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ISO 7101: A Certificação que Transforma a Gestão da Saúde

A qualidade no atendimento à saúde deixou de ser apenas um diferencial competitivo — tornou-se uma exigência global. Com a publicação da ABNT NBR ISO 7101:2025, o Brasil ganha a primeira norma internacional certificável desenvolvida exclusivamente para organizações de cuidados à saúde. Mas o que isso significa, na prática, para hospitais, clínicas e centros de diagnóstico?

Equipe médica discutindo gestão da qualidade em hospital, representando os princípios da ISO 7101
Crédito: RDNE Stock project / Pexels

Diferente de normas genéricas como a ISO 9001, a ISO 7101 foi construída pensando nas particularidades do setor de saúde. Ela incorpora conceitos como segurança do paciente, cuidado centrado nas pessoas, ética clínica e até responsabilidade ambiental — dimensões que normas anteriores simplesmente não contemplavam com a profundidade necessária.

Elaborada pelo Comitê Técnico ISO/TC 304 e adotada no Brasil pela ABNT como NBR ISO 7101:2025, a norma estabelece requisitos claros para que qualquer organização de saúde — seja ela pública, privada ou filantrópica — demonstre sua capacidade de entregar cuidados de alta qualidade de forma consistente. Quem já trabalha com Núcleos de Segurança do Paciente vai reconhecer muitos dos conceitos, agora formalizados em um framework certificável.

Quem Pode Buscar a Certificação ISO 7101?

Uma das grandes virtudes da norma é sua aplicabilidade universal dentro do setor de saúde. Não importa o porte da instituição, a especialidade ou o modelo de gestão: a ISO 7101 foi projetada para ser relevante em contextos diversos.

Podem buscar a certificação:

  • Hospitais de qualquer porte e complexidade
  • Clínicas ambulatoriais e especializadas
  • Laboratórios de análises clínicas e patologia
  • Centros de diagnóstico por imagem
  • Unidades de pronto-atendimento (UPAs)
  • Organizações de saúde pública, incluindo sistemas municipais e estaduais

A norma não exige uma estrutura específica de governança. Ela se adapta à realidade de cada organização, desde que os requisitos fundamentais sejam atendidos e documentados. Isso democratiza o acesso à certificação, algo que modelos anteriores de acreditação nem sempre conseguiam.

Os Pilares do Sistema de Gestão da Qualidade em Saúde

A estrutura da ISO 7101 segue a lógica das normas de sistemas de gestão da ISO — o que facilita a integração com outros padrões já implementados. Porém, cada seção foi adaptada ao universo dos cuidados à saúde.

Liderança e Comprometimento da Alta Direção

Nenhum sistema de qualidade funciona sem engajamento genuíno da liderança. A norma é enfática: a Alta Direção deve definir missão, visão e valores, criar estruturas de governança da qualidade e garantir recursos adequados — incluindo força de trabalho qualificada em quantidade e competência suficientes.

Não se trata de criar documentos bonitos para auditorias. A expectativa é de uma cultura da qualidade que permeie todos os níveis da organização, do conselho administrativo à equipe assistencial.

Segurança do Paciente como Pilar Central

Profissional de saúde verificando protocolo de segurança do paciente conforme requisitos ISO 7101
Crédito: RDNE Stock project / Pexels

A seção 8.12 da norma detalha requisitos específicos para segurança do paciente que vão muito além do básico. São abordados temas como identificação correta do paciente, segurança na medicação, segurança cirúrgica, prevenção e controle de infecções (PCI), prevenção de quedas e lesões por pressão, segurança diagnóstica e até protocolos para transfusões de sangue.

O diferencial aqui é a abordagem sistêmica. A norma não pede apenas que eventos adversos sejam notificados — ela exige que a organização crie uma cultura justa, onde profissionais de saúde são apoiados e tratados com equidade quando algo sai errado, favorecendo o aprendizado em vez da punição.

Cuidado Centrado nas Pessoas

Quando falamos em “cuidado centrado nas pessoas”, estamos indo além da satisfação do paciente. A ISO 7101 trata de coprodução — o envolvimento ativo de pacientes, familiares e cuidadores no planejamento e execução dos cuidados. Também aborda letramento em saúde, dignidade, cuidado compassivo e inclusão.

Essa perspectiva reflete uma mudança de paradigma: o paciente deixa de ser receptor passivo e se torna parceiro no processo de cuidado. Para organizações que já trabalham com programas de experiência do paciente, a norma oferece uma base estruturada para consolidar essas iniciativas.

O Modelo PDSA na Prática Hospitalar

A ISO 7101 adota o ciclo PDSA (Plan-Do-Study-Act) — uma variação do tradicional PDCA, com “Study” substituindo “Check”. Essa diferença não é apenas semântica: enquanto “Check” sugere verificação, “Study” implica análise profunda dos resultados para gerar aprendizado real.

Na prática, o ciclo funciona assim:

  • Planejar: Definir objetivos da qualidade alinhados à política institucional e identificar riscos e oportunidades (Seção 6)
  • Fazer: Implementar processos, alocar recursos, desenvolver competências e gerenciar operações (Seções 7 e 8)
  • Estudar: Monitorar indicadores de qualidade, conduzir auditorias internas e avaliar desempenho clínico e operacional (Seção 9)
  • Agir: Tratar não conformidades, implementar ações corretivas e promover melhoria contínua (Seção 10)

Esse modelo iterativo é particularmente poderoso em ambientes de saúde, onde a complexidade dos processos exige ajustes constantes. Instituições que já adotam metodologias de melhoria contínua encontrarão na norma um arcabouço formal para documentar e evidenciar suas práticas.

Gestão de Riscos e Cultura de Risco

Um dos aspectos mais inovadores da ISO 7101 é sua abordagem à gestão de riscos. A norma não se limita a exigir avaliações de risco pontuais — ela demanda a criação de uma cultura de risco organizacional.

Isso significa que todos os profissionais, independentemente do nível hierárquico, devem ser capazes de identificar, avaliar e comunicar riscos em suas atividades cotidianas. A gestão de riscos deixa de ser responsabilidade exclusiva de um comitê e passa a ser competência institucional. Para quem acompanha normas regulatórias no setor, como a Norma CNEN NN 6.10, essa mentalidade já é familiar — mas a ISO 7101 amplia o conceito para toda a organização de saúde.

Operação: Da Infraestrutura às Tecnologias Emergentes

A seção operacional da norma (Seção 8) é abrangente. Além dos itens esperados — planejamento operacional, gestão de instalações, equipamentos — há requisitos para temas cada vez mais relevantes:

  • Gerenciamento de resíduos: Incluindo redução de resíduos e responsabilidade ambiental
  • Tecnologias emergentes: A norma reconhece que inovações tecnológicas precisam ser gerenciadas dentro do sistema de qualidade
  • Provedores externos: Requisitos para suprimentos e serviços terceirizados, garantindo que a cadeia de valor mantenha o mesmo padrão
  • Bem-estar da força de trabalho: Não apenas segurança ocupacional, mas o bem-estar integral dos profissionais de saúde

Para instituições que já trabalham com processos de acreditação, muitos desses requisitos serão familiares. A diferença é que agora existe um padrão ISO unificado, reconhecido internacionalmente, que integra tudo sob um único framework.

Benefícios Concretos da Certificação

Além do valor intrínseco de melhorar processos, a certificação ISO 7101 traz vantagens tangíveis:

  • Credibilidade institucional: O selo ISO é reconhecido mundialmente — diferente de programas de acreditação regionais
  • Conformidade regulatória: A norma ajuda a atender requisitos da ANVISA, do Ministério da Saúde e de órgãos reguladores
  • Redução de eventos adversos: Processos estruturados de segurança do paciente reduzem riscos clínicos
  • Eficiência operacional: Processos documentados e padronizados eliminam desperdícios e redundâncias
  • Diferencial competitivo: Em um mercado cada vez mais exigente, a certificação pode ser decisiva na escolha de pacientes e operadoras
  • Melhoria do clima organizacional: O foco no bem-estar da força de trabalho reduz turnover e absenteísmo

Como se Preparar para a Certificação

O caminho até a certificação ISO 7101 exige planejamento, mas não precisa ser traumático. Algumas recomendações práticas:

  1. Diagnóstico inicial: Mapeie seus processos atuais contra os requisitos da norma. Identifique gaps e prioridades
  2. Engajamento da liderança: Sem o comprometimento da Alta Direção, qualquer esforço será superficial
  3. Formação de equipe: Capacite multiplicadores internos que entendam a norma e possam conduzir a implementação
  4. Documentação inteligente: Documente o necessário, sem burocratizar. A norma pede evidências, não montanhas de papel
  5. Auditorias internas: Comece cedo a praticar auditorias internas. Elas são a melhor ferramenta de aprendizado
  6. Melhoria contínua: Não espere a perfeição para buscar a certificação. O ciclo PDSA pressupõe evolução constante

Considerações Finais

A ABNT NBR ISO 7101:2025 marca um momento importante para o setor de saúde brasileiro. Pela primeira vez, existe uma norma ISO certificável que fala a linguagem dos profissionais de saúde — abordando segurança do paciente, ética, cuidado centrado nas pessoas e melhoria contínua de forma integrada.

Para gestores que já investem em qualidade, a norma oferece um framework consolidado e internacionalmente reconhecido. Para aqueles que estão iniciando essa jornada, ela representa um roteiro claro e estruturado. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: cuidados mais seguros, eficientes e centrados nas necessidades reais dos pacientes.

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