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A Vanderbilt Health passou a usar imagem de PET/CT intraoperatório em cirurgias de câncer de mama e afirma ser a primeira instituição dos Estados Unidos a aplicar a tecnologia nesse tipo de tumor. Na prática, a equipe consegue avaliar se as margens do tumor estão livres de doença ainda dentro da sala de cirurgia — em questão de minutos, e não nos vários dias que a análise patológica convencional costuma exigir.

Equipe cirúrgica revisa imagens de tumor de mama na sala de cirurgia da Vanderbilt Health
Da esquerda para a direita, Andreja Radevic, Denise Garcia, MD, e Kyrionna Golliday revisam a imagem de um tumor de mama na sala de cirurgia. Crédito: Vanderbilt Health / foto de Michael Topf.

O procedimento é um desdobramento de um protocolo introduzido em 2025 para cirurgias de câncer de cabeça e pescoço, e representa mais um passo na aproximação entre diagnóstico por imagem e o próprio ato cirúrgico. A seguir, entenda quem está por trás da iniciativa, como a técnica funciona e por que ela interessa a serviços de radiologia e oncologia no Brasil e na América Latina.

O que a Vanderbilt anunciou

Segundo a instituição, a expansão do PET/CT intraoperatório para o câncer de mama é inédita nos Estados Unidos. O trabalho pioneiro em cabeça e pescoço foi liderado pelo Dr. Michael Topf, professor associado de otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço no Vanderbilt University Medical Center. Naquele protocolo, a imagem intraoperatória era usada para verificar, ainda durante a operação, se o tumor havia sido completamente removido.

A adaptação para a mama foi conduzida pela Dra. Denise Garcia, professora assistente de cirurgia na divisão de oncologia cirúrgica e cirurgia endócrina. “Nossa equipe tem orgulho de aplicar a técnica a um tipo de tumor que ainda não havia sido submetido a imagem com a finalidade de avaliar o status das margens”, afirmou Garcia em comunicado. “À medida que nossa instituição expande as metodologias de tratamento para mais tipos de câncer, podemos curar mais pacientes e dar a eles a tranquilidade de que a cirurgia foi concluída com precisão.”

Como funciona o PET/CT intraoperatório

Durante a operação, a paciente recebe um agente de imagem radioativo — um radiotraçador — que se concentra no tecido tumoral e o “acende” nas imagens. Depois que o cirurgião remove o tumor, a peça cirúrgica é colocada dentro do Aura 10, um PET/CT móvel desenvolvido pela empresa belga Xeos. O equipamento gera as imagens na própria sala de cirurgia, permitindo que a equipe avalie as margens sem enviar o material ao laboratório de patologia.

De acordo com a Vanderbilt, essa abordagem reduz o tempo de avaliação das margens cirúrgicas de vários dias para poucos minutos. Se a imagem indicar que ainda há câncer na borda da peça retirada, o cirurgião pode continuar a operação imediatamente, em vez de agendar um segundo procedimento após o resultado da patologia. A instituição também destacou que o novo protocolo permite administrar o radiotraçador no próprio dia da cirurgia, e não com antecedência, o que resulta em uma dose de radiação menor do que a dos fluxos de trabalho anteriores.

Por que a avaliação de margens é decisiva

No câncer de mama, especialmente nas cirurgias conservadoras (como a quadrantectomia), o objetivo é retirar todo o tumor preservando o máximo de tecido saudável. Quando a análise revela margens comprometidas — ou seja, células cancerosas nas bordas da peça retirada —, a paciente frequentemente precisa voltar ao centro cirúrgico para uma nova ressecção. Essas reoperações aumentam custos, ansiedade e riscos associados a uma segunda anestesia.

A promessa do PET/CT intraoperatório é justamente encurtar esse ciclo. Trazer a decisão sobre as margens para dentro da sala de cirurgia dialoga com um movimento mais amplo da imagem mamária, no qual ferramentas como a inteligência artificial aplicada à avaliação de risco de câncer de mama e a ressonância magnética em mamas densas vêm ampliando a precisão em cada etapa do cuidado. A radiologia deixa de ser apenas diagnóstica e passa a atuar em tempo real ao lado do cirurgião.

Implicações clínicas e relevância para o Brasil

Se confirmada em estudos maiores, a técnica pode reduzir a taxa de reoperações, melhorar a experiência da paciente e otimizar o fluxo dentro do bloco cirúrgico. Para o contexto brasileiro e latino-americano — onde o câncer de mama é o tumor mais frequente entre mulheres e o acesso a laboratórios de patologia ágeis nem sempre é uniforme —, uma leitura de margens feita em minutos poderia aliviar gargalos e apoiar a padronização de condutas. Além disso, decisões cirúrgicas mais precisas ajudam a mitigar disputas ligadas a erros no manejo do câncer de mama, um tema sensível também do ponto de vista jurídico.

Vale lembrar que o uso de radiotraçadores em PET/CT vem se diversificando muito além da oncologia clássica, como mostram investigações recentes sobre PET/CT e agentes que atuam sobre o metabolismo. Esse acúmulo de experiência com medicina nuclear tende a facilitar a incorporação de protocolos intraoperatórios no futuro.

Perspectivas futuras e limitações

Apesar do entusiasmo, é preciso cautela. A própria Vanderbilt informou que ainda não divulgou dados de desfecho clínico nem resultados comparativos de desempenho para a tecnologia. Em outras palavras, ainda não há evidência publicada de que o PET/CT intraoperatório melhore os resultados cirúrgicos ou reduza, de fato, as taxas de reoperação em pacientes com câncer de mama. Serão necessários estudos adicionais para responder a essas perguntas e para definir custo-efetividade, curva de aprendizado e melhor perfil de paciente.

Ainda assim, o anúncio sinaliza uma direção clara: a integração cada vez mais estreita entre imagem molecular e cirurgia oncológica. Para os serviços de radiologia, acompanhar de perto essa evolução é fundamental — tanto para antecipar demandas de infraestrutura de medicina nuclear quanto para posicionar a imagem como parceira do centro cirúrgico. A RT Medical seguirá monitorando os próximos resultados e o eventual caminho de validação clínica dessa promissora tecnologia.

Fonte: DOTmed