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O que o estudo revela

Lesões anexiais classificadas como O-RADS 4 ou O-RADS 5 na ultrassonografia pélvica deveriam funcionar como sinais de alarme — categorias que, em tese, indicam alta probabilidade de malignidade. Um novo estudo publicado em Radiology joga um balde de água fria sobre esse pressuposto: 62% das lesões classificadas como O-RADS 4 ou 5 acabaram sendo benignas. O dado pressiona o valor preditivo positivo (VPP) das categorias mais altas do sistema da ACR e reabre o debate sobre triagem ultrassonográfica de ovário.

Ultrassom pélvico mostrando lesão ovariana com componente sólido
Ultrassom pélvico de lesão anexial com componente sólido — achado clássico de O-RADS 4/5.

O O-RADS US (Ovarian-Adnexal Reporting and Data System para ultrassonografia) foi proposto pela ACR para padronizar laudos e estratificar risco em lesões anexiais. As categorias de 1 a 5 mapeiam probabilidade crescente de malignidade; lesões 4 e 5 deveriam, na prática, levar à indicação de avaliação por imagem complementar (RM, US com contraste) ou intervenção cirúrgica. Quando 62% dessa população se confirma benigna na histopatologia, a conta sai cara para a paciente.

Metodologia e amostra

O estudo, multicêntrico e retrospectivo, analisou 219 lesões ovarianas ou anexiais em 203 pacientes (mediana de idade de 47 anos) submetidas a ultrassonografia pélvica. Das 219 lesões, 133 foram inicialmente classificadas como O-RADS US 4 e 86 como O-RADS US 5. Após acompanhamento e análise histopatológica:

  • 135 das 219 (62%) eram benignas no total.
  • 84% das O-RADS 4 (112/133) eram benignas.
  • 27% das O-RADS 5 (23/86) eram benignas.

Os autores, liderados pela radiologista Priyanka Jha (Stanford), reportam que cistadenomas e cistadenofibromas responderam por 46% das lesões benignas classificadas como O-RADS 4 ou 5. Esses tumores podem apresentar projeções papilares e nódulos murais — achados que classicamente sinalizam malignidade.

Por que tantos falsos positivos?

Dois achados de imagem dominaram os casos mal classificados:

  1. Componente sólido em 71% das lesões benignas mal classificadas.
  2. Multiloculação em 45% dos casos.

“Componentes sólidos e multiloculação em lesões benignas podem mimetizar malignidade e levar à classificação como O-RADS US 4 ou 5, em última análise reduzindo o valor preditivo positivo dessas categorias”, escrevem os autores. A leitura simples: as features usadas para subir uma lesão na escala de risco não são suficientemente discriminativas quando se trata de cistadenoma fibromatoso ou tumores com tecido fibroso denso.

Três pontos-chave para a prática

O estudo deixa lições operacionais claras para o radiologista clínico:

  • Alta taxa de falsos positivos: uma parcela substancial das lesões “alto risco” no US são benignas — 84% das O-RADS 4 e 27% das O-RADS 5. Isso reduz o VPP e limita a confiabilidade da categorização para estratificação de malignidade.
  • Mimetizadores principais: componente sólido (71%) e multiloculação (45%) lideram a confusão diagnóstica.
  • Imagem complementar e refinamento técnico: avaliação dinâmica (movimento do componente sólido, sombra acústica) e seguimento com US contrastado (CEUS) ou RM podem melhorar a diferenciação entre tecido sólido verdadeiro e mimetizadores.

Implicações para a conduta

O paper sugere caminhos práticos para reduzir falsos positivos. Cine clips durante a aquisição podem revelar mobilidade do componente sólido (sugestiva de detrito ou coágulo organizado, não tumor) e sombras acústicas que apontam para calcificações em cistadenofibroma. CEUS e RM oferecem informação adicional: ambas conseguem demonstrar enhancement em tecido vascularizado de verdade, com curvas tempo-intensidade úteis para diferenciar lesões benignas de malignas.

Para o serviço brasileiro que opera com volumes altos de ultrassonografia ginecológica, a discussão se sobrepõe à do nomograma de TC para manejo do câncer de ovário e à expansão de plataformas oncológicas como o MIM ComboTherapy GYN. A imagem ginecológica está em transição rápida: laudo padronizado, imagem multimodal e algoritmos de IA vêm sendo testados para refinar a estratificação de risco.

Limitações reconhecidas pelos autores

O próprio grupo de Stanford lista limitações importantes:

  • Pacientes com avaliação inicial benigna foram excluídos, o que pode enviesar a estimativa de VPP para baixo.
  • Não houve revisão central de imagens por especialistas; cada caso permaneceu com a interpretação do serviço original.
  • Os exames foram realizados por tecnólogos sem treinamento específico em imagem ginecológica em parte dos casos — fator que pode ter aumentado a variabilidade de aquisição.

Essas limitações importam: serviços com radiologistas dedicados à imagem da pelve feminina e operadores treinados em US ginecológico provavelmente alcançam VPPs superiores aos reportados no estudo. Ainda assim, a lição se mantém — o US sozinho não basta para confirmar malignidade em lesões anexiais.

O que esperar

A literatura recente caminha para protocolos que combinam US dinâmico, CEUS e RM em casos selecionados, com algoritmos de IA emergindo como apoio à classificação. Espera-se que a próxima revisão do O-RADS US incorpore explicitamente esses achados — possivelmente recalibrando os critérios para componente sólido e multiloculação ou subdividindo as categorias 4 e 5 com base em features adicionais. Até lá, o radiologista experiente continua sendo o filtro mais confiável contra cirurgias desnecessárias.

Fonte: Diagnostic Imaging — Over 60 Percent of O-RADS 4 and 5 Lesions on Ultrasound Are Benign