Pela primeira vez em 42 anos, a U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) tem um radiologista entre seus membros. O escolhido é Dennis W. Wulfeck, médico com MBA e doutorado em administração em saúde, presidente do conselho da MBB Radiology — prática afiliada à Radiology Partners em Jacksonville, na Flórida. O anúncio saiu do Departamento de Saúde dos EUA (HHS) em 17 de setembro, junto com mais sete nomes, e encerra um jejum de um ano e meio sem que o painel sequer se reunisse.

Quem entrou no painel
A USPSTF tem 16 cadeiras, todas ocupadas por voluntários — não são servidores federais e não recebem pela função. O HHS nomeou oito de uma vez. Além de Wulfeck, entraram o hemato-oncologista pediátrico Seth J. Corey, da Cleveland Clinic, indicado para presidir o grupo; o pediatra Patrick K. Hunter; os cardiologistas Ronald P. Karlsberg (Cedars-Sinai/UCLA) e Venkatesh L. Murthy (Universidade de Michigan), este último da área de cardiologia preventiva; o economista Stephen T. Parente, da Carlson School of Management; a médica de família Goldie Stands-Over-Bull, do Texas Native Health; e o internista e hepatologista Louis J. Wilson.
Wulfeck fez medicina na Wright State University, residência na Universidade de Louisville e fellowship em medicina nuclear na Universidade de Cincinnati. Publicou em medicina nuclear e tem trajetória em gestão de prática radiológica — perfil que ajuda a explicar a escolha. O Colégio Americano de Radiologia (ACR), que há anos pedia mais representação de especialidades no painel, declarou que Wulfeck “traz uma riqueza de experiência e expertise para o cargo”.
Por que a USPSTF importa mais do que parece
Uma recomendação da USPSTF não é uma diretriz acadêmica qualquer. Pela Affordable Care Act, tudo que o painel classifica como grau A (benefício líquido substancial) ou grau B (benefício líquido moderado) precisa ser coberto pelos planos de saúde americanos sem copagamento, sem coparticipação e sem franquia. Grau C significa oferta seletiva; grau D, recomendação contrária; e o grau I — “evidência insuficiente” — é o limbo onde vai parar o que não tem estudo suficiente para decidir. Na prática, sair de I para B pode significar milhões de exames financiados; o caminho inverso esvazia um programa de rastreamento.
Esse poder foi confirmado judicialmente há pouco mais de um ano. Em junho de 2025, a Suprema Corte dos EUA julgou Kennedy v. Braidwood Management e manteve a estrutura da força-tarefa de pé — justamente porque seus membros podem ser demitidos à vontade pelo secretário de Saúde, o que os torna, na leitura da Corte, subordinados devidamente supervisionados. A decisão salvou o mandato de cobertura obrigatória e, no mesmo movimento, deixou explícito que a caneta das nomeações é do secretário.
A mamografia, a cicatriz que não fechou
A relação da radiologia com o painel é antiga e áspera, e tem uma data de origem: 2009, quando a USPSTF elevou de 40 para 50 anos a idade recomendada para iniciar o rastreamento mamográfico e passou a sugerir intervalo bienal. A reação foi imediata e durou anos. Só em 2023 o grupo sinalizou o retorno aos 40, confirmado na recomendação final de 2024, que hoje classifica como grau B a mamografia bienal entre 40 e 74 anos.
O estrago dos 15 anos intermediários é mensurável — já mostramos aqui como a adesão à mamografia caiu após a mudança de diretriz de 2009. E ficou pendência: ao atualizar a recomendação, o painel não endossou o rastreamento suplementar em mamas densas, dando nota I por evidência insuficiente. Isso apesar de a densidade mamária ser, ao mesmo tempo, fator de risco para câncer e redutor da sensibilidade da mamografia — um ponto em que a literatura vem avançando rápido, como no estudo que mostrou a ressonância superando a mamografia em mamas densas.
O que a presença de um radiologista pode (e não pode) mudar
Convém calibrar a expectativa. Um voto em dezesseis não reescreve metodologia. A USPSTF trabalha com revisões sistemáticas encomendadas a centros de prática baseada em evidência, e o que pesa na nota final é o balanço entre benefício e dano — sobrediagnóstico, falso-positivo, biópsia desnecessária, radiação. Nada disso muda porque entrou um radiologista.
O que pode mudar é a qualidade da discussão técnica sobre desempenho de exame. Quem lauda sabe distinguir o que é limitação intrínseca do método do que é limitação do programa: protocolo mal desenhado, equipamento fora de calibração, ausência de leitura dupla, fila de seguimento inexistente. Essa distinção quase nunca aparece nas revisões sistemáticas, e é ela que separa um teste ruim de um teste bem-feito no lugar errado. A mesma discussão está em curso no rastreamento pulmonar: as sessões do WCLC 2026 mostraram, ao comparar programas nacionais de TC de baixa dose, que o resultado depende muito mais da organização do programa do que do scanner.
As ressalvas que ninguém deveria ignorar
O contexto político é inseparável do anúncio. O secretário Robert F. Kennedy Jr. tem histórico de desconfiança em relação ao establishment médico americano, e sob sua gestão o painel passou 18 meses sem se reunir — a última convocação foi em março de 2025 e a última recomendação publicada, em julho daquele ano. Em maio, ele desligou dois dirigentes do grupo, o presidente John Wong e a vice-presidente Esa Davis, sob o argumento de que haviam sido “indevidamente nomeados”.
Entidades médicas já sinalizaram que vão examinar o trabalho do novo colegiado com lupa, sobretudo em temas sensíveis. A American Kidney Fund reclamou da ausência de nefrologia no painel, com recomendações de rastreamento de doença renal crônica em aberto. E a USPSTF ainda não marcou a próxima reunião. Ou seja: existe um radiologista na mesa, mas a mesa ainda não voltou a funcionar.
Leitura para o contexto brasileiro
Aqui a arquitetura é outra, mas o dilema é o mesmo. O Ministério da Saúde e o INCA recomendam mamografia bienal dos 50 aos 69 anos na rede pública, enquanto o Colégio Brasileiro de Radiologia, a SBM e a Febrasgo defendem início anual aos 40 — divergência que reproduz, com uma década de atraso, exatamente a briga que a USPSTF travou em 2009. Já a TC de baixa dose para pulmão não integra a carteira de rastreamento do SUS, apesar de evidência robusta de redução de mortalidade.
Por que isso importa fora dos EUA? Porque o parecer da USPSTF é referência internacional citada em nota técnica, em decisão de operadora e em litígio. Quando o painel muda uma nota, a onda chega. Vale acompanhar o que esse colegiado vai produzir — e com qual método — antes de importar a conclusão.
Fonte: The Imaging Wire




