A medicina nuclear deixou de ser apoio para a imagem e passou a ocupar o centro da oncologia de precisão. Foi essa a mensagem do encontro anual de 2026 da SNMMI (Society of Nuclear Medicine and Molecular Imaging), em Los Angeles, onde teranóstica, terapia com radiofármacos e PET/CT cardíaco dominaram a agenda — com um recado claro: a ciência já existe, o capital está entrando e o gargalo agora é a execução.

O que antes girava em torno de scanners de PET/CT, traçadores e pesquisa virou um negócio de plataforma. Ele se constrói sobre produção de isótopos, fabricação de radiofármacos, imagem por PET, fluxo de trabalho com IA, entrega de terapia, encaminhamentos oncológicos, imagem cardíaca, reembolso, conformidade regulatória e operações escaláveis. É uma cadeia inteira, não um único equipamento.
Da imagem ao tratamento: a teranóstica no centro
A medicina nuclear está se tornando peça central na decisão oncológica. PSMA, DOTATATE, amiloide, tau, PET cardíaco e terapias com radionuclídeos foram apresentados como partes de um ecossistema maior de medicina de precisão. As sessões focaram nos pontos de pressão que vão decidir quem prospera: disponibilidade de isótopos, capacidade de radioquímica, reembolso, acesso do paciente, dosimetria, equipe treinada, suporte de radiofarmácia, fluxo de trabalho com IA e prontidão dos centros de tratamento.
A teranóstica — combinar um traçador diagnóstico e um agente terapêutico que miram o mesmo alvo molecular — é o que coloca a medicina nuclear na mesma categoria estratégica da imunoterapia e das terapias celulares. A imagem com PSMA, a terapia baseada em lutécio-177 e as terapias alfa-dirigidas com actínio-225 ($^{225}$Ac) foram destaque. A programação alinhada à ASCO conectou dados de ensaios oncológicos diretamente à medicina nuclear, reforçando que o campo agora faz parte da estratégia oncológica de verdade.
O exemplo mais maduro é o câncer de próstata: a mesma molécula que se liga ao PSMA serve para enxergar a doença no PET e, acoplada a um radionuclídeo terapêutico, para tratá-la. Esse “ver e tratar” com o mesmo alvo é o que torna a teranóstica tão atraente — e tão dependente de uma cadeia industrial confiável, do cíclotron ou gerador até a beira do leito.
PET/CT cardíaco: o novo horizonte
A imagem cardíaca vive sua própria mudança de plataforma. O mercado está migrando do tradicional SPECT para o PET/CT cardíaco, em que o tempo de exame cai de várias horas para cerca de 15 minutos, ao mesmo tempo em que se ganha quantificação mais robusta, eficiência de fluxo e confiança diagnóstica. Para hospitais, clínicas de cardiologia e operadores de imagem ambulatorial, é um desenvolvimento de peso.
O PET/CT cardíaco não é apenas um exame mais rápido. Ele traz a quantificação do fluxo sanguíneo miocárdico, melhor qualidade de imagem, menor exposição à radiação e uma avaliação mais precisa da doença arterial coronariana e da doença microvascular — justamente os quadros que o SPECT tem mais dificuldade de caracterizar. A capacidade de medir reserva de fluxo coronariano muda a conversa diagnóstica em pacientes com sintomas e coronárias sem obstrução evidente.
O verdadeiro gargalo é a execução
Inovação chama atenção, mas é o reembolso que determina a adoção. Em toda a linha — oncologia, neuro-PET e PET cardíaco — a incorporação depende de valor clínico, acesso, fluxo de trabalho e clareza de pagamento. O actínio-225 e o lutécio-177 só chegam ao paciente se houver isótopo disponível, radiofarmácia para manipular e um centro pronto para administrar a dose com dosimetria adequada.
É aí que mora o gargalo. A demanda está crescendo e o capital, se movimentando, mas a capacidade de produção de isótopos, a radioquímica e a força de trabalho treinada não acompanham no mesmo ritmo. Resolver isso é menos um problema científico e mais um desafio de infraestrutura, regulação e formação de pessoal — exatamente os temas que ocuparam os corredores em Los Angeles.
Implicações para a prática e para o Brasil
Para o profissional de imagem e radioterapia, o recado é planejar para um futuro em que diagnóstico e terapia caminham juntos. Já tratamos de como a teranóstica foi eleita a imagem do ano no SNMMI 2026; o que esta análise acrescenta é a dimensão operacional — sem cadeia de suprimento de isótopos e reembolso, a promessa clínica não se realiza.
No Brasil, onde a oferta de PET/CT ainda se concentra em grandes centros e a produção de radiofármacos é limitada, antecipar essa curva é estratégico. O mesmo PET que sustenta a teranóstica também viabiliza aplicações em neuroimagem, como o PET de tau para detecção de encefalopatia, ampliando o retorno sobre o investimento em um único parque tecnológico. Para serviços que pensam em expandir, a leitura é clara: investir em PET/CT hoje é investir em uma plataforma, não em um exame isolado.
Perspectivas
O SNMMI 2026 consolidou uma transição: a medicina nuclear como pilar da oncologia e, cada vez mais, da cardiologia. Os próximos anos vão testar se a infraestrutura — isótopos, radioquímica, dosimetria e pessoal — consegue acompanhar a demanda clínica. Quem resolver primeiro o problema de execução vai capturar a maior parte do valor desse mercado em rápida expansão.
Fonte: DOTmed — Theranostics, cardiac PET/CT and the next infrastructure buildout at SNMMI




