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Primeira diretriz dedicada a artefatos em ecocardiografia chega para reduzir erro diagnóstico

A American Society of Echocardiography (ASE) publicou em 4 de maio de 2026 a primeira diretriz dedicada exclusivamente à identificação e mitigação de artefatos em ecocardiografia. O documento, intitulado "Recommendations for the Identification and Mitigation of Cardiac Ultrasound Artifacts", cobre todos os modos da ecocardiografia atual — bidimensional, Doppler espectral, color Doppler e eco tridimensional — e responde a uma constatação incômoda: apesar dos avanços de hardware e software dos últimos anos, artefatos seguem prevalentes em todos os modos e podem provocar erros graves de diagnóstico.

Médica realizando exame de ultrassom em paciente em clínica moderna, ilustrando ecocardiografia
A ASE publica a primeira diretriz internacional dedicada exclusivamente a artefatos em ecocardiografia, com vídeos e casos.

O ponto sensível é que artefatos não são erros aleatórios: surgem das próprias propriedades físicas do ultrassom — reverberação, sombra acústica, mirror image, side-lobe, entre outros — e podem ser amplificados por interferência de equipamentos externos que emitem ondas ultrassônicas. Sem treinamento específico, é fácil interpretar uma reverberação como dissecção de aorta ou um artefato de near-field como trombo ventricular, com consequências clínicas graves.

O que a diretriz traz

A publicação organiza o conhecimento em três blocos. Primeiro, descreve as características visuais dos artefatos mais comuns em cada modo — desde reverberação e shadowing até comet tails, beam-width artifacts e refraction artifacts. Segundo, explica os mecanismos físicos que geram cada artefato, ajudando o operador a entender quando esperar o aparecimento. Terceiro, apresenta estratégias práticas de mitigação: ajustes de ganho, foco, frequência, profundidade, harmônica tecidual e reposicionamento de janela acústica.

Para a presidente do comitê responsável, Dr. Muhamed Saric, diretor de ecocardiografia da NYU Langone, a iniciativa "é o primeiro documento publicado por uma sociedade de imagem focado exclusivamente em artefatos de ecocardiografia". Saric reforça que sonografistas e clínicos precisam reconhecer esses "calcanhares de Aquiles" do ultrassom para reduzir o risco de erros em condições críticas como dissecção de aorta e trombo ventricular. Outro diferencial do documento é a coleção extensa de figuras e vídeos de casos reais, que se torna recurso de referência para treinamento e revisão clínica.

Por que isso importa para a prática clínica brasileira

A ecocardiografia é o exame de imagem cardíaca mais executado no Brasil, com ampla penetração em hospitais públicos e privados. A formação técnica do sonografista cardíaco brasileiro é heterogênea — varia conforme a residência, especialização e experiência prática. Em centros de menor volume, o reconhecimento de artefatos pode ficar exposto a falhas individuais, com impacto direto em decisões cirúrgicas, anticoagulação e indicação de TC angio-aorta.

A diretriz da ASE oferece padronização internacional que pode ser absorvida pelas sociedades brasileiras (DIC, DECARDIO, SBC) em programas de educação continuada. Para serviços que adotam segunda leitura ou peer review estruturado, o documento serve como referência objetiva para discutir casos limítrofes em programas de eficiência de interpretação em radiologia e em ações conjuntas com cardiologia clínica e cirurgia cardiovascular.

Hardware ajuda, mas educação continua sendo essencial

Inovações recentes em transdutores, algoritmos de beamforming, harmônica tecidual e processamento de imagem com IA prometem reduzir a frequência de artefatos. Sistemas de eco modernos já trazem filtros adaptativos para reverberação e correção dinâmica de speckle. Mas a diretriz é categórica: educação do operador continua essencial. Cada novo equipamento precisa ser revalidado quanto a presets, ajustes locais e protocolos de aquisição. Quem pula essa etapa, paga em qualidade de imagem.

Há também o eixo de IA. A IA tem demonstrado superioridade em algumas tarefas radiológicas e algoritmos de detecção automática de câmaras cardíacas, fluxo color e segmentação de paredes vêm sendo embarcados em equipamentos de eco. A diretriz cita esse movimento, mas reforça que a IA ainda é assistiva, não substitui o julgamento clínico do sonografista frente a um artefato evidente. A combinação ideal envolve hardware moderno, IA de apoio e operador treinado segundo recomendações como as da ASE.

Como adaptar a rotina

Centros de eco no Brasil podem aproveitar a publicação em quatro frentes. Primeiro, atualizar protocolos institucionais de aquisição com checklist de mitigação de artefatos por modo (2D, espectral, color, 3D). Segundo, incorporar a coleção de vídeos da ASE em treinamentos internos de sonografistas e residentes. Terceiro, revisar laudos retrospectivos em busca de potenciais discrepâncias atribuíveis a artefatos, especialmente em casos cirúrgicos divergentes. Quarto, criar fluxos de segunda opinião para imagens duvidosas em condições de alto risco — dissecção, trombo, vegetação, derrame com tamponamento.

A iniciativa da ASE também conversa com movimentos paralelos na imagem cardíaca: a distribuição de sistemas Philips de ultrassom cardíaco pela Heart Medical e a expansão do parque instalado pressionam por padrões de qualidade mais explícitos. Diretrizes operacionais como esta entregam justamente o anteparo educacional que falta em muitos serviços.

Próximos passos esperados

Espera-se que sociedades regionais publiquem traduções e versões adaptadas, e que comitês de qualidade hospitalar incorporem itens da diretriz em métricas de auditoria. Em paralelo, fabricantes de equipamentos provavelmente atualizarão materiais de treinamento e tutoriais embarcados no console — caminho que já se observou após diretrizes anteriores da ASE sobre eco fetal e eco de estresse. Para o sonografista cardíaco brasileiro, a recomendação é direta: ler o documento, revisar a coleção de vídeos e incluir a checagem de artefatos como etapa explícita do protocolo de aquisição.

Fonte: Imaging Technology News — New Guideline for Cardiac Ultrasound Artifacts Released by ASE.