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Medir resultados e melhorar continuamente são os pilares que sustentam qualquer sistema de gestão da qualidade. A ABNT NBR ISO 7101:2025 dedica suas Seções 9 e 10 a esses temas, estabelecendo requisitos claros para monitoramento, auditoria interna, análise crítica pela direção, tratamento de não conformidades e melhoria contínua em organizações de cuidados à saúde.

Equipe de profissionais de saúde sorrindo em corredor hospitalar
Foto: RDNE Stock project / Pexels

Este artigo complementa a nossa série sobre a ISO 7101. Para contexto, consulte ISO 7101: Primeira Certificação ISO para Saúde e ISO 7101: Requisitos de Apoio (Seção 7).

9.1 Monitoramento, medição, análise e avaliação

A Seção 9.1 é uma das mais extensas da norma e se desdobra em quatro subseções que formam o núcleo do sistema de medição de desempenho.

9.1.1 Generalidades

A organização deve determinar:

  • O que precisa ser monitorado e medido.
  • Os métodos de monitoramento, medição, análise e avaliação necessários para assegurar resultados válidos.
  • Quando o monitoramento e a medição devem ser realizados.
  • Quando os resultados devem ser analisados e avaliados.

A norma exige que a organização retenha informação documentada como evidência dos resultados. Isso significa que não basta coletar dados: é preciso documentar sistematicamente o que foi medido, quando, por quem e quais foram os resultados.

9.1.2 Indicadores da qualidade em cuidados à saúde

Este é um dos pontos mais diferenciadores da ISO 7101 em relação a normas genéricas. A norma exige que a organização estabeleça indicadores de saúde (conforme definição 3.38) que resumam informações sobre tópicos prioritários da saúde da população ou do desempenho do sistema de cuidados.

Os indicadores devem ser:

  • Comparáveis entre diferentes contextos geográficos, organizacionais ou administrativos.
  • Capazes de rastrear o progresso ao longo do tempo.
  • Acionáveis para a tomada de decisão.

9.1.3 Métodos

A organização deve definir e documentar os métodos utilizados para coleta, análise e interpretação dos dados. Isso inclui metodologias estatísticas, ferramentas de análise e critérios de validação dos dados coletados.

9.1.4 Resultados

Os resultados do monitoramento e medição devem ser analisados para avaliar:

  • A conformidade dos serviços prestados.
  • O grau de satisfação dos usuários do serviço.
  • O desempenho e a eficácia do sistema de gestão da qualidade.
  • Se o planejamento foi implementado eficazmente.
  • A eficácia das ações tomadas para abordar riscos e oportunidades.
  • O desempenho de provedores externos.
  • A necessidade de melhorias no sistema.

9.2 Auditoria interna

A Seção 9.2 estabelece que a organização deve conduzir auditorias internas a intervalos planejados para verificar se o sistema de gestão da qualidade está em conformidade com os requisitos da norma e é efetivamente implementado e mantido.

9.2.1 Generalidades

As auditorias internas (definidas na seção 3.19 como processo sistemático e independente para obter evidência e avaliá-la objetivamente) devem ser conduzidas pela própria organização ou por parte externa em seu nome.

9.2.2 Programa de auditoria interna

A organização deve planejar, estabelecer, implementar e manter um programa de auditoria que considere:

  • A importância dos processos a serem auditados.
  • As mudanças que afetam a organização.
  • Os resultados de auditorias anteriores.

Para cada auditoria, a organização deve:

  • Definir critérios e escopo.
  • Selecionar auditores que assegurem objetividade e imparcialidade.
  • Assegurar que os resultados sejam relatados à gestão pertinente.
  • Executar ações corretivas necessárias sem demora.
  • Reter informação documentada como evidência.

Exemplo prático: Um hospital pode estruturar seu programa de auditoria com ciclos trimestrais por setor: Q1 – centro cirúrgico e UTI; Q2 – ambulatórios e diagnóstico; Q3 – farmácia e suprimentos; Q4 – administrativo e suporte. A cada ciclo, os achados anteriores são revisados para verificar a eficácia das ações corretivas.

9.3 Análise crítica pela Alta Direção

A análise crítica é o momento em que a Alta Direção avalia formalmente o sistema de gestão da qualidade para assegurar sua contínua adequação, pertinência e eficácia.

9.3.1 Generalidades

A análise deve ser realizada a intervalos planejados e considerar o alinhamento com a direção estratégica da organização.

9.3.2 Entradas da análise crítica

As entradas devem incluir informações sobre:

  • Situação de ações de análises críticas anteriores.
  • Mudanças em questões externas e internas pertinentes.
  • Informações sobre desempenho e eficácia do sistema, incluindo: satisfação do usuário, cumprimento dos objetivos de qualidade, desempenho dos processos, não conformidades e ações corretivas, resultados de monitoramento e medição, resultados de auditoria e desempenho de provedores externos.
  • Adequação de recursos.
  • Eficácia das ações tomadas para abordar riscos e oportunidades.
  • Oportunidades de melhoria.

9.3.3 Resultados da análise crítica

Os resultados devem incluir decisões e ações relacionadas a:

  • Oportunidades de melhoria.
  • Necessidade de mudanças no sistema de gestão da qualidade.
  • Necessidade de recursos.

A organização deve reter informação documentada como evidência dos resultados.

10.1 Melhoria contínua

A Seção 10 é o coroamento do ciclo PDSA (Planejar-Fazer-Estudar-Agir) que fundamenta toda a norma.

A organização deve melhorar continuamente a adequação, pertinência e eficácia do sistema de gestão da qualidade na organização de cuidados à saúde. Para isso, deve considerar:

  • Os resultados de análise e avaliação (Seção 9.1).
  • Os resultados de auditoria interna (Seção 9.2).
  • Os resultados de análise crítica pela direção (Seção 9.3).

A melhoria contínua não é um evento pontual, mas uma atividade recorrente (definição 3.12) integrada à cultura organizacional. Ela deve permear todos os níveis da organização, desde a Alta Direção até os profissionais da linha de frente.

10.2 Não conformidade e ação corretiva

A Seção 10.2 detalha como tratar desvios e evitar sua recorrência.

10.2.1 Generalidades

Quando uma não conformidade (definição 3.17: não atendimento a um requisito) ocorrer, a organização deve:

  • a) Reagir à não conformidade, tomando ação para controlá-la e corrigi-la, e lidar com as consequências.
  • b) Avaliar a necessidade de ação para eliminar as causas, de modo que não se repita ou ocorra em outro lugar.
  • c) Implementar qualquer ação necessária.
  • d) Analisar criticamente a eficácia de qualquer ação corretiva tomada.
  • e) Atualizar riscos e oportunidades, se necessário.
  • f) Realizar mudanças no sistema de gestão da qualidade, se necessário.

As ações corretivas devem ser proporcionais aos efeitos das não conformidades encontradas.

10.2.2 Gestão de não conformidade e ação corretiva

A organização deve ter um processo para identificar não conformidades, incluindo reclamações, e deve:

  • Investigar a causa da não conformidade.
  • Determinar se não conformidades similares existem ou poderiam ocorrer.
  • Implementar ações e avaliar sua eficácia.
  • Reter informação documentada da natureza das não conformidades, ações tomadas e resultados.

Exemplo prático: Ao identificar que pacientes estão recebendo alta sem orientações claras sobre medicação, o hospital deve: (1) corrigir imediatamente fornecendo orientações aos pacientes afetados; (2) investigar a causa raiz (falta de checklist? treinamento insuficiente? pressão de tempo?); (3) implementar ação corretiva (novo checklist de alta, treinamento de equipe); (4) monitorar se a taxa de reinternação por uso incorreto de medicação diminui nos meses seguintes.

O ciclo PDSA na prática hospitalar

A norma adota explicitamente o modelo PDSA (Plan-Do-Study-Act), conforme descrito na Seção 0.4 da introdução. Diferente do PDCA tradicional, o “Study” (Estudar) substitui o “Check” (Verificar), enfatizando uma análise mais profunda dos resultados.

Etapa PDSA Seções da norma Exemplo prático
Planejar Seção 6 (Planejamento) Definir meta de reduzir infecções de sítio cirúrgico em 30% em 12 meses
Fazer Seções 7 e 8 (Apoio e Operação) Implementar checklist cirúrgico, treinar equipe, adquirir insumos
Estudar Seção 9 (Avaliação de desempenho) Monitorar taxa de infecção mensal, auditar adesão ao checklist, analisar tendências
Agir Seção 10 (Melhoria) Ajustar protocolo com base nos achados, expandir para outros procedimentos, padronizar

KPIs práticos para organizações de saúde

Com base nos requisitos das Seções 9 e 10, sugerimos os seguintes indicadores-chave de desempenho:

Indicadores de segurança do paciente

  • Taxa de eventos adversos por 1.000 pacientes-dia: Monitora a segurança global da assistência.
  • Taxa de infecções relacionadas à assistência (IRAS): Indicador específico exigido pela maioria dos reguladores.
  • Taxa de quedas com lesão: Particularmente relevante em unidades geriátricas e de reabilitação.
  • Adesão ao protocolo de identificação do paciente: Meta recomendada: acima de 95%.

Indicadores de experiência do usuário

  • Net Promoter Score (NPS): Mede a probabilidade de recomendação da instituição.
  • Tempo médio de espera para atendimento: Por tipo de serviço (urgência, consulta, exame).
  • Taxa de resolução de reclamações dentro do prazo: Meta sugerida: 90% em até 30 dias.

Indicadores de eficácia do sistema de gestão

  • Percentual de não conformidades com ação corretiva concluída: Meta: 100% dentro do prazo estabelecido.
  • Percentual de objetivos da qualidade atingidos: Avaliado em cada análise crítica.
  • Taxa de fechamento de achados de auditoria: Percentual de achados resolvidos no prazo acordado.
  • Horas de treinamento por colaborador/ano: Monitora o investimento em competência.

Indicadores operacionais

  • Taxa de ocupação de leitos: Equilibrar eficiência com qualidade do cuidado.
  • Tempo médio de permanência (TMP): Por diagnóstico principal, comparado com benchmarks.
  • Taxa de reinternação em 30 dias: Indicador indireto da qualidade do cuidado e da alta.
  • Tempo de resposta a resultados críticos de laboratório: Meta: notificação em até 30 minutos.

Conclusão

As Seções 9 e 10 da ISO 7101 formam o motor de evolução contínua do sistema de gestão da qualidade. Sem monitoramento sistemático (9.1), auditoria interna rigorosa (9.2), análise crítica estratégica pela direção (9.3) e tratamento eficaz de não conformidades (10.2), o sistema se torna estático e perde relevância.

O diferencial da ISO 7101 está em contextualizar esses requisitos para a realidade da saúde: indicadores de saúde específicos, comunicação clínica, segurança do paciente e cuidado centrado nas pessoas permeiam toda a norma, tornando-a genuinamente aplicável ao setor.

Para continuar explorando a ISO 7101:

Referência: ABNT NBR ISO 7101:2025. Gestão de organizações de cuidados à saúde – Sistemas de gestão da qualidade em organizações de cuidados à saúde – Requisitos. Primeira edição, 23.07.2025. ISO 2023 / ABNT 2025.