Repetir sequências de ressonância magnética por causa do movimento do paciente consumiu 115 horas de magneto em seis meses, o equivalente a 268 horários de exame perdidos, em um grande sistema de saúde de Nova York. O estudo, publicado no Journal of the American College of Radiology (JACR) por radiologistas da NYU Grossman School of Medicine em parceria com a Siemens Healthineers, analisou 85.349 exames de RM e encontrou pelo menos uma sequência repetida em 4,8% deles. O dado mais útil, porém, é outro: repetir nem sempre resolve. Na RM de encéfalo a repetição quase sempre melhorou a imagem; na colangiorressonância (MRCP), não trouxe ganho estatisticamente significativo.

O que o estudo da NYU mediu
O trabalho, assinado por Siddhant Dogra e colegas, com Hersh Chandarana como autor sênior, é retrospectivo e cobre seis meses de exames realizados em equipamentos com analítica em nível de sequência, isto é, com registro de cada aquisição feita durante o exame. A equipe identificou os exames em que o próprio tecnólogo marcou uma sequência como repetida. Três autores são da divisão de Ressonância Magnética da Siemens Healthineers, em Erlangen, na Alemanha.
Dos 85.349 exames, 4.072 tiveram ao menos uma sequência refeita. A frequência variou bastante conforme o segmento: foi máxima na pediatria (9,9%) e mínima na RM de mama (3,5%). Segundo a análise publicada pelo The Imaging Wire, o tempo de repetição somado chegou a 115 horas de aparelho, ou 268 horários de agenda. Por conta própria, fizemos a conta inversa: dá cerca de 1,7 minuto a mais, em média, por exame afetado. Parece pouco até se multiplicar pelo volume de um serviço grande.
A segunda parte do estudo foi uma avaliação de leitura. No encéfalo, quatro leitores compararam 87 pares de sequências (original e repetição) de 77 pacientes, pontuando qualidade de imagem, confiança diagnóstica e se pediriam mais uma repetição. A repetição melhorou todas as métricas de forma significativa (p<0,001), mas 19,5% das sequências repetidas não melhoraram, e o ganho caiu à medida que aumentava o tempo decorrido de exame. Na MRCP, dois leitores avaliaram 30 pares de 27 pacientes: a repetição não melhorou significativamente nem a qualidade nem a confiança, e ambos os leitores teriam pedido mais uma repetição em metade dos casos.
Por que o encéfalo responde e a MRCP não
A diferença faz sentido do ponto de vista físico. No encéfalo, o movimento costuma ser voluntário e episódico: o paciente mexe a cabeça, engole, se ajeita. Uma nova aquisição, com orientação e imobilização melhores, tem boa chance de sair limpa. Além disso, as sequências de encéfalo são relativamente curtas e há alternativas robustas ao movimento, como a amostragem radial do k-espaço (PROPELLER/BLADE).
A MRCP depende de sequências 3D de alta ponderação T2, em geral sincronizadas com a respiração. O artefato aí vem de irregularidade respiratória, peristalse e dificuldade de apneia, fatores que se repetem na tentativa seguinte. Quando a causa é fisiológica e persistente, refazer a mesma sequência tende a reproduzir o mesmo problema, só que com mais tempo de mesa. Os autores não detalham o mecanismo, mas o resultado reforça uma leitura clara: a decisão de repetir deveria depender da região anatômica e do tipo de sequência, não de um reflexo padrão.
A queda do benefício com o tempo de exame também tem uma interpretação intuitiva, que é nossa e não dos autores: paciente cansado, desconfortável ou ansioso após muitos minutos no túnel dificilmente fica mais parado na terceira tentativa.
4,8% é pouco? O contexto da literatura
A taxa encontrada é menor que a de estudos anteriores sobre repetição por movimento, que variaram de 7,5% a 30%. Um trabalho clássico da Universidade de Washington, também no JACR, em 2015, estimou repetição de sequências em cerca de 20% dos exames e perda de receita da ordem de US$ 115 mil por aparelho por ano.
Há duas explicações possíveis, e ambas aparecem na análise do The Imaging Wire. A primeira é metodológica: o estudo conta apenas repetições marcadas pelos tecnólogos, o que provavelmente subestima o total, já que nem toda repetição é rotulada. A segunda é tecnológica: nos últimos dez anos os serviços adotaram protocolos mais curtos, imagem paralela, compressed sensing e reconstrução por deep learning, que reduzem o tempo de aquisição e, com ele, a janela para o paciente se mexer.
O que isso muda na operação de um serviço de RM
A principal recomendação dos autores é acompanhar a repetição em nível de sequência, e não só em nível de exame. Com esse dado, o gestor passa a saber em qual protocolo, em qual aparelho e em qual turno se perde mais tempo, e pode agir de forma dirigida: reforçar a orientação do paciente, trocar uma sequência cartesiana por uma radial, encurtar um protocolo ou definir quando não vale a pena refazer.
Para os serviços brasileiros, onde a hora de magneto é cara e a fila de RM no SUS e na saúde suplementar é longa, 268 horários em seis meses significam pacientes que poderiam ter sido atendidos. Já mostramos que a eficiência em RM pode elevar a receita por aparelho em até 60% e que ferramentas de IA conseguem reduzir a espera por ressonância em mais de 50%. Medir repetições é um passo anterior e barato a qualquer uma dessas iniciativas.
A pediatria merece atenção à parte. Com quase 10% de repetição, é o segmento que mais se beneficia de protocolos rápidos, técnicas de imobilização e preparo lúdico, como discutido em nossa cobertura sobre a RM rápida no trauma cranioencefálico pediátrico. E o fator humano pesa: a falta de tecnólogos, tema do nosso texto sobre a nova graduação em RM da DeVry, afeta diretamente a qualidade da orientação ao paciente, que é a primeira linha contra o movimento.
Limitações e próximos passos
O estudo é de um único sistema de saúde, com equipamentos de um fabricante e participação desse fabricante na autoria, o que limita a generalização. A dependência da marcação manual pelo tecnólogo é a limitação mais importante, porque subestima a taxa real. As amostras das análises de leitura também são pequenas, especialmente na MRCP, com 30 pares, o que pede cautela ao afirmar que a repetição “não funciona” nesse exame.
Ainda assim, o recado é prático: o movimento continua custando tempo real de aparelho, e nem toda repetição compra qualidade. A tendência é que correção de movimento prospectiva, sensores externos e reconstrução por IA reduzam o problema. Até lá, saber onde se repete, e onde repetir não compensa, já é ganho operacional.
Fonte: The Imaging Wire; estudo original: Dogra S et al., J Am Coll Radiol, 2026




