Solução Simples, Impacto Real na Rotina do Radiologista
Um estudo publicado na revista Current Problems in Diagnostic Radiology demonstrou que a simples designação de assistentes administrativos de radiologia (RAAs) pode poupar centenas de horas de trabalho dos radiologistas, permitindo que eles se concentrem naquilo que realmente importa: a interpretação de imagens. A pesquisa, conduzida na rede Jones Radiology na Austrália, acompanhou o desempenho desse modelo ao longo de 12 meses.

O descompasso entre o volume de exames e o número de radiologistas disponíveis é um problema global que só se agrava. Muitos serviços apostam em soluções de alta tecnologia, como inteligência artificial, para extrair mais produtividade de profissionais que já operam no limite. Mas uma parcela significativa do dia do radiologista sequer envolve interpretação de imagens. São tarefas como comunicar achados a médicos solicitantes, localizar exames anteriores e realizar protocolização de estudos.
Pesquisas anteriores indicam que essas atividades não interpretativas podem consumir até 44% da jornada de um radiologista. É nesse ponto que a abordagem australiana se destaca pela praticidade: em vez de um projeto de TI complexo, basta redistribuir funções para profissionais administrativos treinados.
Como Funcionou o Modelo Australiano
Na rede Jones Radiology, que reúne 60 radiologistas em 30 unidades na Austrália, assistentes administrativos foram designados para trabalhar junto aos médicos durante o horário comercial. As tarefas eram atribuídas por meio de um recurso de resultados críticos integrado ao sistema PACS da rede, e cada radiologista podia escolher se e quando desejava utilizar o serviço.
A principal função dos RAAs era comunicar resultados críticos e significativos aos médicos solicitantes. Além disso, eles localizavam e importavam exames anteriores de outras instituições, sinalizavam estudos que precisavam de revisão prioritária, prestavam suporte de TI aos radiologistas e auxiliavam em tarefas de pesquisa.
Resultados em Números: 679 Horas Poupadas
O acompanhamento de 12 meses, entre 2021 e 2022, revelou dados consistentes. Os assistentes receberam 5.400 tarefas durante o período do estudo, resultando em uma economia de 679 horas de tempo dos radiologistas. Metade das tarefas (50%) envolvia a comunicação de achados significativos ou inesperados aos clínicos solicitantes. As demais incluíam busca de imagens externas, questões diversas e suporte técnico de TI.
Sobre a agilidade na comunicação de resultados, mais de 90% dos achados classificados como “importantes” foram comunicados dentro da meta de seis horas. Porém, apenas 55% dos achados “críticos” atingiram a meta de uma hora, sinalizando espaço para melhoria nos casos mais urgentes. Esse dado é relevante porque a comunicação tempestiva de achados críticos é um requisito regulatório em muitos países e uma das principais fontes de risco médico-legal em radiologia.
Contexto: O Radiologista Faz Muito Mais do que Laudar
O estudo reforça um ponto frequentemente ignorado no debate sobre produtividade: radiologistas desempenham inúmeras funções além da interpretação de imagens. Como observou a pesquisa, essa realidade parece ter escapado a alguns gestores hospitalares que enxergam o radiologista apenas como um “leitor de exames”. Na prática, o radiologista participa de reuniões multidisciplinares, orienta protocolos, supervisiona qualidade, interage com técnicos e responde a consultas clínicas ao longo de todo o dia.
Esse acúmulo de funções não é apenas uma questão de eficiência, é também um fator de burnout. Quando o profissional precisa interromper a leitura de exames para fazer ligações telefônicas ou rastrear imagens em sistemas externos, o fluxo de trabalho é fragmentado. Cada interrupção gera tempo perdido na retomada da concentração, o que impacta tanto a velocidade quanto a precisão diagnóstica.
Implicações para Serviços de Radiologia no Brasil
No cenário brasileiro, onde a escassez de radiologistas é ainda mais aguda em regiões fora dos grandes centros, a adoção de assistentes administrativos pode ser uma medida de alto impacto e baixo custo. A lógica é simples: se quase metade do dia do radiologista é consumida por tarefas que não exigem formação médica, alocar profissionais de apoio para essas funções equivale a quase duplicar a capacidade interpretativa da equipe sem contratar novos especialistas.
Além disso, essa abordagem pode funcionar como uma ponte para soluções tecnológicas mais complexas. Serviços que ainda não têm orçamento ou infraestrutura para implementar ferramentas de IA ou automação de workflow podem começar com a redistribuição de tarefas e, gradualmente, integrar tecnologia ao modelo já estabelecido.
Perspectivas Futuras
O modelo de assistentes administrativos não é necessariamente novo, mas este estudo oferece evidências concretas de sua eficácia em uma rede de larga escala. Os autores sugerem que os RAAs podem servir como precursores de soluções operacionais mais sofisticadas baseadas em TI. À medida que sistemas de PACS e RIS evoluem com capacidades de IA, a combinação de automação inteligente com suporte administrativo humano tende a oferecer os melhores resultados.
Uma limitação do estudo é que foi conduzido em um único grupo de radiologia australiano, o que pode limitar a generalização para outros modelos de atendimento. Outra questão aberta é o desempenho na comunicação de achados críticos dentro de uma hora, que ficou em 55%, sugerindo que os processos de escalonamento precisam ser refinados.
Fonte: The Imaging Wire




