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Integração HIS-RIS-PACS: Por Que Ainda é Tão Difícil?

A integração entre sistemas hospitalares não deveria ser um desafio em pleno 2026 — mas continua sendo. Conectar o HIS (Sistema de Informação Hospitalar), o RIS (Sistema de Informação Radiológica) e o PACS (Sistema de Arquivamento e Comunicação de Imagens) exige muito mais do que simplesmente comprar os três de um mesmo fornecedor. Na prática, essa decisão aparentemente simples pode se tornar a raiz dos seus maiores problemas operacionais. Para uma visão completa do ecossistema DICOM e sua aplicação clínica, confira nosso guia completo sobre DICOM na prática clínica.

Diagrama de integração de aplicações em worklist radiológico unificado, mostrando botões View PACS, Report, Acquire e Analyze conectados a diferentes sistemas
Interface worklist unificada integrando RIS, PACS e modalidades em fluxo contínuo

Existem três cenários clássicos de integração, e vale a pena entender cada um antes de investir centenas de milhares de reais em infraestrutura.

O Cenário “Pior”: Integração Manual

Acredite: este ainda é o cenário mais comum. O radiologista trabalha com o RIS em um monitor e o PACS em outro, digitando manualmente o número de acesso ou nome do paciente para localizar as imagens correspondentes. Depois dita o laudo, um transcriptor digita no RIS, o médico assina manualmente — e o ciclo se repete. A palavra-chave aqui é manual. É ineficiente, propenso a erros e frustrante para todos os envolvidos.

O Cenário “Ruim”: Vendor Lock-In

A reação natural é buscar uma solução “tudo-em-um” de um único fornecedor. Parece elegante, mas vem com armadilhas sérias. Primeiro, você fica refém do fornecedor — qualquer expansão futura para novas unidades ou dispositivos de outro fabricante exigirá começar do zero. Segundo, por trás da embalagem bonita, frequentemente o fornecedor simplesmente comprou componentes de empresas menores e reempacotou tudo. Os desenvolvedores originais já foram embora; a equipe atual pode não ter o mesmo comprometimento com qualidade.

O Cenário “Ideal”: Integração Baseada em Padrões

A solução mais robusta — embora mais trabalhosa inicialmente — é construir uma integração multivendor baseada estritamente nos padrões HL7 e DICOM. Selecione cada componente com cuidado, exija conformidade com os padrões, e teste tudo extensivamente antes de pagar. Quando os problemas iniciais forem resolvidos e os dados começarem a fluir, você saberá que o sistema funciona corretamente — e não por acaso.

De HL7 2.x para 3.0: A Revolução XML nos Dados Clínicos

O protocolo HL7 passou por uma transformação radical. Enquanto as versões 2.x usavam um formato baseado em pipes (barras verticais) para separar campos de dados, o HL7 3.0 abandonou essa sintaxe e adotou o XML como linguagem nativa. Veja como um segmento EVN (evento) mudou de formato:

HL7 2.x (formato pipe):

EVN|A08|200601080823|200601080823|01

HL7 3.0 (formato XML):

<EVN_EventType>
  <EVN.1_EventTypeCode>A08</EVN.1_EventTypeCode>
  <EVN.2_DateTimeOfEvent>200601080823</EVN.2_DateTimeOfEvent>
  <EVN.3_DateTimePlannedEvent>200601080823</EVN.3_DateTimePlannedEvent>
  <EVN.4_EventReasonCode>01</EVN.4_EventReasonCode>
</EVN_EventType>
Capturas de tela de diferentes softwares PACS mostrando configurações de conectividade DICOM com campos IP, AE Title e porta em interfaces diversas
Configuração de conectividade DICOM em diferentes softwares: mesmos parâmetros básicos (IP, AE Title, porta) em interfaces distintas

Essa mudança não foi cosmética. O HL7 3.0 adotou design orientado a objetos para representar todo o fluxo de informações como interação entre objetos de dados — similar ao que o DICOM 3.0 já havia feito. Entretanto, a maioria dos sistemas hospitalares ainda utiliza HL7 2.x porque a migração é custosa e complexa.

Um ponto crucial: o fato de uma aplicação suportar XML não significa que suporta HL7 3.0. O XML é apenas a linguagem do padrão — implementar HL7 3.0 requer suporte completo ao modelo de informação com seus objetos, mensagens e eventos. Se você está buscando um novo HIS ou RIS, procure suporte ao HL7 3.0 baseado em XML, mas certifique-se de que também haja retrocompatibilidade com HL7 2.x.

IHE: Perfis de Integração que Fazem os Padrões Funcionarem

Em 1998, ficou claro que padrões isolados não garantem integração eficiente. Foi aí que nasceu a iniciativa IHE (Integrating the Healthcare Enterprise), com uma proposta pragmática: definir perfis de integração que coordenam o uso conjunto de DICOM e HL7 para resolver problemas reais de interoperabilidade.

Na prática, cada perfil IHE define exatamente quais transações, padrões e formatos cada ator (sistema ou aplicação) deve seguir para que a integração funcione. Alguns dos perfis mais relevantes para radiologia incluem:

  • Scheduled Workflow (SWF): integra pedidos, agendamento, aquisição, armazenamento e visualização de exames radiológicos — é o perfil que faz HIS-RIS-PACS trabalharem em sincronia
  • Patient Information Reconciliation (PIR): coordena a reconciliação de registros quando imagens são adquiridas para pacientes não identificados (trauma, por exemplo)
  • Portable Data for Imaging (PDI): garante intercâmbio confiável de dados de imagem e laudos em CDs
  • Cross Enterprise Document Sharing (XDS/XDS-I): compartilha documentos e imagens entre instituições de saúde
  • Charge Posting (CHG): fornece detalhes de procedimentos das modalidades para sistemas de faturamento

Os fornecedores participam de connectathons — testes práticos de interoperabilidade organizados pelo IHE — para validar a conformidade de seus produtos. Antes de adquirir qualquer sistema, pergunte ao fornecedor quais perfis IHE ele suporta. Para mais detalhes sobre o padrão DICOM e comunicações, veja também nosso artigo sobre estrutura e comunicações DICOM.

Disaster Recovery: Quando o PACS Precisa Sobreviver ao Caos

Infraestrutura de rede e servidores em ambiente hospitalar para suporte a sistemas PACS e armazenamento de imagens médicas
Infraestrutura de rede hospitalar — o elo mais fraco pode derrubar todo o PACS. Foto: Brett Sayles/Pexels

A experiência dos furacões Katrina e Rita em 2005 revelou falhas devastadoras nos sistemas PACS considerados “robustos”. Um PACS de grande fabricante, instalado no sétimo andar de um prédio de concreto com servidores redundantes e geradores de backup, ficou completamente inoperante. Os servidores sobreviveram fisicamente — mas sem energia estável, sem conectividade de rede e sem equipe técnica no local, o sistema estava morto.

As lições aprendidas são brutais:

  1. Perda de energia severa — durou semanas, enquanto cidades vizinhas a 80 km tinham energia normal
  2. Perda de conectividade — o provedor de telecomunicações tinha seus geradores de backup no primeiro andar; foram submersos pela enchente
  3. Perda de pessoal técnico — todos evacuaram; muitos sistemas falharam por falta de alguém para apertar o botão de restart
  4. Colapso total da infraestrutura — sem água, gás, energia, telecomunicações por semanas

PACS Modular e Distribuído: A Única Resposta Real

Diagrama de arquitetura PACS distribuída em nuvem com módulos independentes interconectados incluindo Basic PACS, Mobile PACS, PDA PACS, High-res PACS e Archiving PACS
PACS modular e distribuído: cada módulo funciona independentemente e pode conectar-se diretamente aos demais

A redundância convencional — duplicar componentes no mesmo local — tem pouco a ver com resiliência real. Se um desastre atinge sua área, todos os servidores redundantes caem juntos. A verdadeira solução está na granularidade: sistemas modulares onde cada unidade funciona como um PACS completo e autossuficiente.

Um PACS verdadeiramente resiliente deve satisfazer estas condições:

  • Granularidade: funcionar plenamente em um computador comum, off-the-shelf
  • Escalabilidade: módulos interconectados devem escalar para hospital grande ou rede regional
  • Funcionalidade servidor: suporte a SOPs DICOM em modo cliente (SCU) e servidor (SCP)
  • Redes dinâmicas: suporte a DHCP e protocolos como C-Get em vez de C-Move estático
  • Auto-recuperação: descoberta automática de rotas alternativas e retry de operações falhas
  • Compressão e criptografia: reduzir tráfego em até 10x quando a rede está instável
  • Leveza: instalação da ordem de 10 MB, baixável até em conexão dial-up

Com esse design em nuvem, o conceito de downtime muda radicalmente. Em um PACS centralizado, 0,1% de indisponibilidade significa um dia útil inteiro por ano sem sistema. Em um PACS modular, seria necessário destruir todos os módulos simultaneamente para alcançar indisponibilidade total.

Erros Comuns na Integração de Sistemas PACS

Na minha experiência acompanhando projetos de integração, três erros se repetem com frequência alarmante:

  1. Ignorar a consistência de dados na base — antes de conectar qualquer dispositivo, verifique se IDs de pacientes, formatos de data e dados demográficos são coletados de forma única e consistente no HIS. Se o recepcionista digita datas como DD/MM/AAAA, o PACS usa AAAAMMDD (formato DICOM) e o prontuário eletrônico usa AA.MM.DD, você tem um problema que nenhuma tecnologia vai resolver automaticamente
  2. Confiar cegamente na redundância — adicionar redundância a um sistema mal projetado só piora as coisas. Mais componentes significam mais sincronização, mais pontos de falha, mais custo de manutenção. Como disse um especialista: “adicionar mais rodas a um carro não o faz andar mais rápido”
  3. Negligenciar a configuração DICOM de backup — configure workstations críticas para conectar diretamente a modalidades e entre si, não apenas ao servidor central. Essas rotas alternativas podem ser sua salvação. Preconfigure IPs de backup nas modalidades — quando um desastre acontecer, você poderá levantar novos servidores com esses IPs e ter roteamento alternativo imediato

Quando NÃO Centralizar Seu PACS

Centralização total parece eficiente, mas é um convite ao desastre em várias situações:

  • Operações multi-site: se sua organização tem múltiplas unidades, um PACS centralizado cria dependência de um único ponto de falha
  • Regiões com infraestrutura instável: áreas sujeitas a desastres naturais, falhas de energia frequentes ou conectividade não confiável
  • Crescimento acelerado: sistemas monolíticos não escalam bem; cada nova modalidade ou site requer reconfiguração complexa
  • Teleradiologia: radiologistas remotos precisam de acesso que independa da disponibilidade do servidor central

O futuro aponta claramente para arquiteturas distribuídas baseadas em padrões, onde cada módulo PACS é autossuficiente e pode assumir responsabilidades adicionais quando outros módulos falham.

Considerações Finais

A integração de sistemas de imagem médica não é apenas uma questão técnica — é uma questão de segurança do paciente. Dados inconsistentes, sistemas que não se comunicam e infraestrutura frágil colocam vidas em risco. A combinação de padrões maduros (DICOM e HL7), perfis de integração práticos (IHE) e arquiteturas modulares resilientes oferece um caminho claro para sistemas que funcionam não apenas no dia a dia, mas também quando tudo ao redor colapsa.

Se você está planejando ou revisando a integração do seu departamento de radiologia, comece pela base: dados limpos, padrões respeitados e módulos independentes que sobrevivem sozinhos.

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