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O Que é DICOM e Por Que Ele Ainda Governa a Imagem Médica
DICOM não é apenas um formato de arquivo. Essa é a confusão mais persistente que encontro entre profissionais entrando no mundo digital da radiologia. Na realidade, o Digital Imaging and Communications in Medicine é um protocolo completo de transferência, armazenamento e exibição de dados que cobre praticamente todos os aspectos funcionais da medicina digital contemporânea.

Concebido em 1983 pelo comitê conjunto entre o American College of Radiology (ACR) e a National Electrical Manufacturers Association (NEMA), o padrão evoluiu de uma especificação simples de gravação em fita magnética para um ecossistema que sustenta toda a cadeia de imagens médicas. Hoje, todo equipamento digital de aquisição — tomógrafos, ressonâncias, ultrassons — produz imagens DICOM e se comunica por redes DICOM. Para uma visão abrangente de como esse padrão se integra na prática clínica, confira nosso guia completo sobre DICOM na prática clínica e integração de sistemas de imagem.
E o que torna o DICOM insubstituível? Três pilares: qualidade diagnóstica excepcional (suporte a até 65.536 tons de cinza, contra 256 do JPEG convencional), codificação completa de metadados clínicos através de mais de 2.000 atributos padronizados, e definição precisa de funcionalidades de dispositivos por meio de Conformance Statements.
Modelo de Informação DICOM: Como os Dados Clínicos São Estruturados
O DICOM enxerga o mundo real — pacientes, estudos, dispositivos — como objetos descritos por atributos. Essas definições são formalizadas nas chamadas Information Object Definitions (IODs). Um paciente, por exemplo, é representado por atributos como nome, ID, sexo, idade e peso, capturando toda a informação clinicamente relevante.
Essa abordagem orientada a objetos pode parecer abstrata, mas resolve um problema concreto: quando um tomógrafo envia uma imagem para o arquivo PACS, ambos os dispositivos precisam concordar sobre o que constitui “um exame de TC” — quais campos são obrigatórios, como formatar datas, como identificar unicamente cada série. As IODs fornecem esse contrato.
Hierarquia de Informação
Os dados DICOM seguem uma hierarquia de quatro níveis: Paciente → Estudo → Série → Imagem. Cada nível possui um identificador único (UID) que garante rastreabilidade. Na prática, problemas com Patient ID duplicados ou UIDs de estudo conflitantes estão entre as causas mais frequentes de imagens “perdidas” ou mescladas erroneamente no PACS.
As IODs são compostas de Modules (blocos de dados reutilizáveis), que se agrupam em Information Entities (IEs). Essa arquitetura modular permite que diferentes modalidades compartilhem módulos comuns — como o Patient Module — enquanto adicionam módulos específicos para dados de CT, MR ou ultrassom.
VRs e Dicionário de Dados: A Gramática do DICOM

Se as IODs definem o que armazenar, as Value Representations (VRs) definem como armazenar. O DICOM especifica 27 tipos de VR que funcionam como a gramática do padrão. Há VRs para textos curtos (SH, LO), textos longos (ST, LT, UT), datas e horários (DA, TM, DT), números em formato texto (IS, DS), números binários (SS, US, SL, UL, FL, FD), nomes de pessoas (PN), identificadores de entidades (AE) e identificadores únicos (UI).
Cada VR possui regras de comprimento e codificação de caracteres. Um campo do tipo AE (Application Entity Title), por exemplo, aceita no máximo 16 caracteres — limitação que, por incrível que pareça, ainda causa problemas quando administradores tentam configurar nomes descritivos demais nos dispositivos.
Dicionário de Dados Padrão e Privado
O DICOM Data Dictionary cataloga todos os atributos padronizados com seus tags (grupo, elemento), VRs, multiplicidade e descrição. Mas fabricantes frequentemente precisam armazenar dados proprietários — e para isso existe o mecanismo de Private Data Dictionaries. Tags com números ímpares de grupo são reservados para uso privado, permitindo que cada fabricante estenda o padrão sem conflitar com atributos oficiais.
Codificação de Objetos DICOM
Na prática, um objeto DICOM é uma sequência ordenada de Data Elements, cada um composto por um tag (identificador numérico de 4 bytes), o VR, o comprimento do valor e o valor propriamente dito. Elementos podem se aninhar através do tipo SQ (Sequence), permitindo estruturas hierárquicas complexas — como uma lista de procedimentos agendados dentro de uma worklist.
Comunicações DICOM: SOPs, DIMSE e Associações
Dispositivos na rede DICOM são chamados de Application Entities (AEs), identificados por um AE Title, endereço IP e porta. Toda comunicação segue o modelo Service-Object Pair (SOP): um serviço associado ao tipo de dado que ele processa.

O DICOM define papéis claros: quem solicita um serviço é o Service Class User (SCU), e quem fornece é o Service Class Provider (SCP). Um tomógrafo armazenando imagens no PACS atua como CT Storage SCU, enquanto o arquivo atua como CT Storage SCP. O mesmo dispositivo pode trocar de papel — quando o arquivo precisa imprimir, ele se torna Print SCU frente à impressora DICOM.
Serviços DIMSE Fundamentais
Os serviços são implementados pelo protocolo DIMSE (DICOM Message Service Element), que oferece operações como:
- C-Echo: o “ping” DICOM — verifica conectividade entre dois AEs
- C-Store: transfere objetos (imagens, relatórios) para armazenamento
- C-Find: consulta o catálogo de estudos/pacientes no arquivo
- C-Move / C-Get: recupera imagens armazenadas no PACS
- MWL (Modality Worklist): sincroniza a lista de trabalho do RIS com a modalidade
A diferença entre C-Move e C-Get é uma fonte frequente de confusão. O C-Get transfere imagens diretamente para quem solicitou, enquanto o C-Move instrui o servidor a enviar as imagens para um terceiro AE — útil quando a estação de visualização não é a mesma que fez a consulta.
Estabelecimento de Associação
Antes de qualquer troca de dados, dois AEs precisam negociar uma associação. Nessa fase de “handshake”, eles trocam Presentation Contexts — combinações de Abstract Syntax (o SOP a ser utilizado) e Transfer Syntax (como os dados serão codificados: Little Endian, Big Endian, comprimido). Se não houver contexto compatível, a associação é rejeitada.
Na minha experiência, a maioria das falhas de conectividade DICOM se resolve verificando três coisas: AE Title correto, porta aberta no firewall e Transfer Syntax compatível entre os dois lados.
Mídia DICOM: Arquivos, DICOMDIR e Segurança
O formato de arquivo DICOM segue uma estrutura específica: um preâmbulo de 128 bytes, o prefixo “DICM”, um grupo de meta-informação (Group 0002) com Transfer Syntax do arquivo, e finalmente o objeto de dados. Esse formato permite que qualquer software identifique inequivocamente um arquivo DICOM.

O DICOMDIR funciona como um índice hierárquico para mídias removíveis (CDs, DVDs, pendrives). Ele mapeia pacientes, estudos, séries e imagens em uma estrutura navegável sem exigir banco de dados. Embora pareça antiquado na era do cloud, o DICOMDIR continua essencial para transferência de exames entre instituições que não possuem conectividade de rede direta.
Armazenamento em PACS
O PACS pode armazenar dados DICOM de três formas: file-based (arquivos no filesystem), database-based (dados binários no banco), ou modelos mistos (metadados no banco, pixels em arquivo). Cada abordagem tem trade-offs de performance versus simplicidade de backup que devem ser avaliados conforme o volume da instituição.
Segurança e Anonimização
A segurança DICOM é, historicamente, um ponto fraco do padrão. Redes DICOM tradicionais operam sem criptografia, e o próprio protocolo foi projetado antes das preocupações modernas com privacidade. A anonimização de dados DICOM — remoção ou substituição de atributos identificáveis (nome, data de nascimento, IDs) — é regulamentada pela parte PS3.15 do padrão e pelo Supplement 142, mas na prática requer atenção a detalhes como dados “burned-in” nas imagens (anotações renderizadas nos pixels).
O padrão suporta TLS para comunicações de rede e formatos de arquivo seguro com criptografia, mas a adoção ainda é limitada. Instituições que lidam com telerradiologia ou pesquisa multicêntrica devem priorizar VPNs e processos rigorosos de de-identificação.
Erros Comuns e Limitações do DICOM
Após anos trabalhando com integração DICOM, certos padrões de erro se repetem com impressionante consistência. Reconhecê-los pode poupar semanas de troubleshooting.
| Erro | Causa Típica | Solução |
|---|---|---|
| Imagens não chegam ao PACS | AE Title incorreto ou porta bloqueada | Verificar Conformance Statement e configuração de rede |
| Estudos mesclados erroneamente | Patient ID duplicado entre pacientes | Implementar MPI ou reconciliação de IDs |
| Imagem “corrompida” na visualização | Transfer Syntax não suportada pelo viewer | Verificar compressão (JPEG2000 vs JPEG Lossless) |
| Worklist vazia na modalidade | Falha na integração HL7/MWL | Validar mapeamento de campos entre RIS e modalidade |
Quando o DICOM Não é Suficiente
Apesar de sua robustez, o DICOM tem limitações reais. O padrão não gerencia nativamente workflow clínico (para isso existe o IHE), não substitui a integração HL7/FHIR entre HIS/RIS, e seu modelo de segurança nativo é insuficiente para ambientes expostos à internet. Dispositivos rotulados como “DICOM-Ready” frequentemente significam que a funcionalidade DICOM é uma opção paga à parte — um detalhe que pode surpreender administradores desprevenidos.
Micro Estudo de Caso: Migração de PACS
Uma clínica de diagnóstico por imagem com 3 tomógrafos, 2 ressonâncias e 15 estações decidiu migrar de um PACS legado (10 anos) para uma solução moderna. O inventário DICOM revelou que um dos tomógrafos suportava apenas JPEG Lossless como Transfer Syntax de compressão, enquanto o novo PACS esperava JPEG 2000. Resultado: 40% das imagens históricas precisaram ser transcodificadas — processo que levou 3 semanas para um arquivo de 18 TB. A lição: validar Transfer Syntax compatíveis antes de assinar o contrato de migração.


