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Delineamento de Volume Alvo no Câncer Gástrico

O câncer gástrico permanece entre as neoplasias que mais desafiam o planejamento radioterápico adjuvante. O estômago se estende da junção gastroesofágica ao piloro, com a grande curvatura formando a borda esquerda convexa e a pequena curvatura constituindo a borda direita côncava. Anatomicamente, divide-se em quatro regiões — cárdia, fundo, corpo e antro — e sua parede apresenta cinco camadas histológicas: mucosa, submucosa, muscular externa, subserosa e serosa. Para uma visão ampla de todos os sítios anatômicos cobertos nesta série, confira nosso guia completo sobre delineamento de volume alvo.

Anatomia do estômago mostrando as cinco camadas da parede gástrica e estruturas adjacentes incluindo pâncreas, baço e vasos celíacos
Figura 15.1 — Anatomia e relações do estômago. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Quanto à localização primária, os tumores da junção gastroesofágica, cárdia e fundo respondem por aproximadamente 35% dos casos; tumores do corpo representam cerca de 25%; e os do antro e estômago distal perfazem aproximadamente 40%. Essa distribuição tem implicação direta no planejamento, pois os volumes de CTV mudam substancialmente conforme o subsítio de origem.

Na extensão local, o tumor pode invadir diretamente fígado, duodeno, pâncreas, cólon transverso, omento e diafragma. Tumores proximais frequentemente se estendem superiormente para o esôfago, e a invasão perineural é uma via de disseminação que não pode ser negligenciada.

Estações Linfonodais e Padrões de Disseminação

O comprometimento linfonodal no câncer gástrico é extremamente prevalente — até 80% dos pacientes já apresentam linfonodos comprometidos ao diagnóstico. Na prática, isso significa que o delineamento dos volumes nodais é tão crítico quanto a cobertura do leito tumoral.

Grupos linfonodais perigástricos mostrando as estações N1 a N4 segundo classificação JRSGC ao redor do estômago
Figura 15.2 — Grupos linfonodais ao redor do estômago. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

A classificação japonesa (JRSGC) organiza as estações em quatro grupos. As tabelas a seguir reproduzem fielmente a distribuição publicada no livro-texto, com a correspondência anatômica de cada estação.

Estações Linfonodais — Classificação JRSGC

Grupo Estação Descrição
N1 1 Linfonodos cardiais direitos
N1 2 Linfonodos cardiais esquerdos
N1 3 Linfonodos ao longo da pequena curvatura
N1 4 Linfonodos ao longo da grande curvatura
N1 5 Linfonodos suprapilóricos
N1 6 Linfonodos infrapilóricos
N2 7 Linfonodos ao longo da artéria gástrica esquerda
N2 8 Linfonodos ao longo da artéria hepática comum
N2 9 Linfonodos ao longo do eixo celíaco
N2 10 Linfonodos no hilo esplênico
N2 11 Linfonodos ao longo da artéria esplênica
N3 12 Linfonodos no ligamento hepatoduodenal
N3 13 Linfonodos na face posterior da cabeça pancreática
N3 14 Linfonodos na raiz do mesentério
N4 15 Linfonodos no mesocólon transverso
N4 16 Linfonodos para-aórticos

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 15.1). Adaptado de Hartgrink & Van De Velde (2005).

Na prática clínica, os tumores proximais e da junção gastroesofágica tendem a disseminar para linfonodos paraesofágicos inferiores. Já tumores do corpo podem acometer virtualmente todas as estações. Tumores distais e do antro têm maior tendência a envolver linfonodos periduodenais e da porta hepática. Essa lógica de disseminação é a base para a seleção dos volumes nodais no CTV.

Investigação Diagnóstica para Delineamento

Antes do planejamento radioterápico, é imperativo revisar os laudos cirúrgico e patológico e discutir com o cirurgião para identificar as áreas de maior risco de recorrência. Precisa-se anotar se a cirurgia foi gastrectomia total ou parcial, pois isso muda completamente a anatomia pós-operatória.

Tipos de cirurgia para câncer gástrico: gastrectomia total com reconstrução em Y de Roux e gastrectomia distal com alternativas de reconstrução
Figura 15.3 — Tipos de cirurgia para câncer gástrico. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

A TC pré-operatória deve ser revisada para localizar o tumor primário e as cadeias linfonodais envolvidas. Vale observar que o PET com FDG isolado não é adequado para estadiamento do câncer gástrico, já que subtipos difusos e mucinosos apresentam baixa captação de FDG — uma armadilha diagnóstica frequente.

Deve-se considerar estudo de perfusão renal quantitativa bilateral antes da radioterapia, pois a função renal pode limitar o planejamento. A TC pós-operatória com contraste oral e intravenoso é obrigatória, com identificação precisa do esôfago e remanescente gástrico, da anastomose (gastrojejunal ou esofagojejunal), do coto duodenal, da porta hepática, do hilo esplênico, do pâncreas, e da artéria celíaca e artéria mesentérica superior.

Princípios Gerais de Planejamento e CTV Adjuvante

Os pacientes devem jejuar por 2 a 3 horas antes da TC de simulação e antes de cada fração. A TC de planejamento, com cortes de 3–5 mm, deve ser adquirida com o paciente em decúbito dorsal e braços acima da cabeça, estendendo-se do topo do diafragma (ou da carina para tumores da JGE ou cárdia) até a base de L4.

Imobilização com saco a vácuo tipo VacLok é recomendada para tratamento com IMRT. Contraste intravenoso é preferido para demonstrar os vasos sanguíneos e guiar o delineamento do CTV, particularmente para as cadeias linfonodais.

Definição dos Volumes-Alvo

Volume Definição e Descrição
GTV Doença residual macroscópica definida por imagem (TC) e achados cirúrgicos
PTV (doença residual) GTV residual / margens positivas + 1,5 cm. Boost tipo cone-down após 45 Gy até dose total de 50,4–54 Gy em frações de 1,8 Gy
CTV45 Cobertura dos grupos nodais conforme subsítio (Tabelas 15.5–15.8). Inclui remanescente gástrico, anastomose (gastrojejunal ou esofagojejunal), coto duodenal
PTV45 CTV45 + 1 cm de margem. Margem maior pode ser necessária para movimento de órgão e incertezas de setup

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 15.2)

Três áreas devem ser identificadas como CTV na radioterapia adjuvante: o leito tumoral gástrico, a anastomose ou cotos, e as cadeias linfáticas regionais. Além disso, o ligamento hepatogástrico deve preferencialmente ser tratado em todos os casos, pois está em alto risco de recorrência — representa a parte do omento menor que conecta a pequena curvatura ao fígado e contém os linfonodos gástricos esquerdos e direitos que nem sempre são completamente removidos na cirurgia.

A dose total recomendada para radioterapia adjuvante com quimioterapia concomitante é de 45 Gy em 25 frações, utilizando fótons de alta energia (≥6 MV). Boost para 50,4–54 Gy deve ser administrado para margens positivas ou doença residual, desde que as doses nos órgãos críticos adjacentes estejam dentro da tolerância.

Impacto do Estadiamento T e N nos Volumes de Tratamento

Categoria TN (AJCC 8ª edição) Estômago remanescente Leito tumoral Linfonodos
T1-2N0 (sem invasão da subserosa) Não Não Não
T2N0 (invasão da subserosa) Variável Sim Não
T3N0 Variável Sim Não
T4N0 Variável Sim Variável
T1-2N+ Sim Não Sim
T3-4N+ Sim Sim Sim

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 15.4). Adaptado de Clinical Radiation Oncology, 4ª edição.

CTV por Subsítio: Junção Gastroesofágica

Para tumores da JGE, o estômago remanescente deve ser incluído desde que permita exclusão de dois terços do rim direito. A cobertura do leito tumoral depende do T: para T2N0 com invasão da subserosa, inclui-se o hemidiafragma esquerdo medial e o corpo do pâncreas adjacente. Para T3N0, o padrão é semelhante. Já para T4N0, soma-se a cobertura dos sítios de aderência com margem de 3–5 cm.

Os volumes nodais para a JGE incluem linfonodos perigástricos (PG), perioesofágicos (PEN), celíacos (CN) e mediastinais (MN), conforme o estadiamento N. Uma margem de 4 cm do esôfago deve ser incluída no CTV para tumores da junção gastroesofágica. A inclusão opcional de linfonodos para T2-3N0 é aceitável quando houve dissecção adequada D2 com pelo menos 10–15 linfonodos examinados.

CTV por Subsítio: Cárdia e Terço Proximal

Para tumores da cárdia e terço proximal, o estômago remanescente deve ser incluído poupando dois terços de um rim, geralmente o direito. O leito tumoral para T2N0 inclui hemidiafragma esquerdo medial e corpo do pâncreas adjacente, com ou sem cauda. Na doença T1-2N+, os volumes nodais expandem para incluir PG, CN, esplênico, suprapancreático (SP), com possibilidade de mediastinal (MN), pancreaticoduodenal (PD) e porta hepática (PH). Vale notar que PD e PH apresentam baixo risco quando a positividade nodal é mínima (1–2 linfonodos positivos com 10–15 examinados).

CTV por Subsítio: Corpo e Terço Médio

Distribuição dos grupos linfonodais e volumes clínicos alvo para radioterapia adjuvante do câncer gástrico incluindo cadeia celíaca, esplênica e porta hepática
Figura 15.4 — Distribuição nodal e CTV para RT adjuvante gástrica. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Nos tumores do corpo gástrico, o estômago remanescente sempre é incluído, poupando dois terços de um rim. O leito tumoral para T2-3N0 corresponde ao corpo do pâncreas com ou sem cauda. Os volumes nodais para doença T1-2N+ incluem PG, CN, esplênico, SP, PD e PH — praticamente todas as estações perigástricas e retroperitoneais relevantes.

CTV por Subsítio: Antro, Piloro e Terço Distal

Para tumores do antro e piloro, o estômago remanescente é incluído poupando dois terços do rim esquerdo (nota: inversamente ao que se faz na JGE). O leito tumoral para T2-3N0 compreende cabeça do pâncreas com ou sem corpo, além da primeira e segunda porções do duodeno. Os volumes nodais para T1-2N+ incluem PG, CN, SP, PD e PH, com inclusão opcional do hilo esplênico.

Casos Clínicos: CTV na Prática

Caso 1: T1N1M0 Adenocarcinoma da Cárdia — Gastrectomia Total

Cortes axiais de TC de planejamento mostrando delineamento do CTV para adenocarcinoma T1N1M0 da cárdia gástrica pós-gastrectomia total
CTV para T1N1M0 de cárdia pós-gastrectomia total — cortes axiais. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition
Detalhes de cobertura do CTV incluindo anastomose esofagojejunal, ligamento hepatogástrico, artéria celíaca e hilo esplênico para T1N1M0 gástrico
Cobertura da anastomose esofagojejunal, ligamento hepatogástrico, artéria celíaca e hilo esplênico. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Neste caso, o CTV engloba a anastomose esofagojejunal, o ligamento hepatogástrico, a artéria celíaca e o hilo esplênico. Como se trata de gastrectomia total em tumor da cárdia com linfonodo positivo, não há remanescente gástrico a incluir, mas os volumes nodais devem ser amplos.

Caso 2: T3N3M0 Adenocarcinoma do Corpo — Gastrectomia Distal

Cortes axiais de TC de planejamento mostrando CTV para adenocarcinoma T3N3M0 do corpo gástrico pós-gastrectomia distal
CTV para T3N3M0 do corpo gástrico pós-gastrectomia distal. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition
Detalhe da cobertura da artéria celíaca e hilo esplênico no planejamento de T3N3M0 gástrico do corpo
Cobertura da artéria celíaca e hilo esplênico. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition
Cobertura da anastomose gastrojejunal e estômago remanescente no CTV de câncer gástrico do corpo
Cobertura da anastomose gastrojejunal e estômago remanescente. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

Com doença T3N3, o CTV é extenso: inclui anastomose gastrojejunal, estômago remanescente, artéria celíaca, hilo esplênico e leito tumoral pancreático. Esse cenário exige atenção especial às restrições de dose nos órgãos de risco — particularmente rins e fígado — pois o volume de tratamento é considerável.

Caso 3: T2N1M0 Adenocarcinoma de Antro/Piloro — Gastrectomia Distal

Cortes axiais de TC de planejamento mostrando CTV para adenocarcinoma T2N1M0 do antro gástrico pós-gastrectomia distal
CTV para T2N1M0 de antro/piloro pós-gastrectomia distal. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition
Detalhes de cobertura do CTV para tumor de antro incluindo anastomose gastrojejunal, estômago remanescente e ligamento hepatogástrico
Cobertura da anastomose gastrojejunal, estômago remanescente e ligamento hepatogástrico. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition
Cobertura do coto duodenal e cobertura opcional do hilo esplênico no CTV de câncer de antro gástrico
Cobertura do coto duodenal e hilo esplênico opcional. Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition

No adenocarcinoma de antro/piloro, o CTV abrange a anastomose gastrojejunal, o estômago remanescente, o ligamento hepatogástrico e o coto duodenal. A cobertura do hilo esplênico é opcional neste cenário. A inclusão do coto duodenal é preferencial em gastrectomias parciais por tumores distais/antrais, mas não deve ser incluída em pacientes com tumores proximais submetidos a gastrectomia total.

Avaliação do Plano e Restrições de Dose

Em casos avançados, a equipe tipicamente prioriza as restrições de dose nos órgãos normais — especificamente medula espinhal, rins e fígado — sobre a cobertura completa do tumor. Na técnica 3D conformal, 100% do PTV45 deve receber ≥42,75 Gy (95% da dose prescrita), conforme ICRU 62. Com IMRT, 98% do PTV deve receber ≥42,75 Gy, conforme ICRU 83.

Restrições de Dose para OAR em Tumores Abdominais Superiores

Órgão de Risco Restrição de Dose Desfecho Taxa (%)
Medula espinhal Dmax = 50 Gy Mielopatia 0,2
Medula espinhal Dmax = 60 Gy Mielopatia 6
Medula espinhal Dmax = 69 Gy Mielopatia 50
Fígado inteiro Dose média 30–32 Gy RILD clássica <5
Fígado inteiro Dose média <42 Gy RILD clássica <50
Intestino delgado V45 < 195 cc (cavidade peritoneal inteira) Toxicidade aguda grau ≥3 <10
Coração Dose média <26 Gy (pericárdio) Pericardite <15
Coração V30 < 46% (pericárdio) Mortalidade cardíaca tardia <15
Coração V25 < 10% (coração inteiro) Mortalidade cardíaca <1
Rins bilaterais Dose média <15–18 Gy Disfunção renal clinicamente relevante <5
Rins bilaterais Dose média <28 Gy Disfunção renal clinicamente relevante <50

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 15.9)

A relação entre rins e volume de tratamento merece atenção particular no câncer gástrico. Para tumores da JGE e cárdia, o planejamento visa preservar dois terços do rim direito; para tumores do antro e piloro, preserva-se dois terços do rim esquerdo. Essa assimetria reflete a anatomia da extensão tumoral e do leito cirúrgico.

Considerações Gerais sobre o CTV Adjuvante

A tabela a seguir resume as considerações gerais que orientam a inclusão do coto duodenal, anastomose, linfonodos para-aórticos e linfonodos paraesofágicos.

Volume-Alvo Definição e Descrição
Coto duodenal Preferencialmente coberto em gastrectomia parcial por tumores distais/antrais. Não incluir em gastrectomia total por tumores proximais/cárdia
Anastomose Gastrojejunal (gastrectomia parcial para tumores distais) ou esofagojejunal (gastrectomia total para tumores proximais/JGE) — devem ser tratadas
Linfonodos para-aórticos Devem ser incluídos por toda a extensão do CTV
Linfonodos paraesofágicos Margem de 4 cm do esôfago incluída no CTV para tumores da junção gastroesofágica

Fonte: Target Volume Delineation and Field Setup, 2nd Edition (Tabela 15.3)

Os benefícios da IMRT na radioterapia gástrica adjuvante têm sido demonstrados em diversas publicações. Quando utilizada, tanto o leito tumoral quanto os volumes subclínicos (incluindo regiões de drenagem linfática) devem ser delineados individualmente. O PTV é gerado expandindo o CTV com margem de pelo menos 1 cm, considerando movimento de órgão e incertezas de posicionamento.

Outra série de artigos desta coleção aborda técnicas relevantes para planejamentos abdominais complexos — como no delineamento de câncer de es��fago e no planejamento do câncer de pâncreas, que compartilham desafios semelhantes de movimento de órgão e proteção renal.