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Esaote leva RM aberta para dentro da sala de glioma

A italiana Esaote apresentou em 4 de maio de 2026, durante o encontro anual da American Association of Neurological Surgeons (AANS) em San Antonio, a atualização do I-Genius — seu primeiro sistema de RM aberta projetado especificamente para imagem intraoperatória em cirurgia de glioma. O equipamento foi desenhado em parceria com neurocirurgiões internacionais para permitir múltiplas aquisições de RM ao longo da operação sem que o paciente precise sair da mesa cirúrgica. A proposta enfrenta um problema clínico bem conhecido: durante a ressecção de tumores cerebrais, distinguir tecido tumoral residual de parênquima saudável é difícil, e cirurgiões dependem hoje de neuronavegação, mapeamento eletrofisiológico e cirurgia com paciente acordado — recursos úteis, mas que não fornecem evidência tridimensional do quanto de tumor já foi removido.

Radiologista analisando exames de RM cerebral em monitor médico
O I-Genius da Esaote propõe RM aberta na própria sala cirúrgica, com aquisições repetidas durante a ressecção de glioma.

Após a apresentação inicial à comunidade neurocirúrgica no congresso EANS 2025 em Viena, o I-Genius entra agora em uma nova fase, com interesse internacional crescente e caminho definido rumo à liberação no mercado dos Estados Unidos. O sistema permanece em análise da FDA e ainda não está disponível para venda em território americano, mas já vem sendo discutido como referência funcional em centros de neuro-oncologia.

Por que a RM intraoperatória deixou de ser opcional

Estudos das últimas duas décadas mostram que a extensão da ressecção (extent of resection — EOR) é um dos fatores prognósticos mais consistentes em gliomas de alto grau, com correlação direta com sobrevida global e sobrevida livre de progressão. O problema é que a estimativa intraoperatória de EOR baseada apenas em inspeção visual e neuronavegação é imprecisa, especialmente após o brain shift causado pela drenagem liquórica e remoção tecidual. Sistemas de RM intraoperatória reduzem essa margem de erro ao oferecer imagens novas durante a cirurgia, e múltiplas séries publicadas mostram aumento da taxa de ressecção total a partir da adoção da técnica.

Até agora, a maior parte dos sistemas iMRI no mercado opera em alto campo (1.5T ou 3T) e exige salas dedicadas com forte blindagem, fluxos elaborados e custos de implantação altos. Tradicionalmente, isso restringiu o acesso a centros acadêmicos. O I-Genius adota um caminho alternativo com magneto aberto e geometria que permite manter o paciente posicionado em uma única mesa, o que reduz fricção operacional e amplia o leque de hospitais aptos a adotar a tecnologia.

O que diz o I-Genius na prática

O sistema é otimizado para o ambiente cirúrgico: o paciente permanece na mesma mesa durante todo o procedimento, e o cirurgião pode disparar múltiplas aquisições de RM sem reposicionamento. Isso encurta o tempo de procedimento e reduz risco de contaminação por movimentação. Para o neurocirurgião Roberto Herrera, chefe de neurocirurgia da Clínica Adventista Belgrano em Buenos Aires, "sistemas de RM intraoperatória como o I-Genius mudam o paradigma da cirurgia de glioma ao oferecer múltiplas aquisições de RM diretamente na sala cirúrgica, sem disrupção do fluxo de trabalho ou exigência de infraestrutura complexa, transformando a cirurgia de estimativa em medida objetiva".

Massimo Olmi, MRI Marketing Director da Esaote, destacou que o objetivo é melhorar eficiência operacional, reduzir custos, encurtar tempo de procedimento e elevar o padrão de cuidado. A configuração aberta também tem vantagem ergonômica para a equipe — o cirurgião e o anestesista têm mais espaço de manobra do que em um magneto fechado convencional, o que pode reduzir cansaço em procedimentos longos.

Implicações para o Brasil e a América Latina

Centros de neuro-oncologia brasileiros que vêm modernizando seu parque de neurocirurgia precisam observar o I-Genius com atenção. A combinação de magneto aberto, mesa única e workflow simplificado pode tornar a RM intraoperatória factível em hospitais que hoje não têm capital ou estrutura para sistemas de alto campo dedicados. O modelo de plataforma também é coerente com a tendência geral de imagem médica de valorizar workflow e custo total de propriedade — temas tratados no guia sobre eficiência de interpretação em radiologia e na expansão de US$ 20 milhões em oncologia e imagem da Rochester Regional.

Para que a tecnologia se viabilize na rotina, três condições precisam estar presentes. Primeiro, integração com o PACS hospitalar para que as séries intraoperatórias sejam arquivadas, comparadas e revisadas pela equipe de neurorradiologia. Segundo, treinamento conjunto da equipe cirúrgica e radiológica em fluxos seguros — o que envolve política de objetos ferromagnéticos, instrumental compatível e ressuscitação em ambiente magnético. Terceiro, regulação local: a Anvisa precisa habilitar o equipamento, e o produto ainda está em revisão FDA, o que sugere que a chegada ao Brasil pode ocorrer em janela próxima da norte-americana.

Limitações e o que monitorar

O sistema aberto tem trade-offs conhecidos em relação a magnetos fechados de 1.5T e 3T: relação sinal-ruído menor, gradientes potencialmente mais lentos e suíte de sequências eventualmente reduzida. Para neurocirurgia, no entanto, a métrica que importa é a capacidade de delimitar tecido residual, e isso depende muito mais de protocolos otimizados (FLAIR, DWI, contraste) do que apenas de campo magnético elevado. Resultados clínicos publicados a partir dos primeiros centros adotantes serão decisivos para validar a abordagem.

O contexto é favorável. A movimentação intensa de capital para IA radiológica indica que ferramentas de pós-processamento — segmentação automática de glioma, quantificação de volume residual, comparação com plano pré-operatório — devem chegar à rotina do iMRI nos próximos anos, ampliando ainda mais o valor agregado de sistemas como o I-Genius. Próximos sinais a monitorar incluem aprovação FDA, primeiros sites comerciais fora da Europa, parcerias com fabricantes de equipamentos cirúrgicos e publicações com EOR comparativo.

Fonte: Imaging Technology News — Esaote Presents Update on Open MRI System for Intraoperative Brain Tumor Imaging.