outro motivo — pode não ler como prioridade. Já mostramos o custo extremo dessa falha no caso do nódulo de 8 mm que virou câncer em estágio 4 quase três anos depois de descrito corretamente.

Some-se a variabilidade do próprio laudo. Um estudo que cobrimos em agosto mostrou que radiologistas divergem bastante ao ler a mesma TC de pulmão, inclusive na forma de redigir a recomendação. Recomendação em texto livre, sem código nem data-alvo, é invisível para qualquer sistema automatizado.

Onde a IA e a radiômica entram de fato

Aqui é preciso separar duas coisas que o artigo mistura: rastrear pendências e estratificar risco. A primeira é problema de fluxo de trabalho. Ferramentas que extraem recomendações do texto do laudo, geram lista de pendências no RIS ou PACS e escalonam o vencido para um navegador de pacientes já existem e têm retorno claro. Não exigem radiômica; exigem campo estruturado e dono da fila.

A segunda é o território da empresa do autor. Softwares que calculam probabilidade de malignidade a partir da textura do nódulo em TC são realidade regulatória: o Virtual Nodule Clinic, da Optellum, recebeu liberação 510(k) da FDA em março de 2021 com um escore de 1 a 10; o RevealAI-Lung, da RevealDX, obteve liberação em fevereiro de 2026 e gera um índice de similaridade com malignidade. A empresa afirma, em material próprio, que o índice antecipou 40% dos diagnósticos e reduziu 22% dos falsos positivos em coortes de validação — números do fabricante, não de ensaio independente. Vale lembrar também que a IA no rastreio ainda apresenta desempenho desigual em uso real, como discutimos ao cobrir como a sobrevida do câncer sobe e a IA entra no rastreio.

Um escore de risco bem calibrado pode reduzir controles desnecessários em nódulos de baixa probabilidade e antecipar biópsia nos de alta. Mas ele não resolve o gargalo de 46% de concordância: o paciente cujo controle nunca foi agendado continua sem controle, com ou sem escore. A ordem lógica é fechar o circuito primeiro e estratificar depois.

O que muda para o Brasil

O Brasil não tem programa nacional de rastreio de câncer de pulmão. O Projeto de Lei 2550/2024 tramita no Congresso, e a recomendação conjunta de SBCT, SBPT e CBR, publicada em 2024, propõe TC de baixa dose para pessoas de 50 a 80 anos com carga tabágica relevante, mas sem financiamento sistemático. O ProPulmão, do Einstein, é a iniciativa mais longeva; sua versão móvel triou 5.223 pessoas na Bahia entre 2023 e 2025 e realizou 2.018 tomografias. Debatemos as estratégias para ampliar cobertura em nossa cobertura do WCLC 2026.

Na prática, a imensa maioria dos nódulos brasileiros é incidental, encontrada em TCs pedidas por outra razão, e cai em um sistema que raramente conecta laudo, solicitante e agenda. No SUS, a regulação de exame de controle pode levar meses, o que — pelos dados do SUMMIT — é justamente a janela em que o estágio começa a mudar. Antes de qualquer software de radiômica, o passo de maior impacto para um serviço brasileiro é modesto: padronizar a frase de recomendação, marcar o laudo com código recuperável e conferir mensalmente quantas recomendações viraram exame.

Como ler um artigo assinado por quem vende a solução

Nada disso invalida a tese de Wood. Programas de nódulo realmente não escalam por adição de pessoas, e a estratificação de risco por imagem é uma das poucas alavancas que reduzem trabalho em vez de acrescentá-lo. Mas os números mais impressionantes do texto não têm fonte, e o remédio proposto coincide com o produto da empresa que o autor dirige — e que passou a ter reembolso Medicare por códigos CPT específicos após a liberação da FDA. O leitor deve tomar o argumento estrutural, verificar os dados na literatura e exigir validação independente antes de comprar a ferramenta.

Fonte: Radiology Today