Neste artigo, o foco é bem direto: equipamentos radioterapia especificações técnicas na radioterapia externa (EBRT). A partir do texto, reunimos o que precisa entrar em uma especificação para LINACs e para unidades de teleterapia com cobalto-60, incluindo implicações de sala, radioproteção e garantia da qualidade.
Para contexto, veja Especificações técnicas: visão geral e pacotes de equipamentos em radioterapia. Para visão completa, confira o Especificações Técnicas de Equipamentos de Radioterapia – Guia Completo.
Normas: por que a especificação começa por IEC 60601
O texto trata a especificação como parte do sistema de segurança: ela começa nas normas de segurança básica e de desempenho essencial aplicáveis a equipamento eletromédico.
A IEC 60601-1 aparece como norma geral e, junto com a família colateral IEC 60601-1-X, é indicada como aplicável a equipamento eletromédico. Também entram os International Basic Safety Standards como referência para equipamento médico que produza radiação ionizante. A partir disso, o documento assume que a conformidade do fabricante com normas IEC provê recursos de segurança no equipamento, enquanto requisitos de sala e instalação complementam essa proteção.
Para LINACs, são citadas normas particulares (por exemplo, IEC 60601-2-1 e IEC 60601-2-68), referências para integração e registro/verificação (como IEC 62274) e convenções de coordenadas e escalas (IEC 61217), além do GSR Part 3.
Equipamentos radioterapia especificações técnicas: LINAC (Package 1 e 2)
O documento propõe uma especificação que cobre o LINAC de energia única (Package 1) e o multi-energia (Package 2), marcando explicitamente o que é exclusivo do segundo pacote.
No conjunto mecânico e geométrico, ele descreve gantry motorizado com SAD 100 cm, rotação ±180°, clearance do isocentro > 30 cm e isocentro mecânico com diâmetro máximo ≤ 2 mm nos eixos de colimador, gantry e mesa. A cabeça colimadora deve ter rotação ≥ ±90°, campo máximo de fótons 40 cm × 40 cm (50% de isodose) e campo mínimo não maior que 4 cm × 4 cm (50% de isodose), com mordentes assimétricos capazes de cruzar o eixo central. O texto ainda fixa coincidência luz/radiação ≤ 2 mm, indicador óptico de distância com alcance de pelo menos SAD ±20 cm e back pointer óptico.
Em energia e taxa de dose, pede fótons de 6 MV com filtro aplainador e taxa variável de 50 MU/min até ≥ 400 MU/min. No Package 2, entram um segundo feixe de 10 MV e elétrons de 6, 9, 12 e 15 MeV com taxa de dose ≥ 400 MU/min. O Package 2 inclui MLC integrado (≥ 80 lâminas; largura máxima 1 cm no isocentro; vazamento interlâminas < 4%; acurácia ≤ 1 mm) e aplicadores de elétrons até pelo menos 20 cm × 20 cm, com distância fonte-fim do aplicador de 95 cm para permitir 5 cm de folga paciente-aplicador.
No monitoramento de feixe, são descritas duas câmaras de ionização internas independentes (dose, taxa de dose, simetria e steering) com intertravamentos, além de um temporizador de backup para indicar MU acumulada em falha de energia. Para feixes de radiação, a simetria deve ser ≤ 2% e a planura ≤ 3%. A definição de planura aparece no texto e pode ser reescrita como:
$$F = \frac{D_{\max} – D_{\min}}{D_{\max} + D_{\min}}$$
em que $D_{\max}$ e $D_{\min}$ são as doses máxima e mínima dentro dos 80% centrais da largura do feixe; $F$ é expresso em porcentagem e medido no maior campo, a 10 cm de profundidade.
Na mesa de tratamento, o texto pede movimentos motorizados lateral/longitudinal/vertical e rotação isocêntrica até ±90°, com tampo de fibra de carbono indexado. O alcance lateral deve ser pelo menos ±20 cm, o longitudinal > 70 cm e o vertical deve ir do isocentro até pelo menos 60 cm abaixo. A flecha deve ser < 5 mm com paciente de 80 kg, e a capacidade máxima de peso deve ser ≥ 180 kg.
Package 1 vs Package 2: o que muda de fato
A tabela abaixo resume apenas os itens explicitamente marcados como Package 2 (ou como alternativa do Package 1).
| Item | Package 1 | Package 2 |
|---|---|---|
| Energias de fótons | 6 MV | 6 MV + 10 MV |
| Elétrons | — | 6, 9, 12 e 15 MeV |
| MLC integrado | — | ≥ 80 lâminas; 1 cm max; vazamento < 4%; acurácia ≤ 1 mm |
| Imagem portal | Cassete/filme ou CR | EPID amorfo (≥ 30×30 cm) + comparação com DRRs; braço motorizado e anticolisão |
O texto observa que o EPID implica custo inicial e de manutenção; o painel pode falhar ao longo da vida do LINAC e, sem cobertura em contrato, a substituição pode ser significativa.
Segurança radiológica no LINAC: bunker, maze e controles de acesso
Radioproteção não aparece como detalhe de obra: no documento, bunker e controles de acesso fazem parte da especificação porque definem como equipe e público ficam protegidos durante operação e após instalação.
O LINAC é descrito como instalado em bunker de concreto. Para cálculo de blindagem, o texto aponta referências como IAEA Safety Reports Series No. 47, NCRP Report No. 151 e ISO-16645:2016, além de requisitos locais. Como o gantry pode girar 360°, a blindagem precisa considerar piso e teto, não só paredes. Quando há espaço, um maze reduz radiação espalhada na entrada sem exigir blindagem na porta; quando não há, a sala sem labirinto é possível, mas com desvantagem de porta motorizada pesada e blindada. O texto enquadra a sala e áreas adjacentes como áreas controladas.

Depois da instalação, o texto pede uma pesquisa radiológica abrangente no entorno do bunker, com medidores calibrados, para confirmar conformidade com limites para equipe e público. Como exemplos de recursos de premissas para evitar exposição acidental, ele lista:
- sinalização luminosa beam-on e beam-ready na entrada e dentro da sala;
- símbolo trevo de radiação ionizante na entrada;
- intertravamento de acesso;
- botão de “última pessoa a sair”;
- comunicação audiovisual entre sala de tratamento e sala de comando;
- botões de desligamento de emergência na sala e no console.
Nêutrons acima de 8 MV: blindagem adicional e rotina de levantamento radiológico
Para energias de fótons acima de 8 MV, o texto destaca a geração de nêutrons na cabeça do acelerador e a radiação gama de captura, que podem exigir medidas adicionais na entrada do bunker.
As metodologias citadas (IAEA Safety Reports Series No. 47, NCRP Report No. 151 e ISO-16645:2016) são usadas para estimar dose de nêutrons e de gamas de captura na entrada e para dimensionar espessuras de chumbo e absorvedor de nêutrons (tipicamente polietileno borado) de modo a atender a restrição de dose. O desenho do maze (comprimento, curvas e seção) aparece como ferramenta para reduzir dose na entrada. No levantamento radiológico do comissionamento, o texto recomenda usar medidor de nêutrons e medidor de radiação ionizante para confirmar o nível na entrada.
Em rotina, o texto cita produtos de ativação de curta meia-vida na cabeça do LINAC após irradiação de alta energia. Ele aponta o alumínio-28 como dominante em um Varian ClinacTM, com meia-vida de 2,24 min, e sugere pequeno atraso para entrada de equipe após feixes de alta energia. Ao final do ciclo de vida do LINAC (o texto menciona 10–15 anos), pode haver ativação de longo prazo que precisa ser tratada no descomissionamento com o regulador local.
Garantia da qualidade em LINAC: dosimetria e geometria como rotina
Para manter segurança e qualidade, o documento descreve a necessidade de testes rotineiros de controle de qualidade, cobrindo dosimetria e geometria, além de verificações de sistemas ópticos, mecânicos e de imagem.
A dosimetria de referência deve usar dosímetro calibrado e código de prática baseado em dose absorvida em água (o texto cita IAEA TRS No. 398), com recomendações internacionais e possíveis exigências locais obrigatórias.
Cobalto-60: vantagens, limites e escolha de SAD (80 cm vs 100 cm)
O texto descreve a unidade de cobalto-60 como mecanicamente semelhante ao LINAC (gantry, colimador e mesa), mas com geração de fótons MV baseada em fonte radioativa, substituindo um conjunto eletromecânico complexo (canhão de elétrons, micro-ondas, guia de ondas, ímãs, alvo e monitoramento de feixe).
As vantagens destacadas são simplicidade de projeto e menor necessidade de serviços de infraestrutura, com menor custo de compra e menores custos de operação/manutenção. As desvantagens incluem decaimento da fonte e necessidades adicionais de segurança radiológica e de segurança física para material radioativo de alta atividade.

Sobre SAD, o texto diz que unidades podem ser compradas com 80 cm ou 100 cm. Como quase todos os LINACs usam 100 cm, isso favorece técnicas isocêntricas com folga adequada; o SAD de 80 cm tem vantagem de maior taxa de dose para a mesma atividade (paciente mais próximo), o que ganha importância conforme a taxa de dose cai com o tempo, mas reduz a folga e pode limitar técnicas isocêntricas. O texto observa que tratamentos com SSD fixa podem ser usados, adequados para técnicas simples, porém mais demorados na preparação de técnicas complexas.
A queda de taxa de dose ao longo do tempo aumenta o tempo de tratamento para a mesma dose e reduz eficiência do serviço (menos pacientes por dia, mais tempo por paciente). A recomendação é iniciar planejamento para compra de nova fonte no ano anterior ao fim de 5 anos de vida útil da fonte; e, se houver duas ou mais unidades, considerar combinar SAD 80 cm e 100 cm para permitir uso em cascata de fontes. O texto também ressalta que o diâmetro da fonte influencia penumbra e taxa inicial; sugere 2,5 cm ou menos, e menciona que diâmetros menores (por exemplo, 1,5 cm ou 2,0 cm) podem melhorar penumbra, ao custo de taxa inicial menor.
Unidade de cobalto-60 (SAD 100 cm): números e componentes que definem a compra
Para unidade SAD 100 cm, o texto fixa requisitos de dose inicial, geometria isocêntrica, colimação e console, com normas como IEC 60601-2-11, IEC 61217, ISO-2919 e IEC TR 63183.
| Bloco | Requisito |
|---|---|
| Fonte e desempenho inicial | Fonte blindada ≤ 2,5 cm; dose mínima inicial ≥ 2,0 Gy/min (10×10 cm; 100 cm SSD; dmax em água); simetria ≤ 3%; planura ≤ 3% |
| Geometria | Gantry ±180°; SAD 100 cm; isocentro mecânico ≤ 2 mm (colimador/gantry/mesa); clearance ≥ 30 cm com acessórios |
| Colimação | Campo máx. 40×40 cm (100 cm SAD) e mín. 1×1 cm; assimétrica capaz de bloquear metade do feixe; rotação ≥ ±90°; trimmers para penumbra < 10 mm (se necessário) |
| Indicadores ópticos | Campo luminoso com coincidência luz/radiação ≤ 2 mm; ODI ≥ SAD ±20 cm; back pointer |
| Cunhas | Cunha universal até 60° ou 15°/30°/45°/60°; intertravamento para confirmação positiva |
| Mesa | Movimentos motorizados e rotação isocêntrica ±90°; tampo fibra de carbono indexado; lateral ±20 cm; longitudinal >70 cm; vertical até ≥60 cm abaixo do isocentro; flecha <5 mm (80 kg); capacidade ≥180 kg |
| Imagem e acessórios | Imagem portal com suporte de cassete portátil, quatro cassetes MV e processamento (filme ou CR); bandeja transparente para blocos até 20 kg, com intertravamento |
| Operação | Pendente de controle; monitor em sala; ponteiro frontal; CCTV com pelo menos duas câmeras com pan/zoom; intercomunicação; lasers (2 laterais em cruz, 1 teto em cruz, 1 sagital) |
| Energia e contingência | UPS para retrair fonte em falta de energia; barra em T para retração manual |
| Console e registro | Console computadorizado com monitor audiovisual de radiação, intertravamentos e temporizador duplo; chave liga/desliga removível; login hierárquico (clínico/física/serviço); interface com OIS para registro e verificação |
Segurança e garantia da qualidade em cobalto-60
Em radioproteção, o texto volta ao bunker e ao dilema maze versus porta blindada, mas adiciona explicitamente a necessidade de componentes de segurança para evitar remoção não autorizada e sabotagem do material radioativo. Entre recursos de premissas, ele cita sinalização beam-on, símbolo trevo, intertravamento de acesso, botão “última pessoa a sair”, monitor permanente de área para indicar fonte aberta, comunicação audiovisual, botões de retração de emergência e recursos de segurança física.
Para QA, além de dosimetria de referência (IAEA TRS-398) e confirmação de dosimetria relativa, o texto destaca a importância de testar rotineiramente a posição da fonte em relação ao eixo de rotação do colimador, garantindo que ela está na posição aberta correta. Ele cita recomendações internacionais e reforça que exigências locais podem existir.
CT simulador: o que muda em relação ao CT diagnóstico
Na simulação, o texto define o CT simulador como um CT diagnóstico com mesa plana e lasers externos, e explica por que CTs dedicados para radioterapia tendem a ter bore maior.
Ele compara o bore típico de CT diagnóstico (70 cm) com a recomendação para simulação em radioterapia (pelo menos 80 cm), porque a posição de tratamento pode exigir inclinação, braços estendidos (com imobilização como breast board) ou deslocamento lateral na mesa. O documento assume a compra de um CT dedicado de grande bore e observa que ele tem pouco valor para uso diagnóstico.
Quando não há recurso para CT dedicado, a alternativa descrita é organizar acesso ao CT da radiologia, desde que exista acessório de mesa plana e sistema de laser externo. O texto ressalta a necessidade de um radiation therapist acompanhar o paciente para garantir parâmetros corretos de posicionamento e a transferência direta dos dados para o TPS 3D, apontando essa opção como altamente recomendada para centros com Package 1 (onde apenas uma pequena fração de pacientes tende a ser priorizada para planejamento 3D).
Especificações Técnicas WHO: Unidade de Teleterapia Cobalto-60
O documento inclui um template OMS/IAEA para especificação técnica de unidade de teleterapia com cobalto-60. A tabela abaixo resume itens selecionados do anexo, mantendo os números conforme o texto.
| Categoria | Item | Especificação |
|---|---|---|
| Finalidade clínica | Propósito | Entrega de feixes de raios gama para EBRT |
| Finalidade clínica | Nível de uso | Hospital |
| Finalidade clínica | Requisito funcional | Unidade com gantry, colimador e mesa; interface com RVS |
| Requisitos técnicos | Fonte e dose inicial | Fonte blindada ≤ 2,5 cm; dose mínima inicial ≥ 2,0 Gy/min (10×10 cm; 100 cm SSD; dmax em água) |
| Requisitos técnicos | Simetria/planura | Simetria ≤ 3%; planura ≤ 3% |
| Requisitos técnicos | Gantry/isocentro | ±180°; SAD 100 cm; isocentro mecânico ≤ 2 mm; clearance ≥ 30 cm |
| Requisitos técnicos | Colimadores | Campo máx. 40×40 cm e mín. 1×1 cm; assimétrico; rotação ≥ ±90° |
| Requisitos técnicos | Coincidência luz/radiação | ≤ 2 mm |
| Requisitos técnicos | Mesa | Fibra de carbono indexada; rotação ±90°; lateral ±20 cm; longitudinal >70 cm; vertical até ≥60 cm abaixo; flecha <5 mm (80 kg); carga ≥180 kg |
| Imagem e acessórios | Imagem portal | Suporte de cassete portátil; quatro cassetes MV; processamento (filme ou CR) |
| Infraestrutura | Utilidades | Energia monofásica; ar comprimido (se necessário); ar-condicionado |
| Segurança/normas | Normas internacionais | IEC 60601-1; GSR Part 3; IEC 60601-2-11; IEC 61217; ISO-2919; IEC TR 63183 |
| Manutenção | Garantia | Pelo menos 12 meses |
| Manutenção | Vida útil | 10–15 anos; troca da fonte a cada 5 anos |
| Manutenção | Peças pós-garantia | Disponibilidade mínima de 10 anos |
Fonte: WHO/IAEA Technical Specifications of Radiotherapy Equipment for Cancer Treatment (Annex 2)




