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Em julho de 2022, uma tomografia de rastreamento cardíaco feita na Carolina do Sul mostrou um nódulo pulmonar de 8 mm. O radiologista fez exatamente o que se espera: descreveu o achado incidental no laudo e recomendou uma TC de controle em 6 a 12 meses. O exame de controle aconteceu em maio de 2025 — dois anos e nove meses depois. A essa altura o nódulo era uma massa de 3,1 cm no pulmão esquerdo, e o diagnóstico final foi câncer de pulmão não pequenas células em estágio 4, com metástase óssea. A paciente processa o Roper St. Francis Hospital e seu médico de atenção primária. O radiologista não é réu.

Profissional de saúde analisando imagens de tórax em negatoscópio para fins diagnósticos
O achado estava no laudo desde 2022. O que não existia era o circuito que transforma recomendação em exame agendado.

A cronologia, segundo a ação judicial

Todos os fatos abaixo são alegações da petição inicial; não há sentença. Segundo a ação, o médico de atenção primária nunca comunicou o achado à paciente e nunca solicitou a TC recomendada. Um ano depois, em consulta anual de rotina, o nódulo não foi mencionado e nenhum plano de seguimento foi documentado. Em julho de 2024, a paciente relatou sintomas respiratórios novos e progressivos — sibilância intermitente, tosse crônica e falta de ar aos esforços. A conduta registrada foi atribuir o quadro a alergia e possível asma, com prescrição de salbutamol e anti-histamínicos.

No início de 2025 a dispneia já aparecia a esforços mínimos. Ela procurou um pneumologista de um serviço afiliado ao mesmo hospital. Ao revisar o prontuário antes da consulta, o especialista encontrou o achado de 2022 e pediu a TC de tórax, realizada em 7 de maio de 2025. O radiologista que comparou os dois exames descreveu alterações “altamente preocupantes para malignidade metastática, provavelmente de origem pulmonar”, com indicação de PET e amostragem tecidual. A biópsia confirmou. Em junho, uma segunda opinião no MD Anderson, em Houston, manteve o diagnóstico e o plano — paliativo, não curativo.

A tese da acusação não mira o laudo. Mira a ausência de protocolo: a alegação é que o hospital e seus médicos não mantinham sistemas capazes de garantir que uma recomendação de seguimento por imagem fosse executada nos prazos indicados e comunicada ao paciente.

Por que um nódulo de 8 mm em exame cardíaco não é detalhe

Vale entender o contexto técnico. Uma TC para escore de cálcio coronariano cobre parte significativa dos campos pulmonares — o achado pulmonar incidental é esperado nesse exame, não excepcional. E 8 mm cai justamente na faixa em que a conduta muda.

Pelas diretrizes da Fleischner Society de 2017, referência internacional para nódulos pulmonares incidentais em adultos a partir de 35 anos, um nódulo sólido único de 6 a 8 mm pede TC de controle em 6 a 12 meses, com possível novo controle em 18 a 24 meses conforme o risco. Acima de 8 mm, a recomendação escala para TC em 3 meses, PET/TC ou amostragem tecidual. A recomendação registrada no laudo de 2022 estava, portanto, alinhada à diretriz. O sistema é que não a executou.

Uma ressalva importante: as diretrizes de Fleischner não se aplicam a nódulos encontrados em programa de rastreamento pulmonar — esses seguem o Lung-RADS — nem a pacientes com câncer conhecido ou imunossupressão. A distinção importa porque muda o intervalo e o grau de agressividade da conduta, e confundir os dois sistemas é uma fonte comum de seguimento inadequado.

O elo que quebrou não foi o diagnóstico

Esse é o ponto que interessa a quem trabalha com imagem. O radiologista viu, descreveu e recomendou. O erro aconteceu no trecho seguinte do circuito: comunicação, agendamento, rastreio da pendência. Em quase todo serviço, esse trecho não tem dono formal.

A comunicação de achados acionáveis tem parâmetro de prática do ACR e é objeto de meta de segurança do paciente da Joint Commission, mas a régua costuma se limitar ao crítico — o achado que exige contato imediato. O nódulo de 8 mm não é crítico; ele é acionável em meses. Essa categoria intermediária — importante, não urgente — é exatamente onde as pendências evaporam, porque não dispara telefonema nem alarme, apenas uma frase no fim do laudo.

Some-se a isso a variabilidade da própria descrição. Já mostramos que o laudo de TC de pulmão varia muito entre radiologistas, inclusive na forma de redigir a recomendação de seguimento. Recomendação escrita em texto livre, sem código, sem data-alvo e sem campo estruturado, é invisível para qualquer sistema automatizado — e depende inteiramente de um humano ler, lembrar e agir.

O que um circuito fechado exige na prática

“Closed-loop” não é software; é um processo com quatro exigências que a maioria dos serviços não cumpre por inteiro:

Marcar de forma legível por máquina. A recomendação precisa ser um campo estruturado — modalidade, intervalo, data-limite — e não uma frase solta. Sem isso não existe fila; existe arquivo. Registrar a pendência em uma lista viva. Alguém, ou algum sistema, precisa manter um registro de recomendações abertas com data de vencimento. Escalonar o vencido. Quando a data passa sem exame realizado, o caso tem de subir para uma pessoa nomeada — navegador de cuidado, enfermeira de seguimento, coordenação clínica. Fechar com o paciente. O paciente precisa saber que existe um exame a fazer e quando fazê-lo, sem depender de lembrar de uma conversa de consulta.

Ferramentas de extração automática de recomendações em texto livre existem e funcionam razoavelmente bem, e esse é um dos usos de IA em radiologia com retorno mais claro — como no caso do acesso do paciente ao laudo antes do médico, que criou pressão adicional para que a comunicação seja estruturada desde a origem. Mas nenhuma ferramenta substitui a definição de quem responde pela pendência quando ela vence.

Leitura brasileira do mesmo problema

No Brasil, o radiologista quase nunca tem canal direto com o paciente, e o laudo trafega por um sistema de informação que raramente conversa com a agenda. O resultado é o mesmo circuito aberto, com dois agravantes: a fragmentação entre operadora, clínica de imagem e médico assistente, e a ausência de obrigação formal de rastrear recomendações de seguimento.

Há um caminho de baixo custo antes de qualquer investimento em plataforma: padronizar a frase de recomendação com intervalo explícito, marcar o laudo com um código recuperável, extrair mensalmente a lista de recomendações emitidas e conferir quantas viraram exame. O primeiro relatório costuma ser desconfortável — e é exatamente por isso que vale fazer. A literatura já mostrou que achados incidentais em TC de pulmão sinalizam risco real de câncer; a questão nunca foi se o achado importa, e sim se alguém vai buscá-lo de volta.

O que este caso ensina antes da sentença

Independentemente do desfecho judicial, a lição operacional já está posta. Um laudo tecnicamente correto não protege o paciente nem o serviço se a recomendação morre no arquivo. Do ponto de vista de risco, o radiologista que escreve “controle em 6-12 meses” e não tem como saber se o controle aconteceu está assumindo uma exposição que não controla — e o paciente, uma que nem sabe que existe.

Fonte: Radiology Business