Alta do Hélio Acende Alerta para Operadores de Ressonância Magnética
A escalada nos preços do hélio líquido voltou a gerar preocupação entre operadores de ressonância magnética ao redor do mundo. Com a instabilidade geopolítica pressionando cadeias de fornecimento globais, a questão ganha urgência: os provedores de RM estão preparados para lidar com uma escassez prolongada de hélio?

O hélio é essencial para o funcionamento de scanners de RM porque mantém os magnetos supercondutores em temperatura criogênica (cerca de -269°C). Sem hélio líquido, o magneto não consegue operar em estado supercondutor e o equipamento simplesmente para de funcionar. Um scanner convencional com criostato de 1.800 litros contém o equivalente a aproximadamente 90.000 balões de festa em hélio — e se ocorrer um quench (perda súbita de supercondutividade), toda essa quantidade pode ser perdida em minutos.
Por Que o Hélio Está Mais Caro?
O hélio é um recurso não renovável extraído como subproduto de operações de gás natural. A produção global está concentrada em poucos países — Estados Unidos, Catar, Rússia e Argélia respondem pela maior parte do fornecimento. Conflitos geopolíticos, interrupções em plantas de processamento e aumento da demanda industrial (semicondutores, aeroespacial, pesquisa científica) têm pressionado os preços repetidamente nas últimas décadas.
A preocupação atual não é nova — episódios de escassez de hélio ocorreram em 2012-2013, 2019 e 2022 —, mas os impactos cumulativos sobre custos operacionais de serviços de imagem são cada vez mais significativos. Para departamentos de radiologia que já operam com margens apertadas, a volatilidade no custo do hélio representa um risco financeiro não negligenciável.
Fabricantes Investem em Sistemas de Baixo Consumo
Os principais fabricantes de RM — Siemens Healthineers, Philips e GE HealthCare — têm investido no desenvolvimento de sistemas que utilizam uma fração do hélio dos scanners tradicionais. A Siemens lançou a plataforma MAGNETOM Free.Max com apenas 0,7 litros de hélio líquido, em contraste com os 1.500-2.000 litros dos sistemas convencionais. A Philips e a GE seguem com abordagens similares em suas linhas mais recentes.
No entanto, conforme alertou Tobias Gilk, arquiteto de RM e fundador da Gilk Radiology Consultants, “nenhum scanner opera com segurança sem hélio”. Mesmo os sistemas de nova geração que funcionam com volumes drasticamente reduzidos ainda dependem de hélio — e em caso de quench, a capacidade das organizações de serviço de responder rapidamente com quantidades adequadas de hélio líquido será testada.
O Parque Instalado Ainda Depende de Grandes Volumes
É importante contextualizar que os sistemas de baixo consumo de hélio representam apenas uma parcela pequena do parque instalado global. A grande maioria dos scanners em operação ainda utiliza criostatos de grande volume. A transição para uma frota “helium-light” será gradual e dependerá do ciclo natural de renovação de equipamentos, que em RM costuma ser de 10 a 15 anos.
Isso significa que, no médio prazo, a maioria dos serviços de imagem continuará exposta à volatilidade dos preços do hélio. Estratégias de mitigação incluem contratos de fornecimento de longo prazo, manutenção preventiva rigorosa para evitar quenchs e planejamento de substituição de equipamentos com prioridade para sistemas de baixo consumo.
Implicações para o Brasil
O Brasil não produz hélio em escala comercial, dependendo integralmente de importações. Isso torna os serviços brasileiros de RM duplamente vulneráveis: à alta de preços internacionais e a flutuações cambiais. Hospitais e clínicas que operam scanners de RM devem considerar esse fator em seus planejamentos financeiros de longo prazo. O crescimento projetado do mercado de imagem diagnóstica continuará impulsionando a demanda por RM, o que torna a questão do hélio ainda mais estratégica.
A evolução dos equipamentos de imagem apresentados em congressos como o ECR mostra que os fabricantes estão cientes do problema e investem em soluções. Porém, até que sistemas de baixo consumo dominem o parque instalado, o hélio permanecerá como variável crítica na operação de serviços de RM ao redor do mundo.
Perspectivas: Em Busca da RM Sem Hélio
A meta de longo prazo da indústria é desenvolver magnetos que operem sem hélio líquido — usando magnetos permanentes de alto campo ou tecnologias de resfriamento alternativas. Pesquisas em supercondutores de alta temperatura também oferecem esperança, embora estejam distantes de aplicação comercial em RM. Enquanto isso, a gestão eficiente do hélio disponível e o investimento em tecnologias de baixo consumo permanecem como as estratégias mais pragmáticas para provedores de RM.
Fonte: Radiology Business




